“A IBM não é concorrência, antes pelo contrário”

A conferência Dell World ainda não tinha começado, quando Michael Dell, CEO da empresa organizadora, deu uma entrevista sobre o futuro da multinacional.

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Michael Dell, CEO da Dell Technologies

“Estamos a consolidar as equipas de maneira a minimizar a perda de clientes”, reconhece Michael Dell, CEO da Dell Techologies, em entrevista para o Computerworld (EUA).

A Dell e EMC estão a fazer a maior fusão alguma vez acordada entre organizações de TIC, um conjunto de empresas capaz de fornecer desde computadores até infra-estruturas de software com receitas anuais previstas na ordem dos 7,5 mil milhões de dólares.

E o executivo explicou em entrevista a sua visão para o grupo, antes da conferência Dell World, a decorrer até esta quinta-feira.

CW ‒ Houve uma enorme quantidade de informação por parte dos meios económicos e financeiros a propósito da fusão com a EMC. Que sentido faz esta fusão para os clientes?

Michael Dell ‒ Se fizermos uma pausa para pensar em como está a evoluir o mundo da infra-estrutura, veremos que estão a acontecer grandes evoluções nas infraestruturas definidas por software, a convergência, assim como a hiperconvergência. A unificação do melhor dos segmentos de servidores, armazenamento, virtualização e software na cloud, está a permitir simplificar a vida dos nossos clientes.

O crescimento da cloud pública e o interesse que desperta devem-se, em grande parte à função de transportar a carga de trabalho até ao patamar da aplicação. Isso transforma a infra-estrutura numa construção mais simples e funcional.

É também a razão pela qual as infra-estruturas convergentes e hiperconvergentes estão a crescer inclusive mais rapidamente do que a cloud pública, contando com os mesmos benefícios num ambiente físico e híbrido. Ao juntar Dell, EMC e VMware e Pivotal criamos uma empresa única em termos de escala e capacidade de resposta às necessidades dos clientes tendo em conta a TI existente e a TI que vai existir amanhã.

A nossa empresa é líder em servidores, armazenamentos, virtualização, PC, transformação digital, centro de dados definidos por software, mobilidade e segurança. Os clientes confrontam-se com dois desafios. Por um lado, precisam de abraçar a transformação digital.

E por outro têm necessidade de modernizar a infra-estrutura, algo que acaba por pagar a transformação digital, uma vez que não é costume colocar no orçamento um item extra destinado à transformação digital.

CW ‒ Uma das questões mais frequentes que surge quando se trata de empresas deste tamanho é: como vai ser minimizado o impacto da fusão nos clientes? A Dell está preocupada com a perda de parceiros de vendas? De que maneira encara este tipo de problemas?

MD ‒ As relações que mantemos com os clientes são alguns dos aspectos mais importantes do novo projecto para salvaguardar o sucesso. Quando observamos os 5000 principais clientes da EMC e os 5000 principais clientes da Dell vimos que entre ambas havia apenas 1000 em comum. Há muito pouca sobreposição, ou seja, há muitas oportunidades de vendas cruzadas, é mais simples evitar a perda de clientes e manter os laços, seja com os profissionais de vendas da Dell e EMC e com os nossos sócios. Estamos a reunir as equipas de maneira a minimizar a perda de clientes. O que ouvimos uma e outra vez por parte dos clientes é que estão entusiasmados por trabalhar numa empresa líder que é número um em tudo, e um “tudo em um”.

CW ‒ O que vão ser capazes de fazer as duas empresas unificadas que não tenham feito já de maneira autónoma?

MD ‒ Se voltarmos a 2001, a Dell e a EMC anunciaram à época uma aliança, e foi nessa altura que tudo começou, curiosamente, com a denominação Dell EMC. A aliança teve muito êxito e cresceu rapidamente com receitas de 2000 milhões de dólares por ano.

Se repararmos na VCE e no que foi feito pela EMC, Cisco e VMware constatamos que também teve muito êxito pelas mesmas razões. Os clientes já não desejam tratar das integrações. Quando reunimos o melhor da indústria em soluções integradas de engenharia podemos ajudar os nossos clientes a dar resposta com maior rapidez aos desafios.

Consolidamos o âmbito da computação e servidores, e somos agora o número um do mercado de servidores a nível mundial. No segmento do PC ganhamos quota de mercado durante os mais recentes 15 trimestres.

