Portugal precisa de mais competências digitais

Em Portugal a formação em engenharia e tecnologias de informação é de qualidade. A aposta deve passar agora também pela quantidade.

CCIP debate indústria 4-0

CCIP debate indústria 4.o

O Fórum Permanente para as Competências Digitais alerta para as necessidades de formação de profissionais de tecnologias de informação a curto, médio e longo prazo.

Pedro Guedes Oliveira, coordenador do Fórum, considera que Portugal está a “formar qualitativamente bem, mas quantitativamente ainda está aquém das necessidades”, referindo que há falta de cursos médios e superiores, para os quais há uma enorme oferta de emprego.

Segundo o especialista, “diz-se que temos 6000 postos de trabalho não preenchidos nas tecnologias digitais, mas eu acredito que o número seja muito maior”. Extrapolando do detalhe para o global, deu o exemplo de uma empresa que conhece “que precisa de 600 profissionais nos próximos dois anos”. E é apenas uma entre muitas.

O responsável falava durante um debate promovido no âmbito de uma conferência organizada pela Confederação de Comércio e Indústria Portuguesa (CCIP) junto dos seus associados.

Do lado das vantagens do país, o coordenador defende que Portugal está bem posicionado num conjunto de pontos de vista fundamentais: “temos redes 4G em praticamente todo o país, as escolas estão todas ligadas – talvez não à velocidade que gostaríamos, mas estão ligadas”.

Acrescenta que “temos boas infra-estruturas, bons serviços, como é o caso da banca ou da administração publica, que são casos de sucesso reconhecidos internacionalmente. Temos também um ambiente de inovação e empreendedorismo jovem absolutamente exemplar”, referiu aproveitando para “elogiar a qualidade dos recursos humanos, como é o caso dos engenheiros, em Portugal”

No entanto, nem tudo é positivo. Existem alguns inibidores, como é o caso do analfabetismo (cerca de 5% da população, embora com tendência para baixar), e também o facto de cerca de metade da população não utilizar regularmente tecnologias, o que realça a importância da aposta no desenvolvimento das competências digitais dos portugueses.

Pedro Guedes oliveira defende a introdução do ensino de tecnologias de informação desde o primeiro ciclo, a par da música ou da educação física. O objectivo não é criar programadores, mas sim induzir o interesse pelas tecnologias de informação para as preparar para a vida.

O responsável defende a introdução do ensino de tecnologias de informação desde o primeiro ciclo, a par da música ou da educação física. O objectivo não é criar programadores, mas sim induzir o interesse pelas tecnologias de informação para as preparar para a vida. Há um longo caminho a fazer a curto, médio e longo prazo. Citou alguns programas concretos em execução. Para já está a dar-se inicio ao programa Competências Digitais inCode 2030, que deverá ter impacto nos próximos 13 anos, até 2030.

Este é um dos caminhos para promover as competências digitais, mas  oferta é mais abrangente. A título de exemplo, o coordenador explicou que o Fórum está a lançar um programa envolvendo a Associação Nacional de Municípios e as autarquias para colocar junto de cada centro, unidades que possam apoiar quem precisa de usar as tecnologias de informação no dia-a-dia.

Outro programa destacado por Pedro Guedes Oliveira foi o “Escolhas” que reúne imensos voluntários a trabalhar junto de idosos e o programa Qualifica e Qualifica em TI, que envolve o Instituto de Formação Profissional.

Mas as iniciativas passam também pelo sector privado. É o caso do Programa Switch, lançado pela Porto Tech Hub, que inclui empresas como a Critical Software, a Blip e a Farfecth.

Pedro Guedes Oliveira, explicou que aquela associação está a promover um programa que vai arrancar em Setembro que visa a requalificação de pessoas com cursos superiores e formação tecnológica, mas com menor empregabilidade (engenharia civil, biologia, matemática). O curso para a reconversão para tecnologias digitais tem a duração nove meses e foi desenvolvido em conjunto com o Instituto Politécnico do Porto. Esta instituição foi seleccionada através do Fórum Permanente para as Competências Digitais. No final das formações, as empresas associadas garantem a todos os recém-formados um estágio remunerado de um ano.

