“2018 representa o ano de consolidação do conceito de edge computing”

Quase metade das vendas da Schneider já provêm da comercialização de soluções relacionadas com IoT. A digitalização está a ganhar terreno no negócio da Schneider. João Rodrigues aponta para a consolidação do conceito de edge computing.

João Rodrigues, director-geral da Schneider Electric Portugal

João Rodrigues, director-geral da Schneider Electric Portugal, faz o balanço de mais um ano de actividade da empresa em Portugal e perspectiva o próximo. Globalmente, o responsável aponta para que 2018, seja o ano da consolidação do conceito de computação de proximidade (Edge Computing). 

O líder da empresa em Portugal recorda que cada um dos ecossistemas em que a Schneider Electric opera tem num dos extremos tecnologia inteligente, incluindo produtos e sensores conectáveis, capazes de medir, monitorizar e controlar os consumos e procura de energia combinados com aplicações e analítica na cloud que permite “tomar decisões melhores e mais predictivas em tempo real”, estando o local onde as decisões são tomadas a deslocar-se para as extremidades (Edge).

Computerworld – Qual é o balanço que fazem da vossa actividade em 2017? Quais as previsões para 2018?

João Rodrigues – Em 2017, houve um marco na nossa estratégia de transformação. A Schneider Electric, a nível global, atingiu quase 27 mil milhões de euros de facturação, sendo que cerca de 45% das nossas vendas provém de soluções Internet das Coisas (IoT), o que assinala claramente o peso que a digitalização tem para a Schneider, materializado na nossa proposta de valor para o mercado. Consolidámos a oferta EcoStruxure, a nossa arquitectura aberta, inter-operável e habilitada para IoT que integrar produtos conectados, controlo de proximidade e uma terceira camada de apps, analítica e serviços.

CW – Quais são as previsões para 2018?

JR – Em 2018, a Schneider Electric pretende acompanhar as grandes tendências que influenciam os mercados nos quais actuamos: edifícios, habitações, infra-estruturas eléctricas, indústrias e centro de dados. Falo de reabilitação urbana e “smart homes/smart buildings (edifícios e habitações), de smart grid (infra-estruturas eléctricas), de Indústria 4.0 e IIoT (IoT para a Indústria) e de Edge Computing (centros de dados). A nossa missão é ajudar de uma forma transversal os nossos clientes na transformação (mais do que apenas digital), disponibilizando uma vasto portefólio de produtos e soluções e adicionando-lhe a tal camada de analítica que lhes vai permitir tomar decisões mais informadas e, portanto, optimizar processos e melhorar a sua eficiência operacional.

CW – Quais as expectativas de negócio para Portugal? 

JR – Em Portugal, registamos um enorme interesse da parte dos nossos clientes em saber mais sobre o EcoStruxure e a nossa proposta de valor. Consideramos que Portugal está a passar por um excelente período e prova disso são os investimentos públicos e privados previstos para este ano nas mais diversas áreas, portanto, sim, estamos muito optimistas relativamente ao ano de 2018.

CW- Pretendem adquirir empresas? Em que áreas? Há empresas portuguesas no radar?

JR – Nos últimos anos, a Schneider Electric tem reforçado o seu portefólio e tem-se posicionado num mundo de energia que sabemos que se está a tornar cada vez mais digital, descarbonizado e descentralizado, reforçando [a sua posição] na digitalização das indústrias. Nesse sentido, temos vindo a adquirir empresas líderes em software e, se detectarmos que poderá existir uma empresa que nos permita reforçar o nosso negócio e melhorar a oferta & tecnologia que disponibilizamos aos nossos clientes e que lhes permita serem bem sucedidos na economia digital, analisaremos, certamente, a oportunidade.

A porta não está fechada a futuras aquisições que nos permitam melhorar cada vez mais a nossa proposta de valor para os clientes, mas este tipo de decisões são tomadas ao nível do grupo, não local.

CW – Qual tem sido o vosso investimento em aquisições e Investigação e Desenvolvimento? 

JR – Temos efectuado um investimento considerável em aquisições nos últimos anos, mas também em I&D, para onde canalizamos cerca de 5% do nosso volume de facturação, para podermos ir ao encontro dos desafios que os nossos clientes irão enfrentar e para liderar esta economia digital.

CW – A Schneider Electric apresentou, em Abril, as suas mais recentes novidades em Paris durante a “Innovation Summit”. Quais são os destaques?

