“Em 10 anos, os departamentos de patologia serão digitalizados”

A Huawei investiga a futura tecnologia da saúde para os países em desenvolvimento.

A iniciativa TECH4ALL da Huawei tem por fim garantir que ninguém é deixado para trás no mundo digital, fomentando programas de inclusão digital e potencializando a adoção da tecnologia a nível mundial. O projeto é semelhante a parte do trabalho que está a ser feito na academia em toda a Europa, onde os projetos de investigação se concentram em tirar partido da tecnologia em benefício da sociedade.

Professor Bram van Ginneken, professor de Análise de Imagens Médicas do Radboud University Medical Center, Holanda

O Professor van Ginneken, professor de Análise de Imagens Médicas do Radboud University Medical Center, na Holanda, está a introduzir soluções de saúde digitalizadas para os países em desenvolvimento e acredita que, em dez anos, todos os departamentos de patologia hospitalares serão digitalizados. Ele conversou com a Huawei sobre o seu trabalho…

Quando começou o seu trabalho em imagiologia médica?

Estudei física e, em 1996, concluí o doutoramento em Análise de Imagens Médicas, desenvolvendo programas de computador que analisam radiografias do tórax com base na inteligência artificial (IA). No final da década de 1990, queríamos implementar unidades de radiografia digital do tórax com software de IA em países onde havia muita tuberculose, pois tornam as triagens mais rápidas e mais abrangentes, sem a necessidade de revelar imagens em películas. No entanto, o equipamento de radiografia digital era muito caro naquela altura.

Em 2012, a aprendizagem a um nível mais profundo deu um salto e tornou a IA mais comum no âmbito da imagiologia médica. Mudei-me para uma universidade no leste da Holanda e formei um grupo de 70 investigadores para analisarem imagens médicas. Há cinco anos começamos a trabalhar com departamentos de patologia para digitalizar imagens. O problema é que, quando armazenadas para fins médicos, estas imagens, que são muito grandes, ocupam muito espaço. Por este motivo, os departamentos acabam por eliminar todas as suas imagens passados três meses – o que significa que não podemos utilizá-las para uma aprendizagem a um nível mais profundo. No entanto, à medida que o preço dos sistemas de armazenamento vai ficando mais barato, também ficamos mais perto de lhe dar uma solução. Vamos ver todos os departamentos de patologia digitalizados nos próximos dez anos, tenho a certeza.

O que tem restringido a digitalização hospitalar até agora?

O setor da saúde é um setor conservador. As soluções têm de ser comprovadas por meio de ensaios extensivos e há muitos processos que já são antigos.

Houve um estudo de simulação na Suécia que utilizou o mais recente sistema de mamografia de IA. Os investigadores compararam-no aos métodos tradicionais de tratamento. Descobriram que o sistema de IA funcionava tão bem quanto os próprios radiologistas do hospital, tendo mesmo superado alguns. Então, propuseram a leitura de uma elevada percentagem de mamografias exclusivamente pelo sistema de IA. Assim que este identificasse um problema, sinalizá-lo-ia com um consultor que passaria a investigá-lo.

A simulação demostrou funcionar, mas não foi implementada. Em vez disso, argumentou-se que o hospital deveria fazer um ensaio prospetivo. Um ensaio facilmente pode custar cerca de 10 milhões de euros, portanto, seria necessário dispor de um grande financiamento. Este ensaio levaria anos. Tenho a certeza de que quando o ensaio estivesse concluído, o software de IA já teria avançado de tal forma que esta tecnologia validada de modo prospetivo já estaria obsoleta.

E este é o nosso desafio. Nós temos de validar os sistemas antes de eles poderem ser utilizados, mas isso requer tempo devido aos regulamentos e, durante esse período, estes sistemas vão sendo rapidamente melhorados.

A IA ajudaria o mundo em desenvolvimento?

A IA é vantajosa para o mundo em desenvolvimento porque há menos processos antigos e menos regulamentação. Vejamos a África. Eles nunca tiveram infraestruturas de linha fixa, portanto, foram logo para os telemóveis. O mesmo pode acontecer com a digitalização e a implementação da IA no setor da saúde.

A digitalização irá descentralizar as funções no setor da saúde – tornando-as acessíveis a mais pessoas e em mais lugares. Vemos isso em países africanos, onde os dispositivos de imagem portáteis estão a ser empregues; e na Europa de Leste, na Ásia e na América do Sul, onde os primeiros programas de rastreio da tuberculose deste tipo utilizam unidades de teste móveis, permitindo aos profissionais terem como alvo populações vulneráveis. A este respeito, os países em desenvolvimento são líderes na adoção de novas tecnologias médicas. Não só reduzem os custos de instalação como levam os cuidados de saúde diretamente ao paciente.

Então de que trata a sua empresa Thirona?

Eu fundei a Thirona com Eva van Rikxoort em 2014. A nossa visão é fechar o fosso entre os desenvolvimentos académicos no âmbito da análise de imagens médicas e as necessidades de usabilidade clínica. Tal tem de ser contornado através da criação de produtos que incluam as últimas tecnologias, mas que também sejam intuitivos para o utilizador e ajudem os médicos especialistas. Atualmente, temos 30 funcionários.

Também implementamos a grand-challenge.org, que é uma plataforma com vista ao desenvolvimento de soluções completas de “machine learning” em imagiologia biomédica. Esta permite a qualquer pessoa adicionar um desafio a ser resolvido por uma rede de IA, entusiastas e especialistas em imagiologia médica. Permite que grupos de todo o mundo colaborem em novas soluções de IA.

Como vê o futuro da saúde no mundo?

Um com a IA e tecnologias digitais no seu núcleo. Em breve, a digitalização irá estar em todo o hospital. A tecnologia portátil a nível pessoal terá um papel ainda maior; em vez de estetoscópios, os médicos irão ter consigo dispositivos de ultrassom pessoais. Os sistemas de aprendizagem a um nível profundo estão a ser desenvolvidos para serem executados em telemóveis, para que possam digitalizar e analisar imagens instantaneamente, oferecendo aos médicos mais controlo e aos pacientes um feedback mais imediato.

Vamos testemunhar o desenvolvimento de um modelo de atendimento global à medida que as fronteiras geográficas diminuem. Em vez de ter todas as imagens analisadas no mesmo hospital onde foram tiradas, podemos enviar as imagens aos principais especialistas desse campo em específico, estejam eles onde estiverem. Isto torna-o um sistema mais eficiente, que traz benefícios a todos, em especial, àqueles nos países em desenvolvimento que ganham um novo nível de acesso à saúde. Este é o futuro que pretendo criar com o meu trabalho.

O Professor van Ginneken e a Huawei continuam a colaborar, trabalhando em conjunto com a tecnologia em benefício dos serviços de saúde. A Huawei também está a investigar a forma como as suas próprias soluções de tecnologia podem apoiar os projetos do Professor van Ginneken.

Para mais informações sobre a Thirona, visite https://thirona.eu/




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