Qual o impacto da saída de Jony Ive da Apple após 30 anos?

A gigante americana confirmou a saída do diretor do departamento design, responsável pelo desenho produtos mais icónicos da marca.

Por Leif Johnson, Macworld

A Apple anunciou na quinta-feira (27/06) que o responsável do departamento de  Design, Jony Ive, deixava a empresa a companhia depois de quase 30 anos inteiramente dedicados à Apple.  Ive liderou o design de produtos icónicos da marca, desde o iMac até o iPhone.

Não parece ter sido uma saída hostil, já que o comunicado de imprensa oficial da Apple afirma que Ive formou uma empresa de design independente que contará com a Apple entre seus principais clientes. Tecnicamente, ainda não estamos a olhar  para um Jony Ive livre da Apple, mas é fácil ter a impressão de que poderíamos estar.

Com qualquer outra empresa, alegar que a saída de uma pessoa poderia mudar radicalmente sua operação pode parecer um exagero, mas sabemos há muito tempo que a Apple desempenha regras diferentes. Com a saída de Ive, a fabricante de iPhones e Macbooks enfrenta seu maior teste desde que Steve Jobs faleceu em 2011.

Não é difícil encontrar algumas falhas no trabalho de Ive, mas sua filosofia de design ajudou a criar uma estética que foi imediatamente reconhecida como “Apple”. Os principais elementos da sensibilidade de design de Ive são tão familiares que é fácil não se apaixonar por  deles, seja o foco em alumínio, os cantos arredondados ou as bordas lisas e quase sem botões nos dispositivos como o Magic Mouse. Praticamente todos os produtos que conhecemos e amamos do renascimento da Apple – de 1997 até hoje – têm de alguma forma a sua mente por trás deles.

A sua filosofia de design funcionou tão bem porque havia sempre utilidade para a beleza. Alguns de nós podem queixar-se do poder de um dispositivo como o iMac, mas há poucas dúvidas de que uma máquina tão completa pareça fantástica quando é apoiada em mesas de madeira num estúdio de design.

Veja como exemplo os AirPods. Não só parecem distintos, mas oferecem recursos que os auriculares sem fio com preço comparável muitas vezes não têm. (Sem mencionar o seu no desenho.). Ive até desenhou o novo Apple Park, uma conquista inegável do design.

Nesta fase a Apple encontra-se numa situação não muito invejável. O problema de confiar na visão de uma pessoa durante tantos anos leva a que essa dependência poder torna a tarefa de substitui-la  extremamente difícil. É verdade que  Ive ainda vai continuar a trabalhar com a Apple, mas a maioria dos futuros produtos que veremos da empresa serão de uma Apple diferente e pensada por uma mente diferente. Quase por necessidade, provavelmente parecerão um diferentes, para que a Apple não caia na estagnação ou se perca em  tentativas equivocadas de ficar entre design de Ive e outra coisa qualquer.

Mesmo assim, os novos  produtos precisarão de manter esta “simbiose” entre a função e beleza que muitas vezes Ive conseguiu alcançar. Por tudo o que é louvável no recente avanço da Apple no que respeita a serviços, o facto é que o hardware da Apple ainda é o aspeto “mágico” da empresa. Outras empresas podem ter melhores recursos nos seus dispositivos ou mais poder, ou raramente, ou nunca, evocar a mesma admiração, inveja – ou mesmo despeito.

Novos começos
Isso pode até ser uma tragédia, mas não precisa ser. A Apple tem uma oportunidade real aqui. Por mais que haja amor no trabalho de Ive, não é difícil dizer que vimos seu melhor trabalho enquanto Steve Jobs liderava a Apple. Jobs e Ive, muitas vezes gosto de dizer, tinham um relacionamento profissional um pouco ao estilo de John Lennon e Paul McCartney.

Eram figuras importantes por conta própria, sem dúvida, mas atingiam o seu melhor nível quando trabalhavam juntos. Podemos observar esse legado na forma como o iPhone, o iPad, o iMac e o MacBook hoje mantêm elementos reconhecíveis de quando Jobs ainda estava por perto e quando estes surgiram como produtos que mudam o jogo. Estes projetos permanecem em parte por causa de sua intemporalidade relativa, mas também é difícil de abalar a sensação de que a falta de mudança revela que algum ingrediente-chave está em falta no trabalho de Ive.

Isto não significa de todo que Ive não tenha produzido algum trabalho memorável desde que Jobs faleceu. Há o Apple Watch, o estojo de carregamento dos AirPods, e até o HomePod. Nesta década, porém, tendemos a ouvir mais reclamações do que admiração quando se trata de novos projetos. Esta, afinal, é a década do famoso Mac Pro de 2013.

 Esta é a década do desaparecimento prematuro de portas e dos teclados “borboleta” amplamente criticados nos novos MacBooks, e é a década da porta de carregamento para o Magic Mouse 2. É a década em que ouvimos muito sobre um senso difundido que o design na Apple está estagnando, e até onde há alguma verdade nisso, talvez algum sangue novo possa ajudar a Apple a descobrir aquela mágica de cair o queixo mais uma vez.

Assim como quando Jobs faleceu, a Apple está a entrar e numa nova era. Podemos observar uma dose da mesma incerteza que vimos na época e, de fato, as ações da Apple sofreram uma quebra. Todos nós devemos nos preparar para uma chuva de editoriais proclamando a desgraça e melancolia e, possivelmente, um ano ou mais de fracassos enquanto a Apple tenta encontrar uma nova voz para o seu design.

A Apple conseguiu sair vitoriosa dessa incerteza em 2011, e fará o mesmo após a saída de Ive. Para fazê-lo, no entanto, terá de encontrar outro designer talentoso que possa apresentar uma visão única para a linha de produtos da Apple. De preferência, esse designer trabalhará com um executivo que pode estimulá-lo a caminhar na direção certa, ao mesmo tempo que restringe seu design mais impraticável.

Não sei se Tim Cook vai encontrar esta pessoa. Tenho quase certeza de que ele não consegue moldar esta pessoa como Jobs. Fato é que a Apple está enfrentando um desafio significativo que não via há anos, mas depois de tantos anos de sucesso impressionante, talvez seja hora de um novo grande desafio.

 
 

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