“Empreender a transformação digital requer esforços e custos que num mercado onde a liquidez das empresas é limitada é mais difícil”

O “annus horribilis” de 2020 chega ao fim, com a esperança ao fundo do túnel. Claramente marcado pelos efeitos da pandemia, o exercício deste ano empresarial caracterizou-se pela entrada em cena de uma nova forma de operar por parte de empresas e instituições, que se viram obrigadas a dar o último salto para o mundo digital. Ricardo Pires Silva, Diretor Executivo do SAS Portugal, falou com o Computerworld sobre o ano que encerra, mas essencialmente analisou o que nos reserva 2021.

Por João Miguel Mesquita

 Ricardo Pires Silva, Diretor Executivo do SAS Portugal

Em termos de negócio, que balanço faz de 2020? De que forma a pandemia influenciou o negócio do SAS e quais as consequências?

Não há dúvida que 2020 foi um ano de desafios a todos os níveis. Começando pela saúde, o maior “bem” que possuímos, aquele do qual privados anula qualquer conversa sobre economia. No entanto, o balanço que faço deste ano é, apesar de tudo, bastante positivo.  

Gostava de fazer uma menção às equipas do SAS e à forma como responderam. Temos que ter em consideração, e isto diz-se pouco, que este ano pedimos um esforço muito grande às nossas pessoas. Refazer planos inteiros, interromper certas atividades cruciais para algumas áreas, continuar a trabalhar e ser produtivos estando em casa com os filhos; ter agilidade mental para lidar com todas essas coisas e ainda ter um sorriso pela manhã. Quando colocamos todos esses fatores juntos, acho que devemos estar muito gratos pela forma como as pessoas lidaram com a pandemia e a disrupção no mundo do trabalho.

Em termos de negócio, o SAS, e o seu portfolio de tecnologia e serviços, foi e continua a ser muito relevante neste momento. A transformação digital forçada impulsou a necessidade de fazer uma boa gestão e análise de dados, para sermos capazes de tomar decisões num curto espaço de tempo e com muito impacto nos negócios e na vida das pessoas.

Aquilo que também observamos, e que se calhar foi um dos grandes bloqueios na adoção de soluções avançadas, foi que a situação económica volátil que estamos a viver desacelera o investimento, é inevitável e acontece em todas as situações de crise. As empresas têm mais dificuldade em assumir projetos estruturais quando o horizonte económico é incerto. 

No entanto, são muitas as organizações que viram na analítica do SAS a forma de poder continuar a operar com êxito no âmbito digital, com menores custos e inclusive aumentando a sua base de clientes.     

Portanto o balanço para o SAS, como dizia anteriormente, é positivo porque tanto a nível de receitas como de projeção de negócio vemos muitas oportunidades para crescer nos próximos anos. 

Quanto vale o negócio do SAS em Portugal e qual a percentagem que representa no negócio global do SAS na Europa?

Portugal pode ser um mercado pequeno no universo SAS, no entanto, o SAS Portugal é uma organização estratégica para a companhia no sentido em que detém um elevado market share que reforça o posicionamento líder da empresa na região do Sul da Europa.

Dada a nossa dimensão, maturidade tecnológica e disponibilidade para a inovação, há muitos projetos que são feitos pela primeira vez em Portugal, pelo que muitas vezes servimos de farol para colegas noutras geografias. É aliás frequente clientes nacionais servirem de referência em processos de venda lá fora, por isso, para o SAS, Portugal representa muito mais do que o negócio direto gerado na subsidiária. Prova disso também são os vários portugueses em lugares de destaque nas estruturas internacionais do SAS.

Quais as expectativas para 2021? O negócio vai crescer? Quais as áreas mais relevantes?

Temos grandes expectativas para 2021 e para os anos vindouros. Num futuro muito próximo, a analítica avançada e a inteligência artificial serão as pedras angulares para enfrentar qualquer desafio económico, de saúde, ecológico ou social. 

Além da saúde, são muitos os setores que, devido à crise causada pelo coronavírus, tiveram que adotar abruptamente ferramentas digitais para continuar a operar, e já não haverá retorno. A aceleração digital criou as bases para a necessidade crescente de sistemas analíticos e a vacina trará, a seu tempo, a estabilidade que as organizações precisam para recuperar a sua capacidade de investimento.

