Como sobreviver à disrupção digital: transformar sem reiniciar

Por Gregor Hohpe, da Amazon Web Services

Tente pensar num setor que não seja, de alguma forma, afetado pela revolução digital. Um setor capaz de continuar a operar, como tem feito até agora, sem medo da disrupção e sem necessidade de mudança. Quando fazemos esse exercício, durante um workshop, também não conseguimos encontrar nenhum exemplo.

Eles revolucionam, você transforma-se

Se faz parte de uma empresa de sucesso, é provável que o negócio esteja a enfrentar desafios ou talvez até a ser alterado pelas chamadas “empresas digitais”. Estes são os atores que não têm nenhum historial, nada a perder e lançam um novo software cem vezes ao dia. Ou, pelo menos, é o que parece. Seja mito ou realidade, para continuar a ter sucesso, o negócio precisa de definir uma estratégia que responda a esse desafio. Para consegui-lo, recomendo, em primeiro lugar, dar um passo atrás e examinar cuidadosamente a definição de disrupção: um desenvolvimento baseado num conjunto diferente de suposições que questiona as normas e formas de trabalho existentes.

O ponto principal é que nós, os que enfrentamos a disrupção, trabalhamos sob um conjunto de suposições e limitações que não são reais, ou pelo menos não o são para a concorrência. No passado, quando o cenário se complicava, a estratégia usada pelas empresas assentava na otimização: reduzia-se a base de custos, procurava-se maior eficiência e aproveitava-se as economias de escala. Hoje, o jogo é diferente; não podemos lidar com a disrupção por meio da otimização. Em vez disso, devemo-nos transformar.

Transformar-se sem reiniciar

A transformação implica que devemos deixar de lado velhos hábitos e questionar os existentes. Talvez seja fácil pensar que é melhor começar do zero; afinal, os disruptores digitais não têm todo o historial que carregamos connosco. Partilho três comportamentos que observei em empresas que tiveram sucesso no caminho da transformação.

  1. Conhecer os nossos pontos fortes

Ao embarcarmos numa transformação, precisamos ter uma ideia sobre em que nos queremos transformar. O objetivo normal seria convertermo-nos numa dessas empresas digitais que estão a revolucionar o nosso negócio. No entanto, este pode ser o nosso primeiro grande erro. Primeiro, essas empresas partem de um ponto muito diferente, portanto, não podemos simplesmente copiar o modelo operacional. Segundo, e mais importante, tentar emular um disruptor digital significa ignorar os principais ativos da nossa empresa, como pontos de presença físicos ou um serviço ao cliente excecional. 

A McDonald’s é uma empresa icónica, cujo processo de transformação foi fundamentado nos seus pontos fortes, incluindo uma experiência alimentar altamente eficiente e previsível. A adição de novos canais e experiências digitais baseadas em Amazon Web Services (AWS) ajudou a redesenhar o processo de pedido, recolha e pagamento.

  1. Deixar de lado hábitos antigos

Há poucas hipóteses de sucesso se abordar uma transformação como um projeto de TI tradicional. A transformação não é um projeto com datas fixas de início e fim, nem um caso de negócios estabelecido. De facto, os projetos representam a personificação do pensamento informático tradicional, no qual a tecnologia automatiza um processo de negócio existente, e bem compreendido, para aumentar a sua eficiência. O mundo digital funciona de forma completamente oposta: trata-se de uma viagem contínua de aprendizagem e descoberta, e a nossa trajetória de transformação deve funcionar do mesmo modo. Os outros elementos que devemos deixar para trás, são as crenças e suposições atuais que muitas vezes são inconscientemente incorporadas nos nossos processos e mentalidades. Para enfrentarmos a disrupção, devemos questionar as normas e crenças atuais. O nosso principal problema é que essas crenças não estão documentadas em nenhum lugar.

Uma terceira suposição popular é que velocidade e disciplina são conceitos opostos. Empresas que agem rapidamente são geralmente consideradas impetuosas. 

  1. Medir e mudar de rumo, com frequência

A última observação é que não há uma receita para a transformação. Examinar o que outras organizações fizeram é uma boa ideia, mas cada empresa deve seguir um caminho diferente. Definir o objetivo é relativamente simples, mas saber por onde começar no nó górdio de sistemas, processos e estruturas organizacionais herdados é uma questão única e delicada.

As transformações requerem tanto impulso como paciência, outra aparente contradição. O impulso dá-nos a inércia necessária para enfrentar as regras e os processos atuais; começar uma transformação com um plano de 18 meses levar-nos-á, quase de certeza, ao fracasso. Ao mesmo tempo, uma vez iniciado o processo, não podemos esperar milagres imediatos. Geralmente, quando se tornam notícia, as startups que atingem 100 milhões de utilizadores com uma aplicação programada por três developers, estão na sua 50ª interação e na terceira viragem.

Para medir o progresso gradual, precisamos de garantir que temos métricas simples e visíveis, idealmente aquelas que sejam significativas, não apenas para o nosso próprio departamento de TI, mas também para os clientes. O foco no cliente é o ponto de partida da maioria dos disruptores digitais. Os clientes apreciam atualizações frequentes, respostas rápidas, operações confiáveis ​​e um bom desempenho. O estabelecimento de eficiências internas, embora desejável, não é visível para os clientes e deve ser considerado depois destes estarem satisfeitos com os nossos produtos. Caso contrário, otimizaremos o que não é necessário, algo que o escritor Peter Drucker descreveu como o trabalho mais inútil possível.

Extra: se não é doloroso, é suspeito Deixo uma dica adicional: as transformações são difíceis. Não estamos a mudar a pintura da sala; estamos a desmontar, por completo, a nossa casa de dois andares e a reconstruí-la como um bungalow. É possível? Sim! Será fácil? Claro que não!




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