Falta de RH pode gerar “problema muito sério” na AP

Tornar a AP como terreno atraente para a inovação é um dos principais desafios do sector público, conclui-se de um debate organizado pela APDC. Mas antes disso é urgente revitalizar a participação cívica.

Edwin Lau (OCDE), Jaime Quesado (ESPAP), José Caldeira (ANI) e João Ramos (Expresso)

Edwin Lau (OCDE), Jaime Quesado (ESPAP), José Caldeira (ANI) e João Ramos (Expresso)

A falta de recursos humanos (RH) pode gerar um “problema muito sério” na Administração Pública (AP), alertou esta quarta-feira o presidente da ESPAP, Jaime Quesado. O responsável comentava o tema da inovação na AP, em debate organizado pela APDC, e considerou urgente abordar o desafio de criar uma “agenda política para a renovação dos RH” no sector público.

Em geral, os vários participantes sublinharam a necessidade de torná-lo num terreno atraente para desenvolver inovação. Quesado sugeriu a promoção de uma “cultura de criatividade e excelência”, capaz de tornar o emprego público mais atractivo.

O próprio presidente da Agência Nacional da Inovação (ANI), José Carlos Caldeira, procurou fazer aquela promoção. Descreveu a AP como fonte fértil de inspiração para o desenvolvimento de trabalhos académicos sobre a resolução de problemas, com o conhecimento depois a poder ser aproveitado como oportunidade de negócio.

Sem discordar dos outros participantes, Edwin Lau, líder da divisão de reforma do sector público da OCDE, defendeu outra necessidade prévia: é preciso “tornar a envolver os jovens” no interesse pela causa ou participação cívica. Sem isso, outras iniciativas pouco adiantam, na sua opinião.

Baseando-se em exemplos reais, considerou que os governos usam as redes sociais aquém do potencial das mesmas, apenas como instrumento de informação. “Têm de usá-las como forma de ganhar envolvimento e recolha de opiniões e ideias” dos cidadãos, defende.

A AP tem de “conhecer o real valor” do que se está a desenvolver, com o sector privado, e proteger-se usando contratos, defende José Carlos Caldeira (ANI).

Além disso, o responsável da OCDE diz que é possível obter muito valor dos RH mais idosos, dispensando-os de responsabilidade e levando-os mais para funções de partilha de conhecimento. De certa forma, Lau sustentou a ideia de Quesado, quando considerou que os cortes nos quadros da AP, à escala mundial, foram feitos de maneira desequilibrada, sem a preocupação de manter as “responsabilidades e funções” necessárias, conforme os objectivos pretendidos.

A prioridade foi dada à diminuição do número de funcionários e criou uma “situação insustentável”. Lau concordou com a existência de benefícios relevantes para a AP na cooperação com o sector privado, tal como José Caldeira.

A OCDE não desenvolveu ainda muita investigação sobre “outsourcing” mas Lau nota o incremento de casos e uma abertura maior, por parte das entidades públicas, para usar o modelo em “necessidades estratégicas” muito definidas. o responsável da ANI reforçou que em Portugal as oportunidades de sinergias entre os sectores público e privado são muitas mas tem de haver certos cuidados. A AP tem de “conhecer o real valor” do que se está a desenvolver e proteger-se com contratos.

Isto exige competências “difíceis de replicar por todos os ministérios”, razão pela qual defende a manutenção e uso das mesmas num modelo de partilha de recursos (serviços partilhados), transversal à AP.

Lau defendeu uma abordagem na qual o sector privado é mais interventivo, participando até na discussão sobre os problemas. Trata-se de poder aproveitar “uma perspectiva nova sobre os mesmos”.

As iniciativas de dados abertos (“open data”) podem ser bons exemplos disso. Uma intervenção mais inicial do sector privado poderá permitir perceber quais os dados da AP mais capazes de gerar maior valor e, assim, estabelecer prioridades sobre a disponibilização dos elementos, explicou.

José Caldeira sustentou ainda que a colaboração entre entidades de investigação e desenvolvimento e empresas evoluiu de forma positiva nos últimos anos, em Portugal. Mesmo não tendo havido a “valorização do conhecimento” almejada, os números “traduzem uma derivada interessante”: o número de projectos e empresas envolvidas foi multiplicado por quatro (nos dois indicadores), e o investimento por cinco em seis anos, argumentou.

Demonstração é melhor forma de promover adopção

Tanto Quesado como Caldeira procuraram defender a utilidade de haver um momento de demonstração dos benefícios de tecnologia. Para o presidente da ANI, é a melhor forma de promover a sua adopção. E lembra que o programa Portugal 2020 prevê o financiamento daquele tipo de iniciativas.

O presidente da ESPAP destacou também a importância do desenvolvimento de projectos de inovação para envolver as pessoas e com margem para testar e falhar.

José Caldeira salientou ainda a utilidade de haver processos para os funcionários poderem colocar desafios, à escala de toda a AP, visando a resolução de problemas para os quais não têm recursos suficientes. O objectivo é aproveitar as competências e disponibilidade de outras entidades, capacitadas para ajudar ou que já tenham desenvolvido a inovação necessária.