Mudança cultural assente em tecnologia

No mesmo debate, dirigentes da Brisa e do Santander Totta explicaram o que de melhor têm feito nas suas empresas para acompanhar a transformação digital. No Santander Totta a mudança é inclusivamente promovida como “transformação cultural”, abrangendo os 6000 colaboradores da instituição, dispersos por todo o continente e ilhas.

Rute Medo, directora de Engagement & Innovation do Banco, explicou que a empresa está a passar por um processo de transformação digital e cultural. A nível da digitalização e da mudança cultural foi criada uma escola interna, em parceria com a Universidade Nova de Lisboa, para dotar todos os colaboradores de competências digitais.

Para aproximar os trabalhadores do espírito da empresa, existe também uma ligação com os recursos humanos através de uma app, onde estes podem aceder aos seus benefícios, e a vídeos de formação.

“O banco tem apostado num processo contínuo de formação e mobilidade, canalizando as pessoas para novas funções. tem procurado novas formas de trabalhar e de avaliar, que não ponham as pessoas de parte”, Rute Medo (Santander Totta).

Rute Medo explica que o banco tem apostado num processo contínuo de formação e mobilidade, canalizando as pessoas para novas funções. O banco tem equipas a trabalhar em metodologias Agile e de avaliação de desempenho para “encontrar novas formas de trabalhar e de avaliar, que não ponham as pessoas de parte”.

O objectivo do Santander Totta é promover a transformação digital e cultural dos colaboradores, ganhar na eficácia e na eficiência. O objectivo é tanto dar mais qualidade de serviço aos colaboradores como aos aos clientes.

Brisa de olhos nos canais digitais

A inovação é uma constante na Brisa. Há 25 anos, com a Via Verde, “criámos os primeiros “connected cars” a nível mundial, disse Joaquim Falcão de Lima, director de marketing da Brisa. “O primeiro ‘connected car’ nasceu em São Domingos de Rana”.

De então para cá a empresa tem vindo constantemente a reposicionar-se estrategicamente. “Já estamos no ‘mobile first’, mas temos uma visão de ‘mobile only’”, explicou.  O responsável de marketing refere que “assistimos a diferentes níveis de disrupção das necessidades dos consumidores da mobilidade, a começar pela mudança do paradigma.

A lógica da posse dos bens está a ser substituído pela partilha. “Hoje, os jovens já não têm necessidade imediata de tirar a carta de condução aos 18 anos”, existem por exemplo redes de carros partilhados, alicerçadas no desenvolvimento da tecnologia.

“Já estamos no mobile first, mas temos uma visão de mobile only”, Joaquim Falcão Lima (Brisa)

Para acompanhar o desenvolvimento e as mudanças tecnológicas, Joaquim Falcão de Lima, assinala que “as parcerias com PME são um imperativo de desenvolvimento de negócio”. “As parcerias hoje fazem parte do modelo de desenvolvimento estratégico de qualquer grande empresa, até porque tudo o que está a acontecer é de tal forma acelerado e disruptivo, que as grandes empresas têm alguma inércia na adaptação.

É através dos modelos de parcerias com PME, startups, que é possível trazer know-how para dentro das empresas e andar mais depressa. Entretanto a Brisa já tem resultados palpáveis a apresentar. A transformação digital na Brisa visa a redução de custos, incluindo a desmaterialização de processos.

Nos últimos anos, a empresa já reduziu 70% os custos relacionados com a facturação. As vendas online aumentaram de 2% para 30% num reduzido espaço de tempo. No passado, apenas 2% da prestação de auto-serviço, hoje o auto-serviço em plataformas digitais ultrapassa os 10%.