JR – Em Paris [num evento que reuniu mais de 5000 clientes e parceiros da empresa]  apresentámos as últimas novidades do EcoStruxure, a nossa plataforma tecnológica aberta, inter-operável, habilitada para IoT e plug and play. Uma das novidades foi o EcoStruxure Asset Advisor, uma nova versão da aplicação de serviços de monitorização dos equipamentos da Schneider Electric que proporciona um serviço predictivo 24/7, baseado na cloud e em dados para garantir a continuidade do serviço na distribuição eléctrica dos activos críticos dos Data Centers.

Outro destaque é o EcoStruxure Power, uma nova geração da plataforma e arquitectura IoT para a distribuição eléctrica, que reforçará as competências de gestão energética dos clientes, para que possam melhorar a sua eficiência e fiabilidade operacional e ainda uma plataforma coloaborativa e arquitectura inteligente (EcoStruxure Building) desenhada para edifícios.

CW – As soluções apresentadas dão resposta à mudança de paradigma em curso, em que a parte da computação, incluindo processos críticos, se desloca para as extremidades? 

JR – Muito se tem falado na nossa indústria sobre as implicações de um “mundo conectado à IoT” com a IoT, big data, analytics, computação na cloud, Inteligência Artificial etc. Acredito que estamos todos de acordo que a obtenção de dados só por si não traz qualquer benefício – a pergunta que se coloca é: como serão esses dados utilizados para gerar um valor único? A nossa visão para o EcoStruxure inclui mais do que apenas conectar dados à “cloud”, mas como podemos alavancar as tecnologias baseadas na “cloud”, como ‘big data analytics’ para gerar mais produtividade e eficiência no ecossistema e trazer melhorias tangíveis para o dia a dia das pessoas e das organizações.

CW – Pode dar-nos um exemplo? 

JR – Tomemos como exemplo a necessidade de tornar mais eficiente do ponto de vista energético os mercados nos quais actuamos. Se em cada um destes ecossistemas considerarmos que num dos extremos está a tecnologia inteligente, através dos nossos produtos e sensores conectáveis, capazes de medir, monitorizar e controlar os consumos e procura de energia e no outro (na “cloud”) estão as aplicações e toda a analítica permitindo tomar decisões melhores e mais predictivas em tempo real, podemos dizer que estaremos a assistir a uma deslocação do local onde essas decisões são tomadas.

CW – Indústria 4.0, grid, edge, processos críticos, 5g, segurança, visibilidade, foram alguns conceitos sobre os quais conversamos há dias. As fronteiras entre as tecnologias aparentam ser cada vez mais ténues. Como está a Schneider a adaptar-se?

JR – Estas são tendências e conceitos que num mundo em evolução constante precisam de ser considerados de forma integrada nas ofertas que disponibilizamos ao mercado e é isso mesmo que preconizamos na Schneider: um ecossistema aberto, inter-operável e hablitado para IoT que representa uma proposta real de valor para os nossos clientes, particularmente pela camada de analítica e a transformação de dados em informação valiosa para os nossos clientes. Assim, oferecemos opções de valor acrescido em termos de segurança, fiabilidade, eficiência, sustentabilidade e conectividade, utilizando ainda os avanços em IoT, mobilidade, sensores, Cloud, analítica e cibersegurança para oferecer inovação a todos os níveis, desde os Produtos Conectados e Edge Control até aplicações analíticas e serviços.

CW – Como se reinventa uma empresa com a dimensão da vossaneste ambiente de transformação digital? 

JR – A Schneider Electric, por aquilo que tem vindo a ser a sua história, basta pensar que é uma empresa que está em constante actualização, tem na mudança algo que lhe é muito natural. Recordo que já em 1968 a Schneider falava em produtos conectados, quando lançou o primeiro PLC. A necessidade de nos reinventarmos para termos, acima de tudo, soluções que permitam contribuir para a digitalização dos negócios dos nossos clientes, mantendo o foco na sustentabilidade, leva-nos a investir 5% do nosso volume de faturação anual em I&D.

CW– Estão a contratar? Que perfis procuram e para que tipo de funções? Onde são essas vagas (local)?

JR – Sim, estamos atualmente a recrutar para posições específicas, estando alguma dessas oportunidades visíveis através do Linkedin. Os perfis que procuramos têm que fazer “fit” com os valores da Schnheider Electric, valorizamos pessoas de diversas origens e culturas e que gostem de trabalhar numa empresa multinacional que é líder na transformação digital da gestão de energia e automação e que tem os seus clientes no centro das suas prioridades. 

