“Com o self-service de BI criaram-se outra vez silos”

A Gstep facturou acima dos 3,1 milhões de euros em 2015 e durante esse ano vários projectos foram de consolidação ou unificação de sistemas.

Carlos Cardoso_CEO da Gstep

Carlos Cardoso, CEO da Gstep

Cumprindo os seus objectivos de volume de negócios para 2015, a Gstep facturou 3,1 milhões de euros, embora o peso do negócio internacional (25%) tenha ficado aquém das expectativas. Carlos Cardoso, CEO da empresa, mantém a motivação e quer já duplicar essa componente no corrente ano.

As perspectivas parecem boas, especialmente em Espanha, segundo o executivo, e a empresa quer aproveitar trabalho realizado no Reino Unido e Suíça. A estratégia para o negócio em África é consolidar, concorrendo para facturar 3,5 milhões de euros durante 2016, em termos globais.

Em entrevista o responsável explica como a empresa gere as propostas a clientes tendo um portefólio com soluções baseadas em soluções da Oracle, MicroStrategy, SAS e Qlikview. Partilha também as principais tendências que nota no mercado da analítica de negócio.

Computerworld ‒ A empresa passou o objectivo de facturar 3 milhões de euros em 2015 e cresceu 50% em recursos humanos, tendo 40 a meados de 2015. Acabaram o ano com quantos trabalhadores?

Carlos Cardoso ‒ Éramos 25 no início de 2015 e acabamos com mais de 40, incluindo pessoas externas à estrutura. Recorremos o menos possível a externos, a não ser quando há grandes projectos para reforços rápidos.

CW ‒ A vossa facturação é quase toda referente a serviços?

CC ‒ Não, o licenciamento tem o peso ainda importante: entre 30 a 40%. Num projecto novo há um equilíbrio entre as duas componentes mas depois imperam os serviços, embora no início o licenciamento seja um pouco mais forte. [Com os serviços] Temos clientes que valem 1000 a 2000 euros por ano.

Registamos mais de 100 clientes activos e procuramos que sejam autónomos.

CW ‒ Prevê que aumentem a vossa equipa em 2016?

CC ‒ Sim, mas depende dos projectos. Já temos alguns bem encaminhados e devemos crescer com dez novas posições.

CW ‒ Em 2015 houve um recuo no peso da vossa facturação internacional  face a 2014, para 25% e não atingiram o objectivo dos 40%.

CC ‒ Não perdemos facturação fora e crescemos cá dentro.

CW ‒ Mas como é que a empresa cresceu tanto com um mercado afectado ainda pela crise financeira?Carlos Cardoso_Gstep_II

Crescemos bastante, ganhámos vários bons clientes. O segredo foi aproveitar a confiança existente em nós e entregar projecto. Isso leva a ter boas referências.

Houve vários projectos nos quais estivemos na lista final mas não vencemos e mais tarde quando começaram a correr menos bem, fomos chamados. Quando ganhámos um cliente novo há logo um pico de facturação.

No negócio internacional descemos um pouco, mas pelo fluxo de encomendas e negócios que já ganhámos, prevejo que vamos crescer claramente. Mesmo duplicar.

CW ‒ Quais são factores a impulsionar mais a procura no estrangeiro?

CC ‒ Temos três áreas de actuação, incluindo Business Analytics (BA),  sendo a de BI a mais tradicional. Nela há novos clientes e antigos com novas vagas, incluindo projectos de “machine to machine” e analítica.

Implantámos todo o sistema de BI de uma maiores farmacêuticas do mundo Na área de Enterprise Performance Management (EPM), fomos escolhidos para um grande projecto em Espanha e decorre o período de contestação.

É um dos nossos projectos de sempre, envolve uma entidade pública espanhola e deve durar cinco anos

CW ‒  Quantos consultores estarão envolvidos?

CC ‒ Cinco a seis, com perfis diferentes, uns ficam lá só três a quatro semanas.

CW ‒  Qual é hoje a distribuição de negócio entre EPM, BI e BA?

CC ‒ A de BA vale 5% e a de BI continua a ser o mais importante, com 70%, mas a área de EPM está com grande crescimento. Já estamos a desenvolver projectos com grandes empresas cá e lá fora também, em IoT.

CW ‒ Essa experiência adquiriram-na cá ?

CC ‒ Sim , trabalhamos com pessoas muito competentes em analítica, envolvendo seguradoras e monitorização de em rotas de veículos, projectos em empresas de muitos recursos humanos para perceber o que levava a sair da organização.

CW ‒ O mercado de Espanha é particularmente atractivo?

CC ‒ Escolhemos o mercado espanhol como um daqueles para onde queríamos ir. Temos feito um trabalho continuado, sem investimentos muitos altos, sabemos que demora um a dois anos a dar frutos.

Muitos dos nossos clientes são clientes multinacionais que estão em Portugal e Espanha. E como temos parceiros de tecnologia lá e cá procuramos aproveitar.

Estamos a procurar fazer o mesmo na Suíça, a partir de um cliente nas farmacêuticas Os nossos dez ou quinze potenciais clientes em Espanha eram multinacionais presentes em Portugal. Já nos conhecem de cá.

