RH de TIC precisam de ser valorizados

Formação, retenção de recursos, contratação e nearshoring dominaram o primeiro debate “Estado da Nação das TI” no 26º congresso da APDC.

nacaoPela primeira vez a APDC incluiu no programa do seu congresso anual um debate “Estado da Nação das TI” e o mais relevante da iniciativa, dividida em duas partes,  girou em torno dos recursos humanos.

José Carlos Gonçalves, director-geral da CGI, fez a declaração mais “transformadora” e quando afirmou ser necessário valorizar mais o trabalho e o talento nas TIC. Será uma forma de reforçar a economia e a competitividade do país, por via do tecido empresarial, no seu entender.

“Não se pode investir em talento para depois ele sair do país ou colocá-lo a trabalhar para o estrangeiro”, alertou. Há um forte risco, explicou, de as empresas portuguesas com carências de recursos humanos em TIC, sofrerem por falta de competências.

“Assim, a sua transformação digital não vai acontecer”, avisou. Pouco antes, aludindo ao efeito de contágio dos trabalhadores de nearshoring na economia portuguesa, João Couto director-geral da Microsoft, assinalava que os do centro de competências do fabricante, em Portugal são 30% mais baratos do que as estruturas da multinacional na Europa. “Na relação custo/qualidade”, ressalvou.

O responsável defende que a o grau de lealdade e produtividade dos recursos humanos portugueses merecem uma aposta mais consistente do país, para o segmento se tornar um forte interveniente pelos menos no âmbito europeu. “Basta dar um pouco mais de escala ou massa crítica” recomendou.

Para José Gonçalves, presidente da Accenture, um dos maiores desafios na empresas é conseguir “criar magia na vida” quotidiana das pessoas, actuando numa nova fase evolutiva dos negócios que é “a economia da experiência”.

De acordo com executivo, a Microsoft Portugal está a negociar a expansão do seu centro para uma estrutura de 500 ou mesmo mil postos de trabalho. O objectivo enquadra-se num cenário de exiguidade, haverá de falta de cinco engenheiros de TI em Portugal, mas o problema não é só de quantidade vincou António Lagartixo, administrador  da Deloitte Consulting.

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João Couto (Microsoft)

Importa a qualidade e o “preço adequado”. Por isso, a empresa vê-se obrigada a contratar fora de Portugal, apostar em programas de requalificação e investir na retenção, neste caso, proporcionando as melhores condições de trabalho que consegue. Ir buscar um novo trabalhador custa 20% a 30% do salário anual do activo, justificou.

“Temos tido sucesso relativo”, confessa Lagartixo. Envolver mais cedo, ainda na universidade, potenciais empregados é outras das soluções.

Quanto ao estado actual da transformação das empresas portuguesas José Carlos Gonçalves considerou que as organizações com “o desafio de deslumbrar o cliente”, financeiras, de utilities e telcos, serão aquelas com maior propensão para investir. Para o responsável o que a etapa actual da evolução das empresas traz de novo, é o poder dos clientes e a sua pressão para serem servidos da forma que escolhem.

José Gonçalves presidente da Accenture explicou que se trata de “criar magia na vida” quotidiana das pessoas, actuando numa nova fase evolutiva dos negócios que é “a economia da experiência”. Contudo, há três desafios emergentes para as organizações. Vão ter de inovar mais e terão mais dificuldade em obter talento, pelo que estabelecer parcerias com startups pode ser uma ajuda estratégica. E os fornecedores também o deverão fazer, tal como a Accenture já fez, sublinhou.

Luís Paulo Salvado, presidente da Novabase, especialmente crítico, considerou que nem a banca nem os seguros se adaptaram bem ao negócio digital

Mais tarde, Luís Paulo Salvado, presidente da Novabase, especialmente crítico, considerou que nem a banca nem os seguros se adaptaram bem ao negócio digital, centrando depois o seu discurso sobre as virtudes e atrasos da administração pública portuguesa.

O investimento actual em projectos de TIC não está no primeiro grupo, segundo o responsável. Apesar dos “heróis” existentes no sector público pugnarem pelo contrário e da posição do eGovernment português sobretudo na escala europeia, ressalvou.

A facturação actual da empresa proveniente do sector público, revelou, está 6% abaixo do que era. Além de uma reforma profunda da administração profunda que está por fazer, o gestor culpa o ambiente de “a caça ao gestor público”: leva a que este último esteja mais preocupado com assuntos de conformidade do que em inovar.

