Os desafios do teletrabalho

A pandemia de coronavírus transformou rapidamente numa necessidade algo que, até agora, era usado pelas empresas de forma pontual e apenas para uma pequena parte dos seus recursos humanos: o teletrabalho.

Por Nuno Mendes, CEO da WhiteHat

Claro que, para empresas de base tecnológica modernas, a infraestrutura e as políticas necessárias para esta nova realidade estão já certamente estabelecidas – e a maioria dos funcionários terá até o equipamento necessário fornecido pelo seu empregador e corretamente protegido e configurado para trabalho remoto.

Contudo, tudo isto é uma completa novidade para milhares de empresas e organizações de menores dimensões, que até agora nunca tinham tido necessidade de criar condições – e, por isso, não estão minimamente preparadas – para o trabalho à distância.

É verdade que o teletrabalho será sempre limitado a apenas algumas pessoas e que, realisticamente, muitas necessidades estarão reduzidas à utilização do correio eletrónico e pouco mais, sem necessidade de uma ligação remota à infraestrutura de TI da empresa. Já para não falar de empresas e trabalhadores cujo tipo de negócio e funções não se coadunam de todo com esta nova realidade.

Os requisitos mínimos

Dividir a organização em grupos com diferentes requisitos, e lidar com as necessidades de cada um deles de forma a ativar com sucesso o êxodo em massa, pode parecer uma abordagem simplista, mas é, provavelmente, essencial dada a urgência de alguns cenários. Usando o setor da Educação como exemplo, temos estudantes (os “clientes”), corpo docente, administração e operações: a escola não consegue funcionar sem o envolvimento significativo dos estudantes; os professores precisam, pelo menos, de instalações para conferência virtual; e as equipas de administração necessitam de acesso à rede. E isto é o mínimo.

Por forma a manter a produtividade a níveis razoáveis, existem requisitos comuns a todos os funcionários em teletrabalho:

  1. Um computador
  2. Uma boa ligação à Internet
  3. Aplicações de chat e conferência
  4. Um espaço de trabalho dedicado (preferencialmente)
  5. Um telefone (opcionalmente)*
  6. Auto-motivação e disciplina
  7. Uma rotina estrita

*A menos que seja um requisito específico da empresa, o telefone pode não ser necessário, uma vez que a maioria das aplicações de chat permite realizar chamadas de voz.

Uma vez estabelecidos os requisitos mínimos para criar condições para um trabalho à distância que seja produtivo, as empresas e organizações precisam de se preparar (a si e aos seus funcionários) para os riscos de cibersegurança acrescidos com o teletrabalho. 

São seis os principais desafios que precisam de ser enfrentados:

  1. Segurança física dos dispositivos da empresa

Os dispositivos da empresa usados em casa dos funcionários estarão naturalmente expostos a um maior risco. Estes equipamentos devem ser protegidos através de medidas como encriptação do disco, política rigorosa de palavras-passe e formação do utilizador para boas práticas gerais de utilização – por exemplo, fazer logout do sistema quando não está a ser utilizado, para evitar que outro membro da família use acidentalmente a conta da empresa.

  1. Segurança do ambiente tecnológico doméstico

Peça aos funcionários para fazerem uma lista das possíveis vulnerabilidades no seu ambiente doméstico antes da ligação dos dispositivos de trabalho e garanta que todos os equipamentos têm as mais recentes versões de firmware/software. Considere também o uso de apps de monitorização para detetar vulnerabilidades, software ou firmware desatualizado ou palavras-passe padrão que precisem de ser mudadas.

  1. Acesso à rede e sistemas da empresa

Estabeleça quais os funcionários que precisam mesmo de aceder à rede interna da empresa e os que apenas necessitam de email e serviços baseados na nuvem – mas, mesmo nestes últimos cenários, imponha a mesma política de segurança endpoint para antimalware, firewalls, etc. Caso possível, use máquinas virtuais para garantir um ambiente controlado e limitar a exposição externa à rede da empresa.

  1. Ferramentas colaborativas e processos de autorização

Providencie acesso a sistemas de chat, vídeo e conferência para que os funcionários possam comunicar entre si. Adicionalmente, use ferramentas colaborativas para proteger os utilizadores contra instruções ou transações não autorizadas.

  1. Formação

Realocar os funcionários para um ambiente mais casual numa altura em que a desinformação se multiplica, pode ter riscos. Considere, por isso, lançar uma campanha de formação antes de os funcionários começarem a trabalhar remotamente – ou o mais cedo possível.

  1. Apoio e gestão de crises

Não assuma que todos os funcionários podem fazer o salto para o teletrabalho eficientemente sem assistência nem apoio. A casa não é o escritório e as pessoas podem necessitar de suporte para se conseguirem adaptar. Os trabalhadores remotos precisam de protocolos claros de comunicação para suporte de TI e gestão de crises, caso detetem alguma irregularidade. Por isso é importante:

  1. Ter as equipas a comunicar pelo menos uma vez por dia;
  2. Calendarizar atividades;
  3. Implementar procedimentos de descrição de tarefas;
  4. Fornecer material informático ergonómico;
  5. Distribuir informação de contacto do apoio técnico;
  6. Promover a socialização virtual;
  7. Instaurar uma política de gestão de “porta aberta”.

No final, este êxodo rumo ao teletrabalho pode provar ser uma experiência social e laboral positiva que, em circunstâncias normais, poucas empresas teriam arriscado fazer a esta escala. 




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