O dia em que o homem derrotou a máquina

A inteligência artificial ajuda, mas não é tudo. Leia a opinião de Eduardo Pinto Alves, da Direcção de Investimentos do Banco Best, sobre as vantagens da AI e sobre como investir em empresas que desenvolvem este tipo de tecnologia.

Eduardo Alves, Banco Best © 2018 Manuel Batista

Eduardo Pinto Alves, Direcção de Investimentos do Banco Best

26 de setembro de 1983, diz-lhe alguma coisa?

Não… não é um feriado nacional, mas bem poderia ser um de âmbito mundial. 

Foi o dia em que se escreveu a história de um homem simples que salvou a humanidade da guerra nuclear. 

Stanislav Petrov, tenente-coronel do exército soviético em funções  no centro de comando do sistema de alerta de ataques com mísseis de Defesa Aérea teve, nesse dia, o destino da humanidade nas suas mãos. A meio do turno foi surpreendido pelo alarme emitido pelos equipamentos eletrónicos dando conta do lançamento de um míssil intercontinental pelos EUA contra alvos no território soviético. Estupefacto com a situação com que se deparava, pediu que se confirmasse a informação.

Os computadores mantinham o alarme, embora os satélites não conseguissem observar qualquer míssil. Petrov pensou — eram outros tempos — que as máquinas e os seus algoritmos podiam se enganar e decidiu aguardar. Nos cinco minutos seguintes, por mais quatro vezes os alarmes foram acionados: cada um desses mísseis tinha, por si só, o dobro da capacidade explosiva de todas as bombas lançadas durante a Segunda Guerra Mundial.

“Se Petrov tivesse seguido o protocolo e alertado os seus superiores hierárquicos, em poucos minutos várias centenas de mísseis nucleares teriam sido disparados em direção ao território norte-americano”

Se Petrov tivesse seguido o protocolo e alertado os seus superiores hierárquicos, em poucos minutos várias centenas de mísseis nucleares teriam sido disparados em direção ao território norte-americano. Em poucos minutos, ter-se-ia acabado com a vida de milhões e milhões de pessoas. Mas o tenente-coronel decidiu esperar, pois não havia nenhuma confirmação visual.

Petrov tinha acabado de salvar o mundo. Os militares russos silenciaram o caso e só 20 anos depois se tornou pública esta história.

O oficial estava no sítio certo à hora certa. Talvez um outro militar tivesse seguido o protocolo com consequências imprevisíveis. Foram minutos decisivos que salvaram o mundo.

Recordar este dia faz-nos pensar. Imaginar máquinas que conseguem pensar e agir por conta própria parece algo assustador. O que teria acontecido nesse dia se o sistema de segurança estivesse totalmente entregue às máquinas?

Discernimento, medo e dissuasão são conceitos e sentimentos humanos e são muitos os exemplos, como o supra citado, em que as ações de pessoas foram decisivas para corrigir diagnósticos de máquinas.

Discernimento, medo e dissuasão são conceitos e sentimentos humanos e são muitos os exemplos em que as ações de pessoas foram decisivas para corrigir diagnósticos de máquinas.

Mas a realidade é que estamos a entrar, a passos largos, numa nova dimensão. Trata-se de uma nova era que se avizinha dominada por máquinas dotadas de inteligência artificial (IA). Computadores com uma gigantesca acumulação de informação, prontos para revolucionar a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Robôs integrados em sistemas ciberfísicos responsáveis por uma transformação radical pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas.

A ideia de que a máquina tomará o lugar do homem e terá inteligência superior, de forma a conseguir manipular o próprio ser humano, é o grande mito em redor da IA.

Entre os acérrimos defensores de que a criação de máquinas inteligentes pode constituir uma ameaça à sobrevivência da espécie humana figuram personalidades como o astrofísico Stephen Hawking e o empresário Elon Musk (CEO da Tesla Motors e da SpaceX). Os próprios governantes das principais potências mundiais já expressaram preocupação sobre o impacto iminente no mercado de trabalho. Os robôs nunca estarão cansados, não cairão doentes e serão mais capazes, baratos e produtivos do que os seres humanos.

O potencial destrutivo militar tem vindo a aumentar substancialmente, a par de uma maior precisão das armas e uma menor intervenção humana. Um relatório do centro de estudos norte-americano Rand Corp, conclui que as ferramentas de IA aumentam o risco de uma guerra nuclear e a sua aplicação na indústria bélica pode deixar o mundo à beira da destruição.

O que está a ser feito para precaver esses riscos?

Está-se a entrar numa nova dimensão que consiste na convergência dos grandes avanços tecnológicos numa só plataforma para gerar um robô mais próximo das capacidades humanas, abrindo possibilidades inimagináveis. Várias experiências estão a ser desenvolvidas nesse sentido, nomeadamente através da exploração de novos métodos que permitam às máquinas discernir o certo do errado.

O objetivo consiste em tornar as máquinas mais compreensivas e humanas e poderá ser a solução para prevenir, no limite, as máquinas de exterminar a humanidade. Liderados por Mark Riedl e Brent Harrison, da Faculdade de Computação Interativa no Instituto de Tecnologia da Geórgia, nos EUA, estão a tentar incutir a ética humana através do uso de histórias. Como as máquinas não sabem diferenciar o certo do errado ou o bem do mal até que sejam ensinadas, a solução poderá passar por replicar a metodologia que utilizamos com os nossos filhos através da leitura de histórias alusivas ao ensinamento dos valores humanos.

O mercado da IA está a crescer rapidamente, esperando-se que alcance um volume de 36,8 mil milhões de dólares em 2025, de acordo com a sociedade gestora Allianz Global Investors, pelo que não será de estranhar que seja uma temática que está na moda entre os investidores.

Há cada vez mais fundos de investimento exclusivamente dedicados ao tema e que procuram beneficiar dos rápidos avanços numa ampla variedade de áreas, incluindo a análise da big data, a aprendizagem das máquinas, a condução autónoma e a internet das coisas. Mesmo quem se sinta melindrado com o potencial devastador militar associado a esta tecnologia, poderá encontrar várias soluções de investimento que não promovem, financeiramente, empresas que produzam armas ou que estejam ligadas a essa área. As opções têm vindo a aumentar com o maior número de players no mercado, bem como o apetite pelo setor em função da crescente onda de fusões e aquisições, uma tendência que certamente vai continuar. 

Do mesmo modo que os telefones, os computadores e a Internet invadiram as nossas vidas, a IA será uma ferramenta que irá invadir todos os setores de atividade. A melhor forma de se precaver para estas mudanças, capazes de afetar as nossas profissões, as nossas carreiras e os nossos padrões de vida, é apostar em formação e numa educação que nos prepare para mudanças rápidas. Além disso, do ponto de vista do investimento, é importante pensar em formas de beneficiar com esta mega tendência, para acompanhá-la e não ficar para trás.

Autor: Eduardo Pinto Alves, Direcção de Investimentos do Banco Best 




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