Hoje, o identificador de Via Verde pode chegar em 48 horas ao cliente através das plataformas digitais. São números muito expressivos que comprovam que o digital é aposta “win win”, “porque gera mais eficiência para as empresas, mais aproximação das empresas aos clientes, aumenta a interacção, tem maior exposição das marcas aos clientes”. 

Sector privado vai dar continuidade às políticas de Indústria 4.0 em Portugal

João Vasconcelos, secretário de Estado da Indústria

João Vasconcelos, secretário de Estado da Indústria

João Vasconcelos, secretário de Estado da Indústria, destacou durante a conferência da CCIP, casos em que Indústria 4.0 tem vindo a ser aplicada com sucesso. O governante destacou algumas das 60 medidas de apoio ao tecido empresarial promovidas pelo Governo, incluindo cinco medidas âncoras.

Vasconcelos apontou a importância da criação de um conselho estratégico, composto por empresas como a Bosch ou a Google, que acompanha a implementação das 60 medidas, cuja monitorização da estratégia foi entregue à COTEC Portugal – Associação Empresarial para a Inovação. “Pela primeira vez há uma política pública monitorizada e fiscalizada por uma entidade privada”.

O objectivo é também dar continuidade da estratégia de transformação digital nacional que deve seguir por vários ciclos políticos. “A entrega aos privados dá-nos mais confiança para que tenha continuidade”, defende o governante.

Para além do acompanhamento, o objectivo é também a actualização regular e atempada da estratégia, acompanhando a evolução da tecnologia, a uma velocidade impossível para a Administração Pública.

Referindo-se a casos de sucesso nacionais que tem visitado, Vasconcelos apontou o exemplo da  Vitacress que tira partido das tecnologias para recolher, embalar e distribuir framboesas em 24 horas. “É possível neste processo identificar facilmente algum problema na recolha e distribuição. É então enviado um alerta que permite actuar de imediato”, exemplificou. Outros casos citados foram a Frulact, a Sovena ou Delta.

Sobre o turismo, Vasconcelos lamenta que, apesar do sucesso do sector como um todo, “40% das unidades turísticas (especialmente do sector da restauração) ainda não estejam online”. O secretário de Estado sublinha que está a perder-se uma oportunidade, as empresas não tiram partido sequer da presença online, enquanto outras empresas estão a tirar partido e a ganhar muito dinheiro com estas unidades.

Entre outras medidas do Governo, e perante várias dezenas de empresários, destacou o vale de 7500 euros, destinado a PME que nunca tiveram qualquer presença digital, incluindo a primeira presença online, a compra do primeiro software de gestão industrial, ou do primeiro CRM. Acresce ainda um “programa de competências digitais, incluindo cursos técnicos”, para incrementar as competências em Indústria 4.0 transversalmente.

João Vasconcelos assinalou ainda alguns projectos âncora no âmbito da Indústria 4.0 o exemplo de um projecto da APPICAPS que visa interligar as pequenas manufacturas de calçado em contacto directo com as lojas, para dar ao cliente liberdade de escolha. Assinalou um projecto de 50 milhões de euros com a Bosch, que promove a impressão 3D, e a criação de uma aceleradora (Centro Tecnológico de Prototipagem da Indústria 4.0) no CEiiA, em Matosinhos, que conta com o apoio da Daimler, da Siemens, da Autoeuropa, de várias universidades, de startups e de centros tecnológicos.

Como exemplo de resiliência, o secretário de Estado apontou o caso da  Peugeot Citroen (PSA) em Mangualde, que recebeu um aviso do CEO da multinacional: “ou inovam ou fecham”, assinalando que o fabricante de automóveis tem outras fábricas mais competitivas em Espanha e em Marrocos. Para fazer face a este desafio, a PSA em Mangualde fez um consórcio com empresas, muitas portuguesas, para desenvolver um plano de investimento de robótica, de sistematização, de controlo, para poder produzir séries pequenas e customizadas para poder manter-se com sucesso.




Deixe um comentário

O seu email não será publicado