Maersk e IBM vão ter joint venture para blockchain

As duas criaram uma plataforma para o sector do transporte marítimo que permitirá a agentes do comércio mundial, o acompanhamento e gestão das cargas.

A Maersk e a IBM anunciaram que vão ter uma joint venture cujo objectivo é implantar e comercializar os serviços de um sistema em blockchain, para o transporte marítimo. A plataforma servirá para digitalizar o suporte processual às cadeias de abastecimento e acompanhar o transporte de mercadorias internacional em tempo real.

O novo sistema poderá poupar à indústria de transporte marítimo global milhares de milhões de dólares por ano, ao substituir os sistemas EDI, ainda assentes em processos de papel, que atrasam a circulação de contentores dizem as empresas.

A blockchain vai permitir uma visão unificada através de um painel virtual, sobre todos os bens e informação de transporte disponibilizada por todas as partes envolvidas no comércio  mundial : fabricantes, transportadoras, das autoridades portuárias e outras agências governamentais.

Como é imutável e distribuída, a tecnologia blockchain vai também melhorar a segurança, considera Michael White, antigo presidente da Maersk Line na América do Norte e CEO da nova empresa. “Com a blockchain, as melhorias na segurança são significativas devido à dupla cifra”, assinalou White.

“Algumas das vantagens oferecidas pela blockchain são a imutabilidade do registo e a confiança que ela dá às pessoas. Se alguma coisa for alterada num documento, isso é imediatamente detectado por todos”, justifica.

A plataforma empregará contratos de execução automática (“smart contracts”) definidos para os produtos enviados e a autorização exigida durante o transporte.

A referida imutabilidade nativa como registo distribuído também criará um mecanismo automático de auditoria para reguladores, algo que o sector está a precisar há muito tempo. Juntamente com a documentação em papel, grande parte da informação do sector internacional dos transportes tem sido transmitida por EDI ‒ tecnologia de com 60 anos de idade.

Mas uma vez adoptada a blockchain com API na nova plataforma, as transportadoras e todos os outros agentes na cadeia de abastecimento terão informações mais actualizadas e visibilidade melhorada, sobre os transportes, disse White.

A plataforma empregará contratos de execução automática (“smart contracts”) definidos para os produtos enviados e a autorização exigida durante o transporte. “O ponto-chave é saber com se elimina ou mitiga os atrasos e como você pode encurtar a espera por informações ou documentação para a carga circular eficientemente”, disse White.

Um exemplo está associado a grandes mercadorias de exportação: o transporte de abacate de Mombasa, no Quênia para o porto de Roterdão, nos Países Baixos, pode levar até 34 dias. Ao todo as autoridades portuárias aguardam durante duas semanas, informações de embarque e aprovação de documentos governamentais.

“Os documentos [de transporte], tal como são criados, têm de passar de uma agência aduaneira ou reguladora para outra, muitas vezes por correio numa moto. Uma vez assinados, são colocados numa mala de correio, enviados para o destino onde o corretor o apresenta à alfândega holandesa. Esta tem então de validar se é um certificado autêntico, original … e, em última instância, é entregue “, disse White.

À medida que o custo e o tamanho dos ecossistemas comerciais mundiais continuam a ficar mais complexos, o custo da documentação comercial, requerida para processar e administrar mercadorias enviadas globalmente, deverá atingir um quinto dos custos reais de transporte físico.

Segundo este responsável a remessa de abacate envolveu 30 funcionários portuários e governamentais e 200 comunicações entre 100 pessoas. “Portanto, se algum dos documentos sofrer atrasos ou se houver questões de validade, o envio será suspenso”, acrescentou.

O sector dos transportes internacionais representa quatro mil milhões por ano, e 80% dos bens são transportados em navios. Grande parte da logística envolve processos em papel, para criação de documentos de carga, acompanhamento de embarques e até mesmo para obtenção de aprovações de das autoridades aduaneiras e portuárias.

À medida que o custo e o tamanho dos ecossistemas comerciais mundiais continuam a ficar mais complexos, o custo da documentação comercial, requerida para processar e administrar mercadorias enviadas globalmente, deverá atingir um quinto dos custos reais de transporte físico.
De acordo com o Fórum Económico Mundial, ao reduzir barreiras dentro da cadeia de abastecimento internacional através de comunicações electrónicas transparentes, o comércio global pode aumentar quase 15%.

Nos últimos 18 meses, a Maersk, com sede na Dinamarca, esteve a desenvolver um projecto piloto para a plataforma blockchain com vários clientes, incluindo a DuPont, a Dow Chemical, a Tetra Pak, o Port Houston, o Rotterdam Port Community System Portbase, a administração aduaneira da Holanda Países Baixos e a alfândega e a serviços de protecção de fronteiras dos EUA.

A nova empresa da Maersk e da IBM ainda precisa de obter aprovação regulamentar, momento em que o seu nome será anunciado. Mas os parceiros esperam que a nova plataforma esteja disponível nos próximos três a seis meses, de acordo com White

A plataforma foi construída com a tecnologia de blockchain da IBM, fornecida através de cloud computing do fabricante. O serviço é baseado na especificação de open source, Hyperledger Fabric 1.0, criada pela Linux Foundation.

“Tem de se basear em normas abertas … e ser uma plataforma neutra para o fornecedor, de modo a que todas as outras linhas marítimas que o usassem, pudessem estar em pé de igualdade”, refere Ramesh Gopinath, vice-presidente da Blockchain Solutions, na IBM. “Essa também é a razão pela qual é uma empresa separada da Maersk e da IBM”.

As duas empregaram outras tecnologias abertas baseadas em cloud na plataforma, incluindo inteligência artificial, IoT e analítica, para ajudar as empresas a moverem e monitorizarem a circulação de produtos digitalmente através das fronteiras internas. Fabricantes, companhias marítimas, transitários, operadores de portos e terminais, e autoridades aduaneiras deverão poder aceder o painel virtual da plataforma de forma autorizada.

Digitalização da cadeia e suprimento do papel têm prioridade

Até à data, 18% do volume global de contentores da Maersk já está representado  na aplicação de blockchain, um número que aumentará ao longo do tempo, de acordo com Ramesh Gopinath.
“Os terminais portuários estão muito interessados ​​em tentar obter informações mais a montante para perceber que remessas estão a chegar, para determinar a disponibilidade de espaço e potencial congestionamento nas plataformas de modo a permitir que a carga seja movida de forma mais fluida”, disse Gopinath.

Ao contrário da bitcoin, que baseada numa blockchain aberta, em que todos os participantes podem ver a entrada de dados, a aplicação da IBM e da Maersk será gerida de forma centralizada. Cada participante terá autoridade para aceder a dados, mas com limites, pelas suas necessidades individuais, disse Gopinath.

Com a joint venture, a IBM e a Maersk poderão comercializar e escalar o serviço para um conjunto mais amplo grupo de empresas com escala global, muitas das quais já manifestaram interesse nas capacidades e estão explorar maneiras de usar a nova plataforma. Nele incluem-se a Procter & Gamble, que procura simplificar as complexas cadeias de abastecimento que gere.

As duas primeiras capacidades da plataforma electrónica serão a digitalização da cadeia de abastecimentos e o suporte ao suprimento do papel no comércio mundial: ao permitir aos utilizadores enviar, validar e aprovar documentos de forma segura em fronteiras internacionais ou organizacionais.




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