Michael Dell_dell-emc-employees-100658936-large970.idgeCW ‒ Que estratégia antevê para a área dos serviços. Como é que a Dell vai diferenciar-se face à oferta da IBM ou da HPE?

MD ‒ O nosso negócio de serviços é de aproximadamente 12 mil milhões de dólares, com 32 mil empregados em todo o mundo, a funcionar em 180 países, 1800 centros de serviços e suportando infra-estruturas de missão crítica. Também temos um conjunto de serviços profissionais para ajudar os clientes a transformar a sua infraestrutura à volta dos temas de que já falamos, convergência, hiperconvergência, transformação digital, etc.

Trabalhamos em proximidade com os integradores líderes de sistemas.
como a ATOS, Capgemini, Accenture, Infosys ou CGI. Estamos centrados na infraestrutura e transformação da infraestrutura à volta dos negócios digitais. Outro dos aspectos determinantes é a segurança. O facto de tudo estar ligado faz aumentar as vulnerabilidades.

A superfície de ataque está a crescer de maneira exponencial. Através do nosso catálogo de segurança da RSA, SecureWorks, NSX e [VMware] AirWatch acabamos por ter um conjunto abrangente de capacidades para ajudar os clientes a prepararem-se para os desafios dos ciberataques.

CW ‒ O que se deve extrair da Dell World?

MD ‒ Em primeiro lugar que é já Dell EMC World. As pessoas vão assistir às inovações combinadas da Dell, EMC, VMware e Pivotal.

Demoramos algum tempo a planificar tudo e estamos a introduzir uma quantidade significativa de novos produtos que juntam inovações combinadas da família da Dell Technologies. Como é costume, os encontros são grandes oportunidades para destacar os êxitos de clientes através da utilização da nossa tecnologia.

Haverá muito debate, obviamente, a propósito da transformação digital e da infra-estrutura de modernização, convergência, hiperconvergência, segurança, a enorme quantidade de dados que os clientes estão a tratar na actualidade e como podem modernizar os ambientes de TI e, de facto, os seus negócios para aproveitar esses mesmos dados.

CW ‒ O que acha ser mais importante, e deseja que os clientes percebam, sobre a nova empresa?

MD ‒ Que é a número um, é tudo. E estamos abertos para fazer negócio. Na verdade, a combinação Dell, EMC, VMware começou há 15 anos com uma aliança e estamos agora numa nova fase. Nesta edição da “Dell EMC World” esperamos ver muitos clientes. Também estamos a realizar encontros em cidades de todo o mundo. Só nos EUA existem 20 ou 30 pelo país. Assim como na Europa e na Ásia.

CW ‒ Num ambiente como o actual, em que as empresas mobilizam volumes de trabalho para a cloud pública vemos como os grandes fornecedores, falo da Amazon, Microsoft, Google, IBM e inclusive, a Oracle, continuam a reforçar a sua aposta nas referidas plataformas. Como vai oferecer a Dell a sua infraestrutura enquanto serviço?

MD ‒ Temos a cloud pública Virtustream, que não deverá posicionar-se como nuvem pública para todos os volumes de trabalho. A Virtustream está concentrada em ambientes de missão crítica para grandes organizações, como aplicações de “tier 1”, do tipo SAP.

Suportamos os nossos clientes com ambiente multi-cloud, ao interligar todos os factores, e isso não pouco. É grande parte do trabalho realizado pela VMware e Dell EMC, na criação e disponibilização de clouds híbridas.

A curto prazo, vai ser possível ver informação da WMware e AWS sobre um projecto no qual estão a trabalhar conjuntamente para que o ambiente de VMware seja capaz de abranger clouds públicas adicionais, além da AWS.

CW ‒ O objectivo parece ser o de disponibilizar a melhor solução de cloud pública em vez de encetar concorrência com, por exemplo, a Azure da Microsoft. Poderíamos dizer que a solução é utilizar a vossa própria plataforma como disponibilização de serviço?

MD ‒ Sim. Vou exemplificar. Alguém diz: “contamos com uma estratégia de prioridade à cloud, que consiste em mobilizar para a cloud pública”. Ok, eu percebo. Mas também acredito que depois, com o tempo, percebam que essa opção não é muito competitiva. A razão pela qual afirmo isto é, em primeiro lugar, porque não é fácil levar a totalidade dos volumes de de trabalho até à nuvem pública.

O outro aspecto é a inexistência de magia na cloud pública. Ela pode ser extremamente útil para certos tipos de volumes de trabalho, mas não é solução para tudo.

