Era bom que o Watson mostrasse como reduzir a desigualdade

O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, manifestou o desejo, depois de um debate no Watson Portugal Summit, sobre inteligência artificial, terminar em optimismo sobre o impacto da mesma no emprego.

Manuel Heitor, ministro da Ciência Tecnologia e Ensino Superior

O impacto dos sistemas de Inteligência Artificial (IA) na criação e manutenção de emprego na economia portuguesa foi visto com relativo optimismo pelos vários participantes de um debate durante o Watson Summit, organizado pela IBM. Mas no encerramento da breve “cimeira”, o ministro da Ciência Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor lançou em ironia discreta, uma outra perspectiva.

Seria bom que o Watson conseguisse mostrar como pode conseguir reduzir as desigualdades de distribuição de riqueza com o crescimento económico, sintetizou. Para o governante “é a questão mais crítica”.

Mas provavelmente, os políticos não iam gostar de saber a resposta. Segundo a sua perspectiva o assunto enquadra-se na evolução tecnológica dos últimos 30 anos e no seu resultado: uma concentração desigual de riqueza. Mas também envolve o futuro e o aumento previsto no PIB mundial, que deverá aumentar 140 triliões de dólares, para 200 triliões até 2050.

A gestão inteligente nas empresa será um pilar importante para essa evolução assim como a capacidade de adaptação dos trabalhadores a mudanças rápidas nos ambientes de trabalho e na convivência com a inovação tecnológica, reconheceu.

Esse esforço é colocado do lado do trabalhador mas também das empresas, às quais se exige abertura para uma formação contínua de empregados. O principal objectivo será evitar a “erosão” da inteligência artificial mas muitas tarefas vão tornar-se obsoletas, admitiu no debate, António Raposo de Lima, presidente da IBM Portugal.

“Estamos preparados ou não para o processo de transformar o talento?”, questionou António Raposo de Lima (IBM Portugal) .

“Um terço da actividade da actividade de advocacia envolve tarefas de pesquisa sobre jurisprudência, por exemplo, e o Watson lê um milhão de documentos por segundo”, ilustrou. A transformação dos recursos humanos e das actividades é a solução mais directa, segundo o responsável. “Estamos preparados ou não para o processo de transformar o talento?”, desafiou.

Não destoou dos outros participantes. O presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), Paulo Ferrão, pareceu responder que sim de várias formas.

Considera que o principal contributo que Portugal pode dar é precisamente na formação de recursos humanos na área da analítica, e associadas, capazes de criar emprego, produtos e serviços inovadores. Além de atrair actividade de valor acrescentado.

“Estamos na linha da frente da analítica”, defende. A investigação no país, considera, é cada vez mais interdisciplinar e permite fugir a especializações estanques. “Temos investido em apostas mais colaborativas mais inclusivas e multi-institucionais”, explicou.

A ameaça sobre dos advogados é semelhante àquela que preocupa radiologistas, mas Isabel Vaz, CEO da Luz Saúde, considera que as tecnologias de análise de imagem permitem aos profissionais focarem-se mais facilmente e rapidamente no essencial. As capacidades são mais evidentes na anatomia patológica e no impacto em produtividade.

Face ao grau de eficácia dos medicamentos, próximo dos 50%, Isabel Vaz (Luz Saúde), lembra que cresce a aceitação e importância da medicina “personalizada e narrativa”, feita à medida de cada paciente e para a qual a analítica tem contributo importante.

A transformação profissional estará em novas funções de treino de sistemas, na introdução de informação para aperfeiçoamento de algoritmos, lembrou. Mas a analítica terá papel fundamental também, nos esforços de prevenção, de detecção atempada de estados de potencial ocorrência de incidentes de saúde.

“Não vai haver dinheiro para suportar os tratamentos e é preciso optar pela prevenção. No limite não haverá capacidade para tratar toda a gente”, vincou.

E face ao grau de eficácia dos medicamentos, próximo dos 50%, Isabel Vaz lembra que cresce a aceitação e importância da medicina “personalizada e narrativa”, feita à medida de cada paciente. Ora a analítica tem contributo essencial ao servir para produzir a informação de suporte àquelas, recorda.

Quanto à preservação da privacidade, a CEO acredita nos efeito  do novo regulamento geral europeu de protecção e dados.

De resto, os recursos humanos serão continuarão a ser o elemento que melhor saberá colocar colocar as questões mais pertinentes e contextualizadas, defende. O chefe de cozinha, Kiko Martins, corroborou a ideia e relativamente à sua actividade.

Acto de tomada de decisão na empresa é crucial, na SIBS,  “e não é só tecnologia”,  ressalvou a CEO da empresa, Madalena Tomé

Acredita que os cozinheiros manterão a maior “capacidade de análise” e criatividade, face à padronização do gosto e da possibilidade de a inteligência artificial poder criar os melhores pratos baseada em critérios objectivos, sobre a conjugação de ingredientes e temperos.

Contudo reconhece que muitos cozinheiros podem ser substituídos. Para ilustrar, disse confiar mais numa máquina para definir um ponto de cozedura de um cozinhado, do que na sua capacidade.

Madalena Tomé, CEO da SIBS, também destacou o papel da tecnologia na garantia dos factores críticos de negócio da empresa: segurança e eficiência. Nas suas operações a rede do grupo tem de analisar 150 a 300 transacções por segundo e tem 10 milissegundos para validar cada uma, referiu.

Mas procurou vincar que o acto de tomada de decisão na empresa é crucial. “E não é só tecnologia”.


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