Informação médica será transportada pelos próprios pacientes

A informação no sector da saúde deve fluir com base numa visão sistémica e estruturada. O utente deve ser o protagonista e também aquele que leva os dados consigo quando se relaciona com organizações – públicas ou privadas – na área da saúde.

Alfredo Ramalho (SPMS), José Tribolet, (INESC), Bruno Horta Soares, (IDC) e Pedro Silva Dias (AMA)

Encontrar uma visão comum para o sistema de informação da saúde foi o desafio colocado pela organização aos oradores convidados para o primeiro dia da Portugal eHealth Summit que começou esta terça-feira e que se prolonga até sexta-feira, em Lisboa.

Henrique Martins, presidente dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), aponta um longo caminho a percorrer no sector da saúde, em particular no que diz respeito aos sistemas de informação e sublinha que é necessário “minimizar o encontro físico”, “mantendo o toque humano”, tirando partido das tecnologias e recorrendo a soluções tecnológicas que permitam realizar a generalidade dos actos médicos e relacionados com a saúde à distância.

Henrique Martins, presidente dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS).

A título de exemplo Henrique Martins referiu duas novidades nacionais, já da corrente semana: a introdução de uma nova funcionalidade adicionada ao MySNS Carteira, que permite ao utente entrar mais facilmente em contacto com a unidade de saúde familiar, ] ou o início da substituição do Sistema de Informação Nacional dos Cuidados de Saúde Primários (SINUS) numa unidade no Porto. [NR: O MySNS Carteira é uma solução concebida pelo SPMS para o utente receber notificações, consultar informação sobre o seu histórico de vacinas, alergias, o seu testamento vital, guias de tratamento, entre outras funcionalidades

Do estrangeiro, referiu a experiência com uma perna robótica realizada recentemente no Japão que se tornou a semana passada uma realidade após vários anos de investigação.

Henrique Martins anunciou uma nova funcionalidade do MySNS Carteira que permite ao utente entrar mais facilmente em contacto com a unidade de saúde familiar e o início do fim do SINUS numa unidade de prestação cuidados de saúde no Porto.

José Tribolet, presidente da comissão executiva e do conselho de directores do INESC, em conjunto com médicos, enfermeiros, administradores hospitalares de Lisboa e de Coimbra, está a procurar encontrar uma “visão de um sistema de informação única”. O trabalho está em desenvolvimento há cerca de quatro anos e o objectivo final é que cada um de nós tenha uma representação digital única na sua relação com a saúde. “O Zé e a Maria Digital na sua relação com a saúde”.

O investigador faz a analogia com o cartão de cidadão que, com o tempo, passou a ser uma representação digital do cidadão na sua relação com múltiplos serviços do Estado.

José Tribolet, INESC

O trabalho identificou, no contexto nacional de saúde, cinco tipos de processamentos que se fazem sobre o “Zé” e a “Maria” ao longo da vida que sintetizam toda a relação dos indivíduos com a saúde: consulta, internamento, hospital de dia, urgência e meios complementares de diagnóstico e tratamento.

Cada uma destas interacções implica recepção, execução e encaminhamento das situações, vezes consecutivas ao longo da vida. Por isso o desafio passa por encontrar um modelo que “assegure a continuidade de todo o sistema de prestação de cuidados de saúde ao Zé e à Maria”. José Tribolet destaca que é preciso ter informação. Por exemplo, referiu que ninguém sabe de uma forma contextualizada, em cada momento “como está o estado de saúde do fígado do Zé?”. No entanto, paradoxalmente, na Internet, consegue encontrar-se toda a informação possível sobre o estado de saúde global do fígado, no entanto sobre o fígado do Zé, ninguém tem informação contextualizada.

“Quando quero saber onde mora o Zé. Pergunto ao Zé Tribolet. Quando preciso saber qual o número de contribuinte do Zé Tribolet, pergunto ao cartão de cidadão, que é uma representação do Zé Tribolet. E isto não existe para a saúde. Não é possível perguntar ao Zé, como é que está o fígado do Tribolet” José Tribolet (INESC).

E qual a melhor forma de obter essa informação? “Perguntando ao Zé. “Quando quero saber onde mora o Zé. Pergunto ao Zé Tribolet. Quando preciso saber qual o número de contribuinte do Zé Tribolet, pergunto ao cartão de cidadão que é uma representação do Zé Tribolet. E isto não existe para a saúde. Não é possível perguntar ao Zé, como é que está o fígado do Zé Tribolet”.

A proposta do investigador passa então pela criação de registos nacionais de utentes, de profissionais de saúde, de organizações de saúde, de casos de saúde público, de vigilância epidemiológico, etc… para que seja possível “chegar a uma visão sistema aplicacional”.

“Se tudo isto não estiver definido, se não há uma linguagem única, não há software que resolva [os problemas do sistema de informação de saúde], não há interoperabilidade possível”. É necessário identificar as funcionalidades essenciais e orquestrar as acções que permitam chegar de um ponto ao outro. A “governação do sistema de saúde” é fundamental, a capacidade de gerir e ordenar. Sem mapas, sem arquitectura, não se consegue atingir o destino.

“É utópico? Sim. É possível? É. Faz-se de um momento para o outro? Não. Mas tem de ser feito de forma estruturada”, concluiu Tribolet. Não obstante, o investigador sublinha que “o trabalho que tem sido feito no sector da saúde é notável”, mas é preciso ter “uma visão sistémica para fazer uma transformação digital na saúde”.