CW ‒ Como é que a empresa gere as propostas a clientes, com tantas ofertas de fabricantes de BI e BA, no portefólio?

CC ‒ Cada plataforma tem as vantagens e desvantagens por vezes há uma articulação complexa, difícil e alguns ficam melindrados. Mas também lhes damos muito valor pela presença forte nos mercados.

Usamos uma matriz de 170 pontos, que sistematiza as características de um sistema de BI e trabalhamos com os clientes, para que nos digam o que valorizam mais, sem mostrar a valorização de cada ponto. E partir daí ponderamos quais os sistemas mais indicados.

Damos uma lista e ele pede um protótipo com aquele que pretende. Há quem valorize mais a mobilidade, outros a analítica, outros o self-service [ou auto-serviço], segurança a integração…

CW ‒ Qual é o padrão mais frequente?Carlos Cardoso_III

CC ‒ Muda muito. No mesmo ano variam, de acordo com os momentos de mercado. Quando a redução de custos impera  a área financeira é privilegiada, por isso, e há as tendências de BI. Antes a mobilidade era diferenciadora e agora toda a gente quer.

CW ‒ O que se está a valorizar mais, neste momento?

CC  ‒ O auto-serviço é muito pedido, tirando outras coisas mais marginais. É uma segunda vaga. Antes se calhar fazia-se isso com um certo amadorismo, com dados demasiado atómicos e com graves problemas de coerência de dados entre vários departamentos e pessoas dentro dos mesmos.

Neste momento procura-se juntar as duas coisas, ter os dados mestre e o self-service. Com o self service de BI deixaram-se criar outra vez silos.

Havia conclusões diferentes até mesmo dentro do departamento.

CW ‒ Não sabia que tinha chegado a esse extremo.

CC ‒ Chegou, vários dos projectos de 2015 são de empresas com várias tecnologias implantadas, à procura de consolidar ou implantar uma camada unificadora por cima. Se a tecnologia não foi preparada para evoluir, começa a haver desconforto.

CW ‒ Que tecnologias podem ser perigosas?

CC ‒ Há vários pontos de vista sobre isso. Mas são aquelas em que o fabricante deixou de apostar. Se não tiverem uma camada unificadora onde se gerem os metadados.

Antes usavam relatórios, que eram apenas um conjunto agregado de dados. Se alguém queria mudar um indicador (KPI), tinha de ir a todos relatórios. É obrigatório terem segurança e suporte para cloud.

CW ‒ O mercado já aceita colocar dados de BI na cloud ou isso é só marketing de fabricante?

CC ‒ O sector promove isso muito mas o mercado já aceita. Não sei se é só uma fase ou uma evolução mais sólida.
Acredito que dentro de algum tempo vai estar tudo a usar cloud, mas hoje os clientes estão a testar.

Para analítica é tudo mais fácil. Como precisa de grande capacidade de processamento faz mais sentido os dados em bruto e encriptados para clouds. Temos clientes que querem testar isto porque sabem que o mercado está a evoluir para aí.

CW ‒ Há projectos de Big Data genuínos cá em Portugal?

CC ‒ O conceito de Big Data é vago. O chavão acolhe quase tudo lá dentro. Com o BI foi o mesmo.

No sentido de envolverem grande volume de dados, variedade e a grande velocidade, já existem. Mas se há clientes a colocarem todos os seus dados nesses sistemas, e a tirarem o melhor proveito disso, penso que não.

Não sei se será a melhor maneira de começar. Convém começar com projectos pequenos, a ensinar a organização a tirar proveito dos dados, das conclusões. É um passo cultural muito grande e é preciso dar sequência às conclusões.

Mas à escala mundial também não há muitos que sejam totais.Começam a surgir organizações que começam a usar capacidades de analítica, para caso concretos. Estamos com quatro ou cinco muito interessantes.

Um deles é uma organização pública portuguesa, juntamente com congéneres europeias.

Carlos Cardoso_IVCW ‒ Que sector tem estado mais empenhado em Big Data? A banca?

CC ‒ Não, embora os sectores em que líderes de mercado estão mais bem instalados são os que precisam de mais inovação. Mas há grandes empregadores a usarem para perceber porque os empregados partem. Ou para gestão de manutenção de peças.

CW ‒ Há alguma prioridade destacada para a Gstep em 2016?

CC ‒ Existe a aposta na internacionalização, temos dois grandes projectos em mãos. No conjunto valem dois milhões.

CW ‒ Encontram facilmente recursos humanos para os vossos projectos?

CC ‒ Nós damos prioridade a fazer as pessoas “crescerem” connosco, à saída da faculdade ou com pouca experiência. Nesse caso é fácil. Mas quando ganhamos projectos e é preciso reforçar a equipa rapidamente, é menos fácil. O  mercado é curto. Até agora só perdemos pessoas para clientes e para fora do país.

CW ‒ A Gstep já tem uma operação ou não no Reino Unido?

CC ‒ Nós temos um grande projecto no Reino Unido como um parceiro português, uma multinacional. Estamos a montar toda a infra-estrutura para a área de analítica do sistema de “machine to machine” da empresa.

Mas não temos escritório lá. Muitos dos nossos projectos são feitos com parceiros, portugueses ou internacionais. E não temos qualquer problema nisso.


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