“É triste ver um supercomputador parado por falta de manutenção”

As instituições conseguem financiamento para comprar supercomputadores, mas depois não conseguem orçamento para a manutenção. É preciso haver planos de longo prazo para assegurar competitividade, diz Albert Trill da Atos.

Albert Trill, responsável de vendas de computação de alto desempenho (HCP) na Atos Ibéria

A computação de alto desempenho (HCP) diz respeito a sistemas de computação capazes de processar pelo menos um exaflop, ou  “floating point operations per second”. Na prática, com capacidade de fazer mil milhões de mil milhões de cálculos por segundo, aproximadamente mil vez mais do que os primeiros computadores petascale que entraram em funcionamento há uma década.

Actualmente “toda a gente fala em exaflops”, mas, enquanto não chegam os primeiros produtos comerciais, prontos a usar, tirando partido da computação quântica, “o que poderá ainda levar alguns anos”, vamos preparar o caminho com a actual tecnologia de computação de alto desempenho, disse Albert Trill, responsável de vendas especialista em computação de alto desempenho na Atos Ibéria, em entrevista ao Computerworld Portugal.

Albert Trill, responsável na Atos, proveniente da Bull, empresa adquirida em 2014, esteve em Portugal para sentir o mercado e perceber se é o momento oportuno para comercializar supercomputadores em Portugal.

Computerworld – O que devem fazer as organizações, que precisam de tratar dados em quantidades muito elevadas, como as universidades e os laboratórios de investigação, enquanto não chega a computação quântica?

Albert Trill – A oferta de soluções de computação quântica comercial e pronta a usar ainda deverá levar alguns anos a ser uma realidade. Entretanto, aconselhamos as organizações adoptar os simulares de aprendizagem automática Quantum (Quantum Learning Machine) para ir preparando as aplicações e o software para a realidade futura.

Não será apenas uma questão de deitar fora o computador antigo e colocar o novo e ficar, de um momento para o outro com tudo a correr duas, vinte ou duzentas vezes mais rápido. Será necessário alterar o software, algo que não acontece de um dia para o outro.

A nossa mensagem é “se a computação quântica vai mudar o seu algoritmo, pode começar desde já a simular novo hardware”. Quando esse hardware estiver disponível, o software estará a postos para beneficiar da nova tecnologia.

CW – Quem são os destinatários dos supercomputadores? Há mercado na Península Ibérica, em particular em Portugal?

AT – Fazendo a analogia ao desporto automóvel, a supercomputação é o equivalente aos Fórmula 1 da computação. Portugal ou Espanha não são os países mais ricos do mundo. Se é verdade que na maioria dos casos não iremos conduzir “Fórmula 1”, gostamos de falar sobre Fórmula 1.

Mas existem muitas outras competições e, no dia-a-dia, conduzimos automóveis adaptados às nossas necessidades e orçamentos. E até podemos fazer corridas com carros normais. Posso ter um pequeno supercomputador adaptado às minhas necessidades e orçamento, que é igualmente uma boa ferramenta para fazer ciência e investigação.

CW – Daí a vossa oferta diversificada?

AT – O espectro das nossas soluções cobre de uma ponta a outra, da maior à mais pequena. A computação de alto desempenho pode ser um computador muito grande, mas também pode fazer-se HCP com algo mais pequeno. Afinal, nem todos os problemas de investigação precisam dos maiores supercomputadores para chegar a resultados.

CW – Existe mercado em Portugal? Está a par que se passa por cá?

AT – Não tenho conhecimento detalhado, mas posso extrapolar coisas, porque há paralelismo com Espanha.  O país acaba de passar por uma crise. Agora as coisas estão a mudar um pouco. Talvez seja o momento para investir em novas tecnologias.

CW – Já têm casos de uso em Portugal?

Ainda não. Um dos objectivos deste evento foi precisamente avaliar essa possibilidade. Todo o negócio de supercomputadores na Atos vem da Bull – tal como eu. A Bull operava em Espanha mas, agora que faz parte da Atos, que também inclui Portugal e Andorra. Verificámos que não tínhamos negócio HCP em Portugal e que era necessário fazer algo.

CW – Compensa investir em HCP?

AT – É muitas vezes difícil arranjar orçamento para comprar supercomputadores. Mas, os peritos em supercomputação dizem que vale a pena. Representa de facto um investimento elevado, mas compensa.

Alguns estudos referem que por cada euro investido em supercomputação serão gerados três euros, através, por exemplo das novas tecnologias desenvolvidas ou da aplicação dos resultados de novos estudos.

CW – É uma questão de competitividade?

AT – “To compete you must compute”, disse há pouco o professor Pedro Alberto (coordenador do Laboratório de Computação Avançada). Subscrevo. Cada vez mais, se não se computar, não se terá a capacidade de ser competitivo.

CW – Que sectores podem ser os mais beneficiados com os supercomputadores?

AT – Sectores como o automotivo, aeroespacial, químico ou na área da genómica. O genoma humano tem um potencial incrível. Mas é algo demasiado grande para ser gerido apenas com um simples computador.

Ao olhar para o genoma, é possível prever se alguém tem maiores probabilidades de ter uma determinada doença. Pode desenhar-se fragmentos específicos para essas anomalias genéticas, a chamada medicina personalizada.

