“IOT é uma oportunidade única para se repensar as organizações”

A Internet das Coisas é uma oportunidade única para se repensar e transformar as organizações e modelos de negócio, de acordo com José Pratas, da CGI. O responsável explica como implementaram uma solução IoT “em casa”.

José Pratas, líder de sector das áreas de comunicações, indústria, sector público, transportes e serviços financeiros da CGI

Como pode a analítica e a Internet das Coisas (IoT) contribuir para a transformação do negócio das organizações? José Pratas, líder de sector das áreas de comunicações, indústria, sector público, transportes e serviços financeiros da CGI, explica. E assinala: a “tecnologia é seguramente um ponto fundamental nesta transformação, mas apenas como suporte à materialização desta oportunidade mais estratégica de repensar e optimizar a realidade de cada organização”, assinalou em entrevista ao Computerworld. O responsável, suportado num caso prático aplicado na própria CGI demonstra os resultados que podem advir da implementação de IoT no terreno, no caso, na área de gestão documental.  

Computerworld: Quais as principais tendências para o mercado da analítica no corrente ano?

José Pratas: Na continuação do que têm acontecido nos últimos anos, a analítica continuará a ser uma das prioridades para as organizações. No inquérito anual realizado pela CGI, a nível global, junto dos seus clientes – CGI Global 1000 – aparece entre as cinco principais prioridades.

As áreas de inteligência artificial e automação inteligente vão assumir uma particular relevância. São temas que têm uma importância cada vez maior nas operações da empresa, tanto numa perspectiva de optimização como de melhor decisão, transformando os dados que as organizações têm em informação relevante e numa efectiva vantagem competitiva, o que melhora e optimiza serviços, produtos e experiências para os consumidores.

CW – Como é que tecnologias, metodologias e até aspectos legais se combinam para produzir melhor analítica e, deste modo, contribuem para a melhoria da saúde dos negócios?

JP – As tecnologias podem trazer várias vantagens e oportunidades para os mais diversos negócios. A IoT pode contribuir para alavancar o desenvolvimento das organizações principalmente nas áreas de optimização de processos e de criação de novos modelos de negócio e serviços. A aplicabilidade da IoT permite monitorizar, em tempo real, agrupamentos lógicos de máquina de fornecedores distintos com sistemas de controlo que não comunicam entre si, e desta forma identificar “bottlenecks” à eficiência do processo como um todo, pontos geradores de desperdício, produtividade de equipas, entre outros aspectos relevantes.

Além desta optimização, o consumidor final também pode ser impactado através de uma melhor experiência, sendo exemplos o marketing personalizado em tempo real ou o atendimento direccionado ao seu perfil.

CW – De que modo?

JP – Perante um mundo de redes de sensores, actuadores e dispositivos inteligentes interconectados, o objectivo da IoT é criar um ecossistema de “Coisas” capazes de produzir valor não só individualmente, mas também como parte integrante de todo o ecossistema. Este valor pode advir de “insights” relevantes para o negócio ou da automação que, em alguns casos, dispensa supervisão humana. É uma oportunidade única para se repensar e transformar as organizações e modelos de negócio. Vemos no mercado uma redução do real valor desta oportunidade, reduzindo-a a uma perspectiva meramente tecnológica. Tecnologia é seguramente um ponto fundamental nesta transformação, mas apenas como suporte à materialização desta oportunidade mais estratégica de repensar e optimizar a realidade de cada organização

CW – Qual é a estratégia da CGI para a IoT?

A IoT é uma das áreas estratégicas desenvolvidas pela CGI, quer local, quer globalmente através de diferentes centros de competência. Temos o privilégio de viver uma transformação acelerada das nossas realidades enquanto organizações e consumidores. Estamos numa fase muito inicial em que vemos a aplicabilidade deste conceito a sair das áreas de nicho, de gadget tecnológicos, para a realidade das organizações e das nossas vidas enquanto consumidores.

A CGI posiciona-se como elemento catalisador desta transformação junto das organizações, aportando a sua experiência nos mais diversos domínios, sejam tecnológicos ou de negócio. Utilizamos uma abordagem diferenciadora, oposta ao típico “one size fits all”, considerando como único cada cliente, desafio e realidade. É igualmente importante, ter um ecossistema forte de parceiros, porque não existindo uma aproximação meramente tecnológica cada desafio/solução tem diferentes componentes que necessitam de articulação e integração para que o valor acrescentado final do todo seja o esperado e muitas vezes superado.

CGI aplicou IoT internamente com resultados acima das expectativas

CW – A vossa empresa decidiu tornar-se ela própria, em Portugal, um caso de uso de IoT. Pode descrever sinteticamente o que foi feito?

JP – Como sinal do quanto acreditamos na IoT e no valor acrescentado que acarreta, optámos por adoptar a tecnologia em Portugal. Temos 60% da quota de mercado na área transaccional em Serviços de Gestão documental. Estamos a falar de uma unidade com cerca de 100 colaboradores, que imprime mais de 1,2 milhões de folhas diariamente, trabalhando 24 horas por dia, 7 dias por semana.

CW – Quais foram as necessidades encontradas?

