Fábrica portuguesa de telemóveis abre em Coruche

Inaugura esta semana a primeira fábrica de telemóveis de Portugal. Nas condições actuais, e em velocidade-cruzeiro, a empresa espera fabricar 100 mil dispositivos por mês.

Tito Cardoso, CEO da Iki Mobile

Tito Cardoso, CEO da Iki Mobile

A primeira fábrica de telemóveis da península ibérica abre esta terça-feira e começa a funcionar no dia seguinte. O trabalho já começou com a aquisição de matéria-prima, contratação de colaboradores, design do produto. A fábrica, na zona industrial do Monte da Barca, em Coruche, começa a laborar na produção de telemóveis quarta-feira. A produção em pleno –  100 mil telemóveis por mês, ou até mais, após uma eventual ampliação da linha de produção – irá depender do sucesso comercial.

A aposta da marca portuguesa passa pela diferenciação através da utilização de cortiça no fabrico dos telemóveis, sem descurar a competitividade, explicou Tito Cardoso, CEO da empresa, em entrevista ao Computerworld. Actualmente, o equipamento mais económico da marca custa 16,99 euros. O topo de gama da nova colecção irá custar 360 euros.  

Num primeiro momento, a empresa prevê fabricar cerca de 35 mil dispositivos por mês. Brevemente irá também diversificar a oferta incluindo acessórios como powerbanks, colunas ou auriculares também com cortiça. Os acessórios estão a ser desenhados e entrarão em seguida em produção, avança Tito Cardoso.

A Iki Mobile tem cerca de três anos e já fabrica na China, utilizando para o efeito matéria-prima portuguesa, incluindo cortiça. O objectivo de trazer a produção para Portugal, incluída no plano estratégico da empresa desde o primeiro momento, prende-se com a proximidade dos mercados em que a empresa pretende apostar: Europa, África ou continente americano. A nova fábrica vai funcionar “naquele que consideramos ser o centro do mundo: Portugal e a Europa”, afirma Tito Cardoso.

A marca portuguesa de telemóveis diferencia-se da concorrência pela “integração de cortiça e outras matérias-primas nacionais”, detalha o CEO. Diferencia-se agora também pela instalação da fábrica em Portugal, próxima de mercados como o americano ou africano.

Investimento de 1,6 milhões de euros, para começar

O plano de investimento da Iki Mobile é ambicioso, mas “com os pés assentes na terra”, explica Tito Cardoso. Na fábrica de Coruche foram investidos 1,6 milhões de euros. “Mas pretendemos investir mais”. A que velocidade? “Tudo depende da procura”.

“Temos um plano de investimento e temos planeada a ampliação e automatização da linha de fabrico”, assinala. “Estamos preparados para o sucesso, para ter encomendas elevadas”, sublinha. O investimento na produção estará directamente relacionado com essa procura que poderá ter um impacto maior ou menor. “Nós queremos que seja um impacto maior para que tenhamos de investir mais”.

“Nós queremos que o impacto (da procura seja) maior para que tenhamos de investir mais” Tito Cardoso (Iki Mobile).

A ampliação da linha de fabrico está directamente relacionada com a procura. Para já, a empresa está a preparar-se para participar no Mobile World Congress, no final do mês, em Barcelona. Neste evento, focado na internacionalização, a Iki tomará o pulso ao mercado. É a segunda vez que a empresa participa neste certame.

A ambição da marca é grande: “queremos estar em todos os países do mundo” e “temos de estar preparados na fábrica”. Actualmente a fábrica tem capacidade para produzir 100 mil telemóveis por mês. “Mas temos de estar preparados para dar resposta à procura elevada que possa existir, assegura Tito Cardoso. No entanto, se a procura se mantiver em linha com a evolução actual das vendas “iremos crescer gradualmente”, mas, em última instância “está dependente da procura”.

A Iki Mobile vendeu 290 mil equipamentos no primeiro ano de actividade. Em 2017 vendeu cerca de 400 mil unidades. Para este ano as perspectivas são “ultrapassar este número”. Sem perspectivar dados concretos, Tito Cardoso apenas referiu: “se for 401 mil já é ultrapassar, mas não é isso que se pretende, queremos mais”.

A fábrica de Coruche resultou do investimento de capitais próprios da empresa. A Iki apresentou duas candidaturas ao Portugal 2020, que, até ao momento, ainda estão a ser analisadas. “Não podíamos esperar, por isso avançámos com capitais próprios”.  

Há cerca de três anos, e segundo um plano inicial, a Iki pretendia abrir a primeira fábrica de telemóveis em 2019, plano que foi ajustado entretanto, porque “quisemos que fosse o mais cedo possível”. O ano passado ainda este em cima da mesa, mas “por uma questão de calendário acabou por não ser oportuno arrancar no final de 2017” o que levou a optar por abrir em Fevereiro, numa altura mais calma. Entre outros motivos, já “havia muito ruído”, relacionado com o Natal, “muitas modelos novos de outras marcas”.

Exportações representam 95% do negócio

A maioria da produção da Iki tem como destino as exportações, incluindo mercados como como Angola ou Timor-Leste. Actualmente é 95%, mas poderá ser maior. “Tem a ver com a dimensão do país”, assinala Tito Cardoso. “Quanto mais vendermos para fora, menor será o peso do mercado nacional”. Hipoteticamente, “poderíamos exportar 99% da produção e sermos, em simultâneo, líderes no mercado nacional”.