No entanto, nas empresas com um perfil relativamente previsível em relação ao seu volume de trabalho, é correcto utilizar as mesmas ferramentas que as da cloud pública. Por outras palavras, se estão a ser mobilizadas volumes de trabalho a nível da aplicação e estão a ser usadas infra-estruturas convergentes e hiperconvergentes modernas, é certo que vão encontrar enormes benefícios em migrar para cloud publica.

Não há uma resposta única para todas as empresas. É só olhar e ver que existem diferentes modelos em toda a indústria, dado ser preciso ter em conta todo tipo de requisitos, como os da segurança.

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Michael Dell e Meg Whitman, CEO da HPE

Não assistimos a uma debandada geral para a cloud pública, embora ela conte, cada vez mais, com maior adopção.

CW ‒ Não há muito, tivemos a oportunidade de entrevistar a Meg Whitman, CEO de Hewlett Packard Enterprise (HPE), a propósito da sua perspectiva em relação à separação da empresa em duas. O comentário literal de Whitman foi: “A Dell EMC adoptou uma estratégia completamente diferente da nossa, que decidimos ser mais pequenos. Optamos por ficar centrados em novas tecnologias”. O que o leva a pensar que a sua é a opção é mais acertada?

MD ‒ Falemos antes dos equipamentos “all-Flash”, porque é uma área interessante em que o mercado está a crescer muito rapidamente. Temos 40% de quota de mercado nesse segmento. Somos maiores do que o segundo maior fabricante (que não é a HPE, tenho que o dizer), que o número três e quatro combinados.

E estamos a crescer mais rapidamente do que cada um destes de maneira autónoma. O que a HPE está a dizer é que não vai regredir no seu caminho para o êxito. Não acredito que seja, na verdade, algo real mas, como é óbvio, percebo o que estão a dizer.

Se repararmos na maneira como se estão a tornar mais pequenos, vemos que no mais recente trimestre o seu negócio de servidores decresceu 6% (as receitas por servidores desceram 4%), o negócio de armazenamento foi reduzido para 8% e o seu negócio de redes regrediu 22%. Acho que isso representa a totalidade do negócios, por isso não percebo a redução de tamanho para centrar-se em novas soluções.

As receitas de operações decresceram 17% nos últimos 12 meses e ela está a gastar muito menos do que nós em investigação e desenvolvimento. Isto acaba por evidenciar-se nas em inovação, nós gastámos 12,7 mil milhões de dólares nos três últimos anos, e estamos a gastar à volta de 4,5 mil milhões de dólares por ano.

Mais uma vez, ultrapassando o dobro do gasto de HPE. Tudo isto antes do desinvestimento de software, que será ainda maior. Meg Whitman tem razão quanto a tentar perceber como vai ser a resposta dos clientes a tudo isto.

Também tiveram perdas, acho, de 12 mil milhões de dólares, ou ainda mais, em investimento. Em relação à nossa estrutura financeira, de facto, creio que é uma grande vantagem ser uma empresa de capitais privados e não estar em dívida com os prazos de 90 dias e os ciclos dos mercados financeiros.

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Ginni Rometty, CEO da IBM

Podemos adoptar uma perspectiva de longo prazo sobre o futuro do nosso negócio, e pensar a três, cinco ou dez anos. Mas só para contextualizar, se fizermos o somatório dos fluxos de caixa da Dell, EMC, VMware e a totalidade da nossa família Dell Technologies, durante o último trimestre, veremos que as entradas e saídas de caixa da empresa, no conjunto, alcançam os 3,6 mil milhões de dólares. Números que creio respondem à sua questão.

CW ‒ A IBM decidiu-se por uma perspectiva também diferente, ao afastar-se dos activos de hardware para reposicionar o negócio na cloud. Como comenta esta perspectiva tendo em conta a de Dell Techonologies e porque acha estar em melhor posição para dar resposta aos clientes nas suas incursões para a cloud?

MD ‒ Mais do que concorrência, a IBM é um parceiro. Tem uma forte aliança com a VMware, através das suas ofertas na cloud. Foi possível ver Robert LeBlanc LeBlanc na VMworld explicar como utilizam o centro de dados definido por software da VMware, no interior da sua cloud. Com tudo o que os clientes estão a fazer, será necessário um grande número de parceiros para dar resposta às suas necessidades, pelo que a IBM não é concorrência, antes pelo contrário.




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