Zuckerberg considera aplicar requisitos do RGPD em todo o mundo

Mark Zuckerberg respondeu às questões dos congressistas norte-americanos em torno do caso “Cambridge Analýtica” e chegou a afirmar que os requisitos do RGPD serão aplicados a todos os utilizadores e não apenas aos europeus.

Mark Zuckerberg, director-executivo da Facebook

Os dados de 87 milhões de utilizadores que a Cambridge Analytica utilizou indevidamente com o objectivo de influenciar as eleições presidenciais norte-americanas em 2016 para dar a vitória a Donald Trump, levaram Mark Zuckerberg, fundador da Facebook a uma audiência de dois dias no Congresso norte-americano.

O fundador do Facebook respondeu esta quarta-feira às questões colocadas pelos congressistas norte-americanos no comité para energia e comércio, na Câmara dos Representantes norte-americana. Na véspera, respondeu às questões do Senado.

Verifique se a Facebook partilhou os seus dados com a Cambridge Analytica

No segundo dia de audiência, em resposta ao congressista Tonko, Mark Zucjerberg assinalou que a empresa se considera responsável por proteger os dados das pessoas e que, após as alterações implementadas nas políticas da rede social em 2014, a Cambridge Anaytica seria impedida de fazer o que fez.

Se as mesmas 300 mil pessoas utilizassem a app que fez chegar os dados de mais de 80 milhões de utilizadores à Cambridge Analytca, os dados a que essa empresa teria acesso seriam de apenas 300 mil perfis. Zuckerberg frisou que, em 2014, a empresa disse “que as pessoas não podiam partilhar a informação de amigos. 

Entre muitas outras questões colocadas no segundo dia de audiências, foi possível aferir que o perfil do próprio Mark Zuckerberg foi copiada por empresas de análises de dados. Uma das congressista perguntou ao presidente da Facebook se o seu perfil foi copiado e Zuckerberg respondeu: “Sim, foi”.  Zuckerberg aproveitou para recordar que, desde segunda-feira, está disponível no Facebook uma opção para verificar se os dados dos utilizadores foram afectados.

A propósito das alterações em curso na União Europeia, em particular no que diz respeito à privacidade dos cidadão, no âmbito do Regulamento Geral de Protecção de Dados (RGPD), Zuckerberg referiu que as alterações que estão a ser implementadas pela plataforma na União Europeia serão igualmente aplicadas ao resto do mundo. Zuckerberg assinalou que “todos merecem protecção” e que os requisitos do RGPD serão aplicados a “todos os utilizadores”. O RGPD será aplicado a partir de 25 de Maio de 2018.

Facebook sabia que a Cambrige Analytica tinha dados de seus utilizadores e não agiu

Em 2015, a Facebook soube que a Cambrige Analytica teve acesso a uma extensa base de utilizadores da rede social. Ainda assim, não agiu para excluir o perfil da companhia, porque considerou-se à época que não havia razões para o fazer. “Foi um erro não ter excluído”, admitiu. Desde que o escândalo foi divulgado, a 17 de Março, muito se questionou por que a Facebook não notificou os 87 milhões de utilizadores afetados por esta falha na privacidade.  Ao Congresso, Zuckerberg disse que na altura considerou que o caso estava encerrado, uma vez que a empresa chegou a solicitar à Cambrige Analytica a eliminação da base de dados que tinha obtido através da aplicação “This is Your Digital Life”, feita por Aleksandr Kogan.

Mark Zuckerberg não consegue nomear seus concorrentes

Lindsey Graham, senador do Partido Republicano, confrontou Zuckerberg sobre o monopólio da Facebook: “Quem são os seus maiores concorrentes?”. O executivo tentou resumir: “Nós temos vários concorrentes”, sem nomear alguma empresa. Ele foi questionado sobre a dimensão e a proporção que a Facebook atingiu.

“Deixe-me colocar a questão desta forma. Se eu comprar um Ford e ele não funcionar bem e eu não gostar, eu compro um Chevy. Se eu estiver aborrecido com o Facebook, qual é o produto equivalente que posso subscrever? Há alguma alternativa?” Zuckerberg respondeu que o americano médio utiliza oito aplicações diferentes para comunicar com os seus amigos. Convém lembrar que o Facebook também detém o Messenger, o WhatsApp e o Instagram. “O senhor não acredita que tem um monopólio?”, perguntou o senador e Zuckerberg respondeu: “Certamente não é isso que me parece”.

Esta quarta-feira o presidente e director-executivo da Facebook está a ser ouvido nos  comités de energia e comércio e foi este o seu depoimento inicial 

Influência nas eleições norte-americanas

Outro tópico complicado na recente história da Facebook é a sua utilização para disseminar as chamadas “fake news”, além da compra de anúncios para influenciar as eleições norte-americanas. Zuckerberg falou sobre a tentativa de exploração da Facebook por parte de agentes russos para desestabilizar as eleições em 2016. E comparou o seu alcance a “uma corrida ao armamento”. Segundo Zuckerberg, trabalham actualmente 15 mil pessoas na equipa de segurança da empresa, número que deverá aumentar para 20 mil até o fim de 2018 para tentar mitigar aquelas práticas.

O executivo também reforçou o uso da inteligência artificial para explica o alcance da Facebook. Sempre que foi questionado sobre se iria melhorar as ferramentas de moderação na rede social, Zuckerberg falou sobre as capacidades da inteligência artificial na ajuda à classificação de discursos de ódio e outras publicações complicadas.

A Facebook não é uma empresa de média, segundo Zuckerberg

O republicano John Cornyn questionou o executivo sobre um dos efeitos colaterais do Facebook: a rede social ter-se-á tornado uma empresa de media? Se sim, deveria ser regulada como tal?

“No passado, disseram-nos que plataformas como a Facebook, a Twitter ou a Instagram são neutras e que as pessoas que as detém e administram para obter lucro não têm responsabilidade sobre o conteúdo. Concorda que a Facebook e outras plataformas de media social já não são plataformas neutras, mas que têm alguma responsabilidade pelo conteúdo?”, perguntou o senador. “Concordo que somos responsáveis ​​pelo conteúdo”, defendeu Zuckerberg. 

Dan Sullivan prosseguiu, alargando o debate ao dizer que, para alguns, a Facebook se tornou na maior editora do mundo. “Concordo que somos responsáveis ​​pelo conteúdo, mas não produzimos o conteúdo. Quando as pessoas nos perguntam se somos uma empresa de media ou uma editora, penso que o que eles estão realmente a fazer é: nós sentimo-nos responsáveis ​​pelo conteúdo da nossa plataforma? A resposta é, claramente, sim. Mas não penso que isso seja incompatível pois, no fundo, somos uma empresa de tecnologia”.

“Nós partilhamos anúncios, senador”

Zuckerberg foi também questionado sobre o modelo de negócios da Facebook e disse que não descarta a eventual criação de uma versão paga sem anúncios. A Orrin Hatch, Zuckerberg disse que sempre iria existir uma versão gratuita da Facebook, mas a outro senador não excluiu a possibilidade de uma versão paga.

Um momento de desconforto aconteceu quando Hatch perguntou: “Como sustenta um modelo de negócio no qual os utilizadores não pagam pelo seu serviço?”. Zuckerberg respondeu com o óbvio: “Senador, nós partilhamos anúncios”. 




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