Caminhamos para a sociedade 5.0, que é basicamente dar o salto da sociedade da informação em que vivemos nos últimos anos, para um modelo onde todos os sistemas de informação existentes comunicam entre si e nos fornecem a inteligência que precisamos para melhorar a qualidade dos serviços e das nossas vidas também.

A tecnologia 5G, a Cloud, o IoT, a analítica avançada e a inteligência artificial serão as tecnologias que tornarão isso realidade.

Quanto aos setores, as áreas onde prevemos um maior crescimento nos próximos anos são as telecomunicações, administração pública, saúde, indústria e o retalho.  

Tendo em conta a necessidade de criação de emprego em Portugal o SAS tem previsto contratar em 2021? Com quantos colaboradores fecham em 2020, e quantos pensam ter no final de 2021? 

O SAS é uma organização people first e isso não podia ter sido mais evidente naquilo que foi a gestão da pandemia. A reestruturação do capital humano nunca esteve em cima da mesa de decisões e, por isso, terminamos o ano com os mesmos colaboradores que tínhamos no início. É preciso salientar que o SAS tem um índice irrisório de rotação de pessoas, somos Great Place to Work e estamos presentes no top deste ranking de maneira regular.  

Não dispomos ainda de um horizonte de contratação para 2021 uma vez que a organização está perfeitamente dimensionada para o volume e as necessidades que o negócio requer. No entanto, uma área onde dedicamos muitos esforços é no apoio às organizações educativas no desenvolvimento de cursos académicos e de formação profissional na área da ciência de dados. 

Todos sabemos que a diferença que existe entre a procura de perfis de dados e a entrada no mercado de trabalho de profissionais com este tipo de competências é enorme, e por isso é fundamental que as empresas do sector participem ativamente neste processo, promovendo a acessibilidade à tecnologia e reduzindo a lacuna educacional.

Quais as principais dificuldades que encontram, no mercado português, neste momento, no que respeita a abordagem a digitalização das empresas? 

Um dos maiores desafios que encontramos prende-se com a natureza do nosso tecido empresarial. A maioria das organizações portuguesas são pequenas e médias empresas que até agora não viam a sua existência ameaçada pela falta de uma gestão eficiente dos seus dados. Aliado a este desafio, está a sua consequência mais direta, a falta de investimento em recursos humanos especializados em alavancar a transformação digital, seguido da falta de conhecimento das soluções ou sistemas que melhor podem servir a empresa em questão. 

No entanto, a pandemia veio demonstrar duas coisas: que as organizações de menores dimensões podem desaparecer se não são digitais; e que a sua digitalização pode torná-las em empresas de maiores dimensões, dando-lhes acesso a novos mercados e/ou clientes. 

A questão financeira também é um problema de fundo. Empreender a transformação digital requer esforços e custos que num mercado onde a liquidez das empresas é limitada é mais difícil. No entanto, a tecnologia Cloud vai abrir muitas portas neste sentido, uma vez que será facilitadora do conceito XaaS (everything as a service) e permitirá às empresas com menos recursos aceder a tecnologia sofisticada on demand e a custos competitivos. 

Que conselhos dão às empresas para ultrapassarem os difíceis momentos que passamos? 

A minha recomendação a todos os líderes que estão neste momento a pensar em como manter os seus negócios e fazê-los crescer no futuro é que se apoiem em parceiros que lhes possam oferecer o know-how e expertise do qual carecem nas suas organizações. 

O investimento em tecnologia deve ser dimensionado às necessidades da organização e a flexibilidade que essa mesma tecnologia oferece é um pilar fundamental no longo prazo. Investir em sistemas que carecem de interoperabilidade ou implementar processos complexos é um risco para qualquer organização que, correndo mal, gera custos e ineficiências.  

A transformação digital é na verdade uma transformação analógica de pessoas e processos, impulsionada pela tecnologia e para ter uma visão 360º desse processo é preciso contar com parceiros especializados capazes de abordar projetos transversais a toda a organização. 




Deixe um comentário

O seu email não será publicado