Orientação a projectos – um imperativo de gestão

Atingir um nível de excelência na gestão de projectos em Portugal exige, sobretudo no sector público, uma estratégia de incentivo à adopção das metodologias, assinala Pedro Engracia, diretor dos serviços partilhados de PMO na eSPap.

Pedro Engrácia, director de serviços partilhados de PMO na eSPap

No início de 2017, o presidente Obama promulgou a Lei Federal S1550 – Program Management Improvement Accountability Act, viabilizando assim a criação de estruturas organizacionais transversais de gestão e acompanhamento de projetos, em toda a administração federal. Entretanto, a Association for Project Management foi distinguida pela Coroa Inglesa com a Royal Charter, garantindo o reconhecimento da gestão de projetos como competência basilar, e abrindo portas para a profissionalização da carreira de Gestor de Projeto – uma antiga aspiração da comunidade.

Estes desenvolvimentos confirmam a importância da Gestão de Projetos como pilar do desenvolvimento sustentável das economias, alicerçada na necessidade de fazer mais e melhor, com recursos cada vez mais escassos e em ambientes crescentemente instáveis e até disruptivos. Ainda assim, em Portugal, o panorama é substancialmente distinto, com muitos desafios a ultrapassar.

Cumpre, neste particular, registar o trabalho realizado pela APOGEP e pelo PMI Portugal Chapter, em prol do reconhecimento da Gestão de Projetos e de apoio dos seus profissionais. Adicionalmente, e à semelhança de algumas empresas privadas, que durante a última década criaram estruturas de PMO visando a melhoria das práticas internas de gestão de projeto, também o setor público está a adotar a orientação a projetos como um imperativo de gestão.

No entanto, para se atingir um nível de excelência, é fundamental que se estabeleça, em particular para o setor público, uma estratégia de incentivo à adoção das metodologias de gestão de projeto nas diferentes áreas da economia, que promova a:
 Standardização das metodologias – tornando mandatórias as normas ISO já transpostas para o
normativo nacional e envolvendo no processo a Modernização Administrativa, as Universidades,
as principais entidades promotoras de projetos públicos e o IPQ/CT175, que já reúne, em
representação institucional ou própria, quase 100 peritos na matéria. Esta normalização potenciará ganhos de produtividade assinaláveis, através da disseminação transversal pelo setor público de metodologias comprovadas.

Adicionalmente, garantirá que, quando um gestor de projeto transita entre entidades públicas tenha uma curva de
aprendizagem/adaptação bastante mais pronunciada e entregando valor muito mais cedo. Esta standardização metodológica, ambiciosa e aparentemente inexequível, aproxima-se, na sua conceptualização, dos modelos operacionais usados pelas corporações de bombeiros que, mesmo fora sua cadeia de comando habitual, continuam, por via da uniformização de procedimentos, a manter a capacidade operacional.

 Educação, Formação e Certificação em Gestão de Projetos – criando um programa de educação/formação em gestão de projetos que abranja os diferentes níveis de especialização que já existem em outras profissões e estimulando a certificação de um número crescente de colaboradores do setor público. O processo de certificação é, por natureza, indutor de uma cultura de excelência alicerçada na responsabilidade e na exigência, valores estes que são fundamentos do serviço público.

Criação de um Centro de Excelência – Garantindo que o know-how crítico é gerado, mantido e difundido de forma sistemática e transversal. A criação de um Centro de Excelência em Gestão de Projetos, que funcione como unidade criadora e difusora de conhecimento no seio do Setor Público, e que potencie a troca permanente desse expertise é imprescindível.

Mas teremos nós, como país, condições para conduzir esta revolução silenciosa na forma de gerir? Acredito que sim! As nossas universidades posicionam-se nos rankings internacionais, entre as melhores do mundo. Os nossos profissionais são convidados a gerir megaprojetos e a partilhar as suas experiências em fóruns internacionais. O Estado e as empresas estão cada vez mais receptivos à ideia de repensar o seu modelo de gestão tendo em vista atingir níveis superiores de eficiência, transparência e responsabilização.

Faltar-nos- á potenciar estes ativos, colocar em marcha o plano de ação e, no médio/longo prazo colher os benefícios de passarmos a ser um país de primeira linha também no que se refere à adoção transversal da gestão de projetos.

*Pedro Engrácia é presidente da comissão técnica de normalização em gestão de projectos, do Instituto Português da Qualidade 

 




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