A empresa está a negociar com vários operadores de telecomunicações, mas só irá avançar com detalhes após o fecho do negócio. Entretanto, a Iki tem outro tipo de parceiros como “a VASP, a Databox, a Pagaqui, a Disashop, a Lycamobile e entrou no grande retalho através da presença nos espaços Telecor do El Corte Inglès, nas lojas BOX da Auchan e na Worten onde está a ser vendido o topo de gama KF5 Bless Cork Edition, detalha nota de imprensa”.

“A unidade fabril terá a possibilidade de produzir telemóveis ODM-OEM (telemóveis de marca branca fabricados para operadores), assim como terá capacidade para produzir 12 mil moldes de plástico por dia, através da sua linha de injeção do mesmo”, detalha a empresa.

As parcerias podem passar pelas “linhas brancas” e poderão ser vantajosas para os operadores que “poderão achar interessante ter a produção em Portugal – ou na Europa – para não ter de viajar 16 horas ou deixar de trabalhar com diferenças de fusos horários de oito horas, com países com uma cultura totalmente diferente”. O CEO da Iki destaca aspectos de Portugal como a gastronomia, a multiculturalidade, e até o nível de segurança como vantagens do país para fazer negócios.

“O objectivo é ter um telemóvel cada vez mais seguro”, quem sabe “não vamos ter o telemóvel mais seguro do mundo?” Tito Cardoso (Iki Mobile)

Preocupada com a segurança dos utilizadores, a Iki tem uma parceria com a Norton que se consubstancia na integração de software anti-vírus no equipamento dos dispositivos com antivírus.

No entanto, o trabalho em matéria de cibersegurança não está concluído. Sem revelar detalhes, Tito Cardoso referiu que a empresa está a trabalhar nessa área, a fazer estudos, mas que não pode ainda revelar detalhes. No entanto, “o objectivo é ter um telemóvel cada vez mais seguro”, quem sabe “não vamos ter o telemóvel mais seguro do mundo?” O CEO recorda que “há muitas aplicações que as pessoas instalam e que têm vírus. O Norton dá alguma segurança”.

Investigação e desenvolvimento na área da cortiça

Além da produção de telemóveis, a empresa investe igualmente na investigação e desenvolvimento relacionado com o processo de utilização da cortiça. É um material que “necessita de tratamento, técnicas de aplicação com lógica e funcionalidade”.

A cortiça é uma face visível da preocupação da empresa com a sustentabilidade. “Em primeiro lugar, reduzimos a quantidade de plástico para colocar cortiça”, no exterior dos equipamentos. “Agora estamos a estudar formas de substituir algumas componentes, tradicionalmente feitas em plástico, por cortiça, no interior do telemóvel”. Quanto à percentagem de incorporação nacional “é a necessário para termos o selo “Portugal Sou Eu”, do IAPMEI”, destaca Tito Cardoso.

Tito Cardoso recorda que tudo o que é produzido em Portugal, mesmo produtos agrícolas, acaba por ter alguma componente importada “Nem nós nem ninguém consegue fazer alguma coisa desde o zero sem recurso a algo proveniente do estrangeiro”. No caso, são por exemplo os processadores, fabricados na China, que “encomendamos à Mediatec”.

Coruche: proximidade da cortiça e do cliente

A localização em Coruche, capital mundial da cortiça prende-se com a proximidade da matéria-prima e das vias de comunicação (aeroporto, estradas de acesso à Europa). Em causa está a proximidade geográfica relativamente a potenciais clientes – os operadores europeus.

“Pretendíamos abrir uma fábrica em Portugal. Em Coruche ou em qualquer outro local era indiferente”, pois não há experiência no fabrico de telemóveis em Portugal, assinala o CEO. “Fosse onde fosse, teríamos de dar formação às pessoas”. Por isso os critérios de selecção do local prenderam-se com a proximidade da matéria-prima e das vias de comunicação.

Numa primeira fase, a fábrica cria 36 postos de trabalho, número que irá aumentar em cerca de 15 trabalhadores até ao final do segundo trimestre de 2018, avança a empresa em comunicado.

Para os recursos humanos, explica Tito Cardoso, o que a empresa procura nos colaboradores são “pessoas dinâmicas, com vontade, disponíveis que queiram um desafio e aprender”. A equipa é composta essencialmente por operários – de Coruche -, mas inclui também um engenheiro de fábrica (igualmente de Coruche) e equipas de design, design técnico, na área financeiras e nas vendas.

Questionado sobre a oportunidade que encontraram num mercado competitivo como o dos telemóveis, Tito Cardoso explica que “existe espaço para uma marca como a nossa. Somos diferentes, utilizamos uma matéria-prima mais amiga do ambiente, mais sustentável. Somos diferentes, porque somos uma marca europeia e agora somos mais diferentes ainda porque somos uma marca “made in” Portugal”. Tito Cardoso acredita ainda que muitas pessoas “compram os produtos com base nos países onde são fabricados, preferem produtos desenvolvidos perto de si, no caso, com insígnia europeia, que reflecte uma imagem de qualidade”.




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