Trabalhar no Alentejo como no centro de Londres

Tendo as condições, nomeadamente tenológicas, para desempenhar a sua atividade sem obstáculos, não há nada que impeça uma programadora, um designer gráfico, uma arquiteta, um artista plástico, uma escritora, de trabalharem numa pequena cidade ou vila alentejana como se estivessem no centro de Londres ou do outro lado do Atlântico.

Por Maria da Graça Carvalho, eurodeputada

A pandemia de COVID-19 obrigou-nos a repensar a forma como trabalhamos, como comunicamos, como interagimos uns com os outros. Redes sociais, aplicações de videoconferência, de teletrabalho e outros recursos online, que já vinham a ganhar popularidade a um ritmo constante, assistiram a uma explosão no número de utilizadores. As empresas e instituições organizaram-se muito rapidamente para responderem a este desafio e, nas atividades em que tal era possível, o trabalho à distância acabou por ser decisivo para atenuar as consequências da crise económica que veio com a crise na saúde. 

É claro que queremos todos retomar plenamente as nossas vidas, e que, na maioria dos casos, a presença física nos locais de trabalho, mesmo em atividades que podem ser desempenhadas remotamente, tem vantagens que nenhuma aplicação pode replicar. Mas estes tempos ajudaram também a mostrar que é possível ser produtivo, em algumas atividades até com ganhos de eficácia, sem estar em permanência no espaço físico a que convencionámos chamar de local de trabalho.   

Quando as nossas vidas regressarem definitivamente ao normal, é muito provável que se trate de um novo normal. Muitas empresas têm assumido o interesse em manter algum nível de teletrabalho. Muitos trabalhadores veem nessa modalidade, pelo menos a tempo parcial, uma boa forma de conjugar a vida profissional e pessoal, de poupar horas em deslocações e evitar despesas que podem ser aplicadas de outra forma. E se pensarmos em atividades mais independentes, é provável que muitos trabalhadores se estejam a interrogar se precisam mesmo de estar baseados em grandes cidades, próximos dos “centros de decisão”, quando esses centros continuam acessíveis, à distancia de um clique, estejam onde estiverem. 

Se conjugarmos estes factos com as crescentes preocupações ambientais dos cidadãos, com o desejo que muitos sentem de viver mais perto da natureza, com mais sossego, segurança e, se possível, custos de vida mais baixos, não é difícil de imaginar um contexto em que o tradicional fluxo migratório do campo para as cidades, que marcou todo o século XX e tem continuado no início deste, possa vir a ser parcialmente substituído por um impulso inverso. 

Tendo as condições, nomeadamente tenológicas, para desempenhar a sua atividade sem obstáculos, não há nada que impeça uma programadora, um designer gráfico, uma arquiteta, um artista plástico, uma escritora, de trabalharem numa pequena cidade ou vila alentejana como se estivessem no centro de Londres ou do outro lado do Atlântico. 

Esta é uma possibilidade de atrair novos residentes, tanto nacionais como estrangeiros, que não deve ser desprezada pelos municípios do Interior de Portugal. Nos últimos anos, o país tem registado algum sucesso a apresentar-se como boa opção para quem pretende passar uma reforma tranquila, com um clima ameno e um custo de vida que ainda é competitivo à escala europeia. Talvez seja a altura de se pensar em formas de dirigir esses esforços para captar também população ativa.

Consegui-lo implicará não perder o comboio de revoluções digitais muito importantes, com o 5G à cabeça, mas também recuperar serviços e equipamentos em que se foi desinvestindo ao longo dos anos, como estradas, transportes públicos, escolas e serviços de saúde. A boa notícia é que fazê-lo não beneficiará apenas os que vão, mas também todos os que já lá estão.




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