Portugal ainda “namora” com a IoT

Há muita experimentação e entusiasmo, confirma Bruno Horta Soares. Mas ainda falta “visão”, acrescenta o consultor da IDC.

bruno-horta-soares_idcPara a utilização benéfica de redes de IoT, as empresas portuguesas ainda precisam de perceber que a transformação digital só faz sentido se entendida como “transformação pelo digital” e não “transformação do digital”, considera Bruno Horta Soares. O consultor da IDC nota, mesmo assim, que em Portugal já é possível encontrar alguns projectos mas centrados numa dimensão interna das organizações: a procura de eficiência com maior conectividade dos activos.

São poucos os casos de aproveitamento para melhorar a experiência dos consumidores, parceiros ou desenvolver novos produtos e serviços.

Computerworld ‒ Que desafios já são notórios nas empresas portuguesas quanto à implantação de projectos de IoT?

Bruno Horta Soares ‒ Os principais desafios de transformação digital que as organizações em geral procuram endereçar com a IoT estão relacionados com a resposta a um ecossistema cada vez mais hiper-conectado (Everything, Everywhere); a disrupção resultante das alterações relacionadas com a segurança, privacidade e regulação; a cada vez maior valorização da informação como activo digital e o novo desafio de materialização relacionado com a necessidade de transformar os processos industriais e comerciais.

Em Portugal começamos a encontrar alguns projetos de IoT sobretudo relacionados com a dimensão interna de procura de maior eficiência através do reforço da conectividade dos activos (sobretudo em processos industriais), existindo ainda poucos casos com escala de aproveitamento da IoT para reforço da experiência dos consumidores ou parceiros ou mesmo na identificação de novos produtos e serviços.

CW ‒ Quais são as tendências de adopção mais evidentes?

BHS ‒ A IDC lançou recentemente o FutureScape: Worldwide Internet of Things 2017 Predictions onde destaca quarto principais temas. O conflito “Low-Power Wide-Area Network” (LPWAN) é uma delas. Apesar do “hype” criado com os benefícios do LPWAN, como LoRA e Sigfox, a impossibilidade de licenciamento e a falta de qualidade de serviço (QoS, sigla em inglês) leva a que as empresas estejam sobretudo a avançar com aplicações não-críticas.

Outra é a emergência da “Open DataPalatform”. Em 2018 a “Open Data Palatform” irá emergir na discussão das plataformas de suporte à IoT criando alguma confusão em organizações que já investiram em soluções de plataformas (IoT). Além disso, há a convergência da IoT com a analítica. Em 2019 os projectos relacionados com IoT irão levar a uma convergência da “streaming analytics” com aprendizagem automática ou “machine learning” suportado em “data lakes”, “marts” e “content stores”;

Por fim em 2019 pelo menos 40% dos dados criados com a IoT irão ser armazenados, processados, analisados e utilizados perto ou no extremo ou “edge” das redes.

Estas tendências globais fazem-nos acreditar que a maturidade do tema IoT já se encontra numabruno-horta-soares_iii_idc fase de avançada e em determinadas indústrias já se verificam valores de investimento muito significativos, sobretudo relacionados com quatro principais use cases: veículos conectados; telemática nos seguros; personalização da saúde e bem estar; e edifícios inteligentes.

CW ‒ Que mudanças nota face a 2015 nos projectos em curso agora, e durante 2016?

BHS ‒ O número de dispositivos conectados é o principal elemento associado ao avanço de soluções de IoT e nos últimos anos assistimos a uma explosão de conectividade. A IDC estima que em 2025 existirão 80 mil milhões de dispositivos conectados (actualmente existem 13 mil milhões). O que significa que neste preciso momento estão a ser conectados aproximadamente 5000 dispositivos e em 10 anos o número poderá chegar a 152 mil dispositivos conectados por minuto, gerando um volume de dados digitais de 180 zetabytes.

Estes números são impressionantes mas importa entender que a situação de dispositivos conectados pode ser diferente da de dispositivos ligados. A conectividade é “ligação com propósito” e por isso deve ser entendida como um novo paradigma de troca de dados, pois é nos dados que está a verdadeira matéria-prima da economia digital.

CW ‒ Quais são os principais factores de criação de um modelo de utilização, com benefícios no mais curto espaço de tempo? Em regra quanto demora a obter-se o ROI de uma solução de IoT?

BHS ‒ Falar de ROI e IoT na mesma frase só [é possível] se se tiver modelo de negócio pelo meio. O IoT deve ser entendido como um acelerador de inovação para suportar a transformação digital das organizações.

Ou seja, o que é esperado das organizações é que criem novos modelos de negócio, transformem a forma como se relacionam com os seus clientes e parceiros e que sejam cada vez mais eficientes. O ROI deverá ser medido quanto à criação de valor, não da solução de IoT.

Adicionalmente, as organizações deverão cada vez mais avaliar o retorno tendo em consideração o valor criado no ecossistema de parceiros e não apenas o retorno interno, promovendo cada vez mais uma visão de valorização de “sistemas de sistemas”.

CW ‒ Quais são as arquitecturas de segurança mais frequentemente usadas?bruno-horta-soares_iv_idc

BHS ‒ Um dos principais “game changers” das organizações no domínio da segurança está precisamente relacionado com a incrível “desperimetrização” que os dispositivos conectados vieram trazer. A segurança anteriormente encarada como a protecção do perímetro da organização é agora cada vez mais “containerizada” [no sentido de encapsulada] à escala dos dispositivos, motivo pelo qual temas como a segurança, privacidade e regulação irão estar directamente associados ao sucesso das soluções de IoT.

Estima-se que em 2019 mais de 75% dos produtores de soluções melhorem as suas soluções para que seja garantida uma melhor gestão e controlo “by design” e assim possam ser encarados como verdadeiros parceiros da transformação digital dos seus clientes.

CW ‒ Em Portugal, quais têm sido os principais benefícios obtidos, nos projecto de uma solução de IoT?

BHS ‒ A minha sensação é que em Portugal estamos ainda numa fase de namoro com o IoT onde existe muito entusiasmo, muitas promessas, muita experimentação mas onde ainda falta muitas vezes a visão para se assumir que a transformação digital só faz sentido se for entendida como “transformação pelo digital” e não “transformação do digital”, onde as soluções digitais e os aceleradores de inovação podem e devem representar oportunidades únicas para verdadeiras (r)evoluções nas pessoas, organizações e sociedade como um todo.

A partilha de recursos será outro dos principais factores críticos de sucesso pelo que é necessário que urgentemente as organizações portuguesas, públicas e privadas, encarem as plataformas digitais como as novas infra-estruturas do séc. XXI, para que se possa discutir o investimento em “auto-estradas digitais” com o mesmo sentido de desenvolvimento e progresso com que no passado se discutiram os investimentos em infra-estruturas físicas.


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