Bruno Horta Soares, IDC

Em linha com esta visão está Bruno Horta Soares, consultor sénior da IDC. O analista recorda que a transformação digital implica que todos tenham o mesmo foco, porque “se todos estiverem a olhar para coisas diferentes será muito difícil”. A solução passa pelo trabalho em equipa, pois “isolado ninguém tem dimensão para a transformação digital”.

O analista lembra que muitos dos pilares e dos aceleradores de inovação estão disponíveis desde os anos 50 ou 60, mas que só agora ficaram acessíveis a todos nós. É então tempo de criar soluções, posicionadas numa framework, que, no conjunto, “permitam à nossa organização preparar-se para o futuro da transformação digital”.

No entanto, “aquilo que assisto nas organizações que acompanho, também na saúde, é a incapacidade que têm de se posicionar, de visualizar como é que estes termos [N.R. cloud, big data, segurança, realidade virtual e outros pilares e aceleradores de inovação] de facto vão acontecer estes termos no futuro”, assinala Bruno Horta Soares.

Em suma “pensar no futuro é a transformação digital. Transformação digital não é resolver os problemas do passado, é perguntarmos a nós próprios, às nossas famílias, às nossas organizações onde é que vamos estar daqui a cinco anos”, sublinha. E assinala: “não está tudo inventado, mas está tudo bastante estruturado” e a missão de qualquer transformação digital na saúde passa por uma “value based healthcare”.

“Temos de pedir aos nossos pacientes para trazer a sua informação e para nos vejam como uma peça da sua vida e não o contrário”. Recordando uma previsão da IDC, assinala que em 2020, “25% da informação médica vai ser trazida pelos próprios pacientes”. Bruno Horta Soares (IDC)

Esta missão implica o envolvimento dos clientes. “Temos de pedir aos nossos pacientes para trazer a sua informação e para nos vejam como uma peça da sua vida e não o contrário”. Recordando uma previsão da IDC, assinala que em 2020, “25% da informação médica vai ser trazida pelos próprios pacientes”.

Bruno Horta Soares apela também à eliminação do desperdício, “um dos piores flagelos da indústria, sobretudo pelo custo da doença e o crescente custo da doença”. Aqui o IoT pode desempenhar um papel relevante, “para saber de facto onde estão os recursos e em que os estamos a consumir”, sublinha. “Até 2020, na parte mais logística, o uso de IoT vai duplicar em todas as organizações”.

A centralidade da informação é outro foco da visão apontada por Bruno Horta Soares “Nós não podemos produzir moeda em Portugal, mas podemos produzir dados, que é a moeda do futuro, o novo óleo da transformação digital”, explica. No entanto, apela à dimensão, à centralizadção de dados, através da recolha de dados no mundo real, da criação de hubs colectivos que nos dêem uma verdadeira dimensão da transformação digital, porque, isolado, ninguém tem dimensão para a transformação digital”.

Finalmente uma mensagem de alerta. “A segurança e associada privacidade são um dos drivers principais da transformação digital”. A questão não é como evitar falhas na segurança, mas sim, como estar preparado para as enfrentar. É necessário tomar decisões de segurança de raiz, por desenho, preventiva, detectiva e correctivamente.  Porque, em qualquer parte do mundo, “até 2021 vai surgir o primeiro caso de 100 milhões em tribunal, pela morte de 25 pessoas por um ataque de segurança. Não há ninguém que consiga impedir isto”. Bruno Soares avisa: “vai acontecer, mas não vai acontecer a quem se preparar”.

Exemplos práticos da transformação digital na administração pública

Pedro Silva Dias, Agência para a Modernização Administrativa

Pedro Silva Dias, presidente do Conselho Directivo da Agência para a Modernização Administrativa (AMA), explicou como está estruturado o processo de transformação digital da Administração Pública, que passa por uma visão integrada do ecossistema dos serviços públicos. A Administração pública está gradualmente a eliminar o papel, através da disponibilização de canais digitais, tendo sempre como preocupação a segurança digital, procurando o desenvolvimento de um ecossistema de meios digitais que falam entre si (interoperabilidade), procurando ainda tirar partido dos dados e da analítica para a criação de novos serviços com mais valor para o cidadão.

Pedro Silva Dias assinalou a importância da criação de canais digitais que não deixem ninguém de fora. Assim, coexistem soluções como o “MySNS Carteira, para quem está confortável no uso do smartphone”, mas também “serviços de mediação digital para ajudar quem não tem competências digitais ou sequer computador em casa”.

Em matéria de segurança, o responsável da AMA  referiu que está a “ser desenvolvida uma arquitectura de e-id segura e de utilização fácil”, onde se incluem as assinaturas profissionais, o cartão de cidadão, formas de autenticação ou a chave móvel digital.

Focados no “ecossistema e interoperabilidade”, estão a ser criadas várias soluções para tornar “a nossa vida mais simples. É o caso do “nascer cidadão”, que envolve a saúde e a justiça, da “escola 360” que envolve a saúde e a educação, a renovação da carta de condução através do “carta sobre rodas” (saúde e transportes) ou a interoperabilidade da ADSE (saúde) com as Finanças, que agiliza por exemplo, o reembolso das despesas médicas (ADSE na sua mão).




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