Startups têm de pensar logo na diversidade de género

As mulheres darão um contributo interessante sobretudo quando for importante fazer a diferença, defende Telle Whitney, CEO do Institute Anita Borg Institute for Women and Technology.

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Telle Whitney, CEO do Anita Borg Institute

Os recursos humanos femininos estão ávidos em fazer a diferença, sugere Telle Witney. Nas situações e em projectos nos quais isso for importante, darão um contributo interessante, considerou a CEO do Anita Borg Institute for Women and Technology, em entrevista para o Computerworld, durante a Web Summit.

Formada em ciência da computação, hoje com 60 anos, há muito que trabalha para a afirmação da mulher no sector das TIC, antes mesmo de dirigir a organização focada em promover uma maior presença de recursos humanos qualificados no sector das TIC.

Actualmente, nota um predomínio relevante de investigadoras na área da interacção homem-computador. Confirma também o potencial feminino em projectos que envolvem problemas éticos.

Mas o seu mote é: “as mulheres podem ser excelentes em tudo”.

Computerworld ‒ Haver quotas para percentagens de mulheres nas forças laborais das empresas, só resulta se houver compromisso para as cumprir? Ou têm utilidade, na mesma?

Telly Whitney ‒ As percentagens alvo são úteis, porque tendo um objectivo descobre-se como chegar a até ele. Mas é preciso suporte da administração.

Conheço empresas que tinham objectivos, mas não tinham ideia de como os atingir, por não terem um plano.

CW ‒ E no caso das startups? É mais fácil quando se tem um mandato logo desde o início.

TW ‒ Sim, as organizações constituídas logo a pensar na diversidade abrem maiores possibilidades de se desenvolverem sobre isso. Muitas arrancam e quando já têm 500 trabalhadores, quase só homens, é que decidem re-equilibrar. Começam com um défice e é mais difícil.

CW ‒ Como se muda isso mais rapidamente?

TW ‒ Primeiro interessa ouvir os empregados. Há anos a IBM estabeleceu uma série de mudanças a fazer na sua cultura e depois desenvolveu um conjunto de redes, grupos que definiram os seus objectivos, incorporados depois no negócio.

Falar com os empregados permite perceber quais as verdadeiras questões.

Um segundo factor será estabelecer objectivos. Perceber o que se quer fazer e quais são os valores da empresa e as características da cultura.

CW ‒ Considerou nas sua intervenção que as mulheres enfrentam riscos para telley-whitney_ceo-do-anita-borg-institute_iii_1crescerem profissionalmente numa empresa de TIC. Quais são?

TW ‒ Não há um conjunto generalizado. Culturalmente as mulheres têm dificuldade em avançar para o que realmente pretendem. Se os homens têm 50% das características ou competências solicitadas, avançam.

Enquanto as mulheres mesmo tendo 75% do que se pede, hesitam ou desistem. Eu aconselho-as a arriscarem mais. E os riscos percebidos são diversos: assumir um cargo, ser transparente com o patrão ou chefe sobre os objectivos de carreira ou pedir um aumento de salário.

CW ‒ E isso tem tido muito influência em situações posteriores envolvendo outra mulheres?

TW ‒ Sim, se houver mais mulheres na organização pode-se formar modelos a seguir. Eu assumi o risco de formar-me em TI, de ir trabalhar para uma startup, em que só tínhamos salários para seis meses.

CW ‒ Mas há novos ?

TW ‒ Os que surgiram são tanto para homens e mulheres. Mas é fundamental pensar bem no que se vai pedir, antes de o fazer.

CW ‒ Em que área das TI as mulheres poderão dar um contributo particular?

TW ‒ Podem ser excelentes em tudo. Mas por exemplo a Facebook decidiu ter mais “devellopers” mulheres porque mais de metade dos utilizadores da rede social são do sexo feminino.

É importante para eles que as suas equipas sejam representativas da base de clientes. Mas há a área de “Human-Computer Interaction (HCI)”, na qual mais de metade dos investigadores presentes nas conferências são mulheres.

Actualmente os temas mais quentes são a inteligência artificial e a ciência dos dados, e ter mais mulheres nesses campos teria um impacto profundo, por muitas razões. Uma será fundamental: há muitas questões éticas envolvidas na inteligência artificial. Noutras profissões, como nas de medicina, conforme as mulheres começaram a entrar, passou a haver mais pensamento sobre a ética.

CW ‒ Há a ideia confirmada por algumas mulheres, de que muitas não têm apetência ou lhes falta algumas competências para o networking. Concorda? Como podem melhorar?

TW ‒ Venho de um mundo em que muito do que as mulheres fazem é networking e não vejo isso. Mas se olharmos para as empresas de TIC mais antigas há normalmente redes “de velhos rapazes”, que se conhecem e entre-ajudam.

É muito muito frequente as mulheres serem excluídas. Algum do trabalho de mudança é estabelecer uma rede que aumente a dos “rapazes”. Mas em geral acho que as mulheres são melhores no networking.

CW ‒ Num estudo, a CompTIA chegou à conclusão de que o papel dos pais na adesão das raparigas à área de TIC é muito importante, tal como o contacto com recursos humanos do sector. E uma das barreiras é a falta de conhecimento sobre telley-whitney_ceo-do-anita-borg-instituteoportunidades de emprego e carreira.
Que importância atribui a estes factores?

TW ‒ Devo concordar com a avaliação. Olhando para muitas pessoas, e a sua infância, aquilo que consideram como factor dominante para escolherem uma profissão vem do lar. O apoio do pais é um aspecto fundamental na tomada de decisões.

Nos EUA muitos pais e professores não se consideram muito conhecedores de TIC como disciplina e por isso tendem a dizer às crianças para não escolherem profissões dessa área. Mas na Índia, entre 40 a 50% de estudantes de ciência da computação são mulheres. A sociedade considera isso normal. E uma forma de suplantar barreiras é sem dúvida expor as crianças a um vasto conjunto de modelos a seguir.

CW ‒ Que papel importante podem os homens ter na mudança para a diversidade?

TW ‒ Serem mentores e darem suporte pode fazer muita diferença para as mulheres. Em muitas situações fazer questão de ouvir as mulheres presentes, quando estas por alguma razão são relativamente excluídas de uma discussão, dá uma grande ajuda.

Outra coisa é olhar para a organização em que trabalham e tentarem perceber como podem fazer a diferença: nas práticas de contratação, por exemplo.

CW ‒ O que é que os homens gostam mais no trabalho com as mulheres?

TW ‒ Qualquer equipa é melhor com homens e mulheres. Qualquer solução para um problema será melhor tendo o contributo da diversidade.

CW ‒ Em que é que as jovens devem focar-se se querem ir para TIC?

TW ‒ É importante que percebam o que é que são as TIC e o que envolvem. Muitas das soluções para os grandes problemas da nossa vida incluirá as TIC. Devem perceber como vão ajudar e como criá-las.

Mulheres querem fazer a diferença e onde isso for importante, darão um contributo interessante.




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