A concluir deixou um aviso: “se não se fizer nada [sobre todos os sectores] a transformação digital vai provocar muito desemprego”, apesar da libertação face à necessidade de realizar trabalho de pouco valor acrescentado. Também Pedro Queiroz, director-geral da Ericsson, se manifestou desiludido com a administração pública e com a capacidade de inovação do tecido empresarial português em geral.

Para Pedro Queiroz (Ericsson) já chega de fazer referências ao carácter inovador da Via Verde e da rede Multibanco e “é altura de inovar outra vez”.

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Pedro Queiroz (Ericsson)

Considerou que já chega de fazer referências ao carácter inovador da Via Verde e da rede Multibanco. “É altura de inovar outra vez”, desafiou. A modernização da administração pública está aquém das suas expectativas e até o facto de 95% das declarações de IRS se terem feito online não o convence. “Isso já passou o seu tempo”, insistiu.

Nessa linha desafiou os gestores a pensarem na “revolução silenciosa do terabit”, da qual é sinal o facto de as pessoas usarem cada vez mais as comunicações móveis de nova geração. Uma nova etapa sustentada em maior largura de banda móvel deverá trazer oportunidades na Saúde, Educação e protecção civil (IoT) que não são desprezíveis, considerou.

Face à críticas à administração pública, Nuno Santos, CEO GFI Portugal, sentiu que devia defender várias medidas tomadas pelos dirigentes quanto a estratégia educativa e projectos de disponibilização de Wi-Fi, por exemplo, que considerou meritórias. Executar é difícil, lembrou.

E quanto às dúvidas de Queiroz sobre se Portugal é um país de “early adopters”, Sofia Tenreiro, da Cisco, retorquiu que é de facto. Simplesmente, “têm reticências” em investir, afirmou sem ironia.

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Sofia Tenreiro (Cisco)

António Raposo Lima, presidente da IBM Portugal, acabou por reconhecer a resistência das empresas portuguesas para investir mais em TIC, sobretudo as PME. Mas mesmo assim afirmou que não é muito difícil convencê-las de que têm de inovar, ou apostar no suporte a decisões mais fundamentadas, sob pena de desaparecerem de um mercado que é mundial e traz concorrência feroz.

Importa olhar para a realidade e ver o que se pode fazer, seguindo bons exemplos internacionais, defende. “O digital é o motor mas o destino é o cognitivo”, disse numa alusão às tecnologias de analítica do fabricante.

Segundo Fernando Braz, director executivo do SAS, as empresas portuguesas estão “menos tímidas” no investimento em tecnologias em analítica e IoT, mas querem obter mais valor dos projectos.

Mas Carlos Leite, director-geral da HPE, explicou como a evolução das empresas e a transformação está a obrigar os fornecedores de TIC a mudar a sua oferta e as condições em que a disponibilizam. Em vez de comprar os clientes querem ter a flexibilidade de usar conforme as suas necessidade evoluem, confirma.

E por isso os fabricantes apostam cada vez mais em modelos de fornecimento como um serviço. “80% das empresas portuguesas têm pelo menos 10% dos seus volumes de trabalho em cloud computing (dados da IDC)”, fundamentou.

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Fernando Braz (SAS)

Mesmo assim José Correia, director-geral da HP Portugal, fez notar que desde 2014 o mercado de TIC em Portugal tornou-se mais difícil, caindo a dois dígitos nos últimos três trimestres. Com pouca margem de manobra, um dos grandes desafios nas empresas será suportar a entrada de novos recursos humanos com exigências que terão satisfazer sob pena de não conseguirem reter talento.

Sustentar a necessidade mobilidade das forças de trabalho será outros dos desafios: dois terços de recursos humanos na Europa vão precisar de trabalhar em mais do que um sítio, frequentemente.

À medida que o mercado de TIC evolui os recursos humanos parecem  ganhar importância como factores de diferenciação. Segundo Fernando Braz, director executivo do SAS, as empresas portuguesas estão “menos tímidas” no investimento em tecnologias em analítica e IoT, mas querem obter mais valor dos projectos. “E é para isso que é preciso talento”, exclamou, entrando em concordância com as declarações de José Carlos Gonçalves (CGI).




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