Sabe-se que para determinadas mutações genéticas há muitas fármacos que não fazem absolutamente nada. Os sistemas de saúde de determinados países podem ter poupanças enormes, ao saber que, em determinado caso, é um desperdício dar aquele medicamento, porque não irá ter efeito algum. Em simultâneo poderá apontar outro medicamento alternativo.

CW – Quais são os desafios na implantação de soluções na Administração Pública?

AT – Desafios. São tantos! Por exemplo, o supercomputador, no fundo, é uma ferramenta. Muitas vezes o comprador de um supercomputador é uma entidade pública – um centro de investigação, um hospital, um laboratório. Estas entidades recebem financiamento para investir, mas não para outros custos. Então, compram um supercomputador, mas mais tarde são precisos serviços. No entanto, o orçamento era para investimentos, não para custos. O que acontece é que há falhas devido à forma como o sector público funciona.

Um caso típico é alguém que compra um supercomputador com três anos de garantia e manutenção. No quarto ano, é necessário dinheiro para renovar o contrato de manutenção. Mas, não há dinheiro para isso. Porque o investimento já foi feito. E é necessário preciso pedir mais dinheiro se se quiser renovar a manutenção.

No entanto, muitas vezes, os planos públicos são a três ou quatro anos. No fundo são dirigidos por políticos que olham para o curto prazo. Dão dinheiro para dois ou três anos e depois “logo se vê”. Às vezes acontece que não há dinheiro para renovar a manutenção, o que é uma pena. É como ter um bom automóvel não ter dinheiro para arranjar uma roda que se estragou.

É triste ver um supercomputador sem funcionar, porque não há dinheiro para manutenção.

CW – Como se contorna esse obstáculo?

AT – Se quiser “computar para competir” tem de haver planos a longo prazo, a 10, 15, 20 anos. Obviamente, os planos serão necessariamente corrigidos, porque a tecnologia vai mudando, mas planos a dois ou três anos não são suficiente. O que é que acontece depois? Vem outro governo, outras prioridades. Decidem investir em turismo em vez de supercomputadores. Depois somos obrigados a parar a meio do plano.

CW – Qual é o seu comentário às tendências para os próximos dois três anos, apontados pelos analistas?

AT – Sempre que dou uma entrevista falam-me de previsões… E eu respondo “sou um técnico, não um bruxo da tecnologia com uma bola de cristal que vai adivinhar que tecnologias vão afectar quem, quando e até que ponto”.

CW – Mas quer planos a 10 e 20 anos…

Não se fixe no número de anos. Podem ser oito podem ser 20 anos. Não sei.

Basicamente há tendências que poderemos ver concretizar-se. Será que a computação virá a ser como a electricidade ou como o gás? Um serviço. Quererá um serviço, contratará um serviço e pagará um serviço? Irá acabar assim? Não sei. Há muita coisa envolvida.

CW – Como por exemplo?

AT – Uma delas é a segurança. Usar tudo como “As a Service” poderá ser bom se não houver qualquer problema com a segurança dos dados. Por exemplo, há muitas empresas do sector automóvel que estão a desenhar carros e que não se sentem confortáveis em ter o seu novo carro na cloud.

Há companhias que exigem que os computadores da cloud estejam na Europa e não na Bahamas ou em qualquer lugar com uma legislação diferente. Acredito que haverá sempre algum movimento para “everything as a service”, mas haverá sempre alguém que irá quererá ter as coisas em casa.

CW – E quanto aos custos associados à computação de alto desempenho? Apresentou dados que revelam gastos muito elevados de energia.

AT – Antes tivemos uma moda chamada “Green Computing”. Mas agora já não é apenas uma moda, é uma realidade. Gastar um milhão de euros em energia por ano, não é uma questão de ser “verde”. É algo que dói.

Se se pode poupar no arrefecimento, talvez seja uma boa ideia investir na mudança da tecnologia de arrefecimento para poupar. Como é o caso da tecnologia “Direct Liquid Cooling”. No final é-se “verde”, mas em simultâneo poupa-se dinheiro. E o dinheiro é o que cativa as pessoas, não ser verde apenas porque está na moda.

CW – Os consórcios de universidades e laboratórios a nível europeu são uma oportunidade para a Atos?

AT – Sim. Por um lado, somos fornecedores de supercomputadores e ficamos felizes por vender supercomputadores. Por outro lado, também fazemos investigação em tecnologia de computação e estamos a colaborar com muitas centros de investigação em projectos de investigação no âmbito não só de projectos europeus Horizonte 2020 como de investigação com muitos outros centros.

CW – Porque é a Atos a participar nesses consórcios europeus?

AT – Infelizmente, somos a única empresa europeia sobrevivente nesta área. A Europa não é como os EUA ou o Japão onde se investe muito mais em supercomputadores. Nós, os europeus, não protegemos suficientemente a nossa investigação.

CW – Porque faz essa afirmação?

AT – Nos EUA, normalmente as agências governamentais como o departamento de defesa ou de energia – os típicos compradores de supercomputadores – optam preferencialmente por tecnologia americana. Os chineses desenvolveram a sua própria tecnologia. E os europeus? Compramos tecnologia americana, tecnologia chinesa.

Não protegemos o que é nosso e depois sofremos porque não temos mesmo nível de desenvolvimento. Julgo que é necessário investir, de algum modo, em nós próprios (europeus).

Quando compramos tecnologia americana ou asiática estamos a criar empregos noutros locais, como em Sillicon Valley. Porque não compramos automóveis europeus? Quando compramos europeu estamos a criar empregos aqui.12


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