Além disso, pelo nosso ramo de actividade, acabamos por termos necessidade de ter perfis mais técnicos, particularmente nas vendas e, nesse sentido, procuramos essencialmente engenharias nas vertentes de energia, automação e IT.      

CW – Sentem que está mais fácil ou mais difícil contratar face a anos anteriores?

JR – iria que hoje é mais complexo e porque não falamos apenas de contratar uma pessoa pelo seu currículo, mas sim de contratar talentos. Vivemos na era das matrizes de competências e ecossistemas de talentos. Na Schneider Electric, cada  pessoa é uma pessoa e procuramos alavancar o potencial de cada uma e despoletar o talento que existe em cada um dos nossos colaboradores. O paradigma tem vindo a mudar e “o mercado das motivações”, se é que podemos denominar este novo cenário desta forma, tem vindo a desafiar as empresas a reforçar a sua mensagem de proposta de valor para o colaborador e a Schneider Electric está cada dia a trabalhar nesse sentido.

A parte mais entusiasmante nesta era digital e no que diz respeito a recrutamento é poder utilizar as redes sociais e todos os meios digitais para chegar a mais perfis. Como referi antes, temos neste momento, processos de recrutamento a decorrer no Linkedin e existe a possibilidade de realizarmos entrevistas por Skype.

CW – Encontram os recursos que precisam em Portugal ou têm de “importar”? 

JR – Temos excelentes perfis e talentos em Portugal e até hoje não sentimos essa necessidade de “importar”. No entanto, somos uma empresa diversa e inclusiva e a abertura a perfis de outras origens é total, salvaguardando o domínio do nosso idioma para funções de contacto directo com o cliente.

Principais apostas da Schneider Electric em Portugal 

Centro de Dados: 2018, deverá ser o ano da consolidação do conceito de computação de proximidade (Edge Computing). A Schneider Electric está no entanto, a abordar este mercado há algum tempo. “Se juntarmos a isso a pressão gigante que existe sobre as Infra-estruturas de centos de dados, fruto da transformação (mais do que digital) dos negócios e o facto de se estimar que o consumo de energia dos centros de dados venha a representar 30% do consumo energético mundial, estamos bem posicionados para ajudarmos os nossos clientes, através de soluções integradas que combinam produtos conectáveis, controlo de proximidade e apps, analítica e serviços”, explica João Rodrigues. Em Portugal, a empresa está expectante relativamente ao investimento de gigantes da web, estando já a “desenvolver alguns projectos interessantes” que, para já não foram detalhados.

Edifícios & Habitações: Área em que a Schneider Electric actua no sentido de dotar os os edifícios e as habitações de inteligência, com o objectivo de contribuir para a optimização do consumo energético e para aumentar aumentar o conforto dos seus ocupantes. Além de uma rede de parceiros integradores, constituem uma oportunidade de negócio para a empresa, “o aumento exponencial do turismo e da reabilitação urbana em Portugal”,  diz João Rodrigues.

Indústria: A empresa continua a reforçar o posicionamento como fabricante de produtos e soluções de gestão de energia e automação industrial preparadas para a vaga de IIoT. “O objectivo é contribuir para a optimização de processos e aumento da produtividade das indústrias portuguesas e ter um papel activo na Indústria 4.0”, sublinha o director-geral da empresa. Também nesta área a Schneider conta com uma rede de parceiros integradores e de OEM (Fabricantes de Máquinas).

Infra-estruturas Eléctricas: Tendo em conta que vários estudos estimam que a procura de energia vá duplicar até 2050, a Schneider Electric acredita que é necessário dotar as redes eléctricas de inteligência, e criar condições para ter visibilidade, em tempo real, do desempenho das redes para antecipar falhas. É igualmente importante, modernizar as infra-estruturas eléctricas para optimizar o consumo de energia, algo que, segundo João Rodrigues, é uma preocupação das companhias eléctricas em Portugal.

[NR. Após ter concedido esta entrevista ao Computerworld, a Shcneider anunciou que a Empresa de Electricidade da Madeira escolheu tecnologia da empresa para suportar o Projecto Porto Santo Sustentável. Em comunicado, a Schneider referiu que, as soluções foram escolhida para integrar o “desenvolvimento e implementação de soluções inovadoras para a rede de energia eléctrica da ilha de Porto Santo”. Segundo explicado no comunicado, o projecto Porto Santo Sustentável, já em curso, “visa tornar a ilha no primeiro território europeu sem combustíveis fósseis e emissões quase nulas de dióxido de carbono, numa estratégia que pretende garantir, a médio e a longo prazo, a sua sustentabilidade ambiental”.




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