JP – As necessidades prenderam-se sobretudo com o desafio de criar uma visão integrada de toda a cadeia de impressão, composta por diferentes máquinas, funções e fornecedores. É uma realidade semelhante à que encontramos em qualquer indústria. Estas máquinas geram um conjunto de dados, que podem ser enriquecidos, mas que na sua essência necessitam de ser extraídos, tratados e transformados em insights que permitam uma optimização operacional da produção como um todo e ter uma visão analítica sobre a mesma.

CW – Como deram resposta a esse desafio de negócio?

JP – Foi fundamental explorar todos os dados gerados por cada um dos nós da linha de produção, analisá-los e materializá-los em insights relevantes para o negócio, tanto num contexto isolado de máquina como enquanto nó de um ecossistema que contem todas as máquinas da linha de produção.

CW – Diferenciaram a visão operacional da visão não operacional. Porquê?

JP – Diferenciámos para dar resposta às necessidades e desafios relacionados com a potenciação dos dados e sua integração consolidada, para criar a visão global da linha de produção.

CW – E como?

JP – Ao nível operacional da fábrica e das necessidades de informação em tempo real, de acesso instantâneo a diversos indicadores das máquinas e à execução da produção, dotámos os operadores de uma solução de web-aumentada que lhes permite, apontando um dispositivo móvel para marcadores nas máquinas, aceder a esta informação de imediato e no local.

Relativamente à informação não operacional, para necessidades analíticas ao nível da gestão do negócio, implementámos um conjunto de dashboards que permitiram a descoberta de novos insights e a confirmação de outros para os quais só havia conhecimento empírico, mas que com a implementação deste projecto foram refinados com dados reais provenientes da operação efectiva das máquinas. A gestão do negócio tem agora informação analítica de todos o seu processo produtivo, indicadores precisos de consumo e dos nós responsáveis pelo desperdício de matérias primas.

CW – Que outros resultados atingiram?

JP – Este projecto permitiu a integração de dois universos antes completamente estanques: a produção e os consumos de matérias primas realizados e registados ao nível das máquinas na fábrica, com a gestão do negócio. Esta integração permite a concepção de novos modelos de negócio apoiados em dados históricos da operação efectiva da fábrica.

CW – Que tecnologias integram?

JP – O valor de um ecossistema de IoT só é efectivamente entregue, quando todas as camadas e tecnologias do processo estão implementadas e integradas.

Desenvolvemos a nossa framework de IoT num modelo de parcerias muito sólidas que abrangem uma grande diversidade de tecnologias. Estamos a falar de um ecossistema de parceiros preferenciais que vão desde sensorização, actuadores, hardware, passando pela camada de comunicações, para parceiros de software nas áreas de habilitação de negócio, ciência de dados e analítica.

Esta abordagem ajuda-nos a implementar soluções em que retiramos todo o potencial de cada uma das componentes, com maior robustez e rapidez além de reduzir os custos de implementação.

CW – Quanto tempo demorou a implementação?

JP – Esta fase do projecto teve uma duração aproximada de 6 meses.

CW – Aponte pelo menos um obstáculo encontrado durante a implementação e como foi ultrapassado?

JP – Um dos obstáculos encontrados, por exemplo, e que naturalmente fará parte da realidade de qualquer unidade fabril, é de que muita da informação já é gerada por cada uma das máquinas, o desafio é ter uma visão integrada da mesma. A informação muitas vezes só está acessível através de consolas locais, e numa forma mais evoluída de integração de dados o melhor que se consegue é uma visualização dos dados entre máquinas conectadas que sejam do mesmo fornecedor.

Mas, a realidade na nossa unidade, ou em qualquer outra unidade fabril, são linhas de produção multimarca e com máquinas de vários modelos, muitas vezes de gerações diferentes, consequentemente com dados, especificidades e protocolos diferentes.

CW – Quantas pessoas estiveram envolvidas na implementação?

JP – Tratou-se de uma equipa multidisciplinar, com envolvimento directo de parceiros, de responsáveis/especialistas da unidade de serviços de gestão documental. No total estiveram envolvidos cerca de nove recursos.

CW – Quantas pessoas trabalham directa e indirectamente com a solução?

JP – A solução está em produtivo e, directa e indirectamente, faz parte do dia a dia de todos os colaboradores da unidade.

CW – Quais foram os resultados alcançados?

JP – Os resultados ultrapassaram as nossas melhores expectativas iniciais. Esta implementação, além de permitir a monitorização em tempo real da produção, permitiu, através da análise dos dados recolhidos, optimizar alguns aspectos da produção e identificar uma oportunidade de evoluir o próprio modelo de negócio. Numa área tão competitiva como esta, qualquer factor diferenciador se traduz numa efectiva vantagem competitiva.

CW – E em termos mais quantitativos?

JP – Foi uma iniciativa com retorno para operação através das poupanças que gerou e que vai continuar a gerar. Em termos de execução o projecto, esteve em linha com o que é a prática da CGI, onde nos orgulhamos de ter um indicador global de mais de 90% dos projectos que são realizados dentro do prazo e do orçamento. Este não foi excepção.

CW – O projecto terá continuidade?

JP – Sim. A evolução natural será potenciar ainda mais os dados recolhidos e transformados em informação, nomeadamente na área de manutenção das máquinas, eliminando ou reduzindo paragens da produção. Assim, os níveis de serviço contratados são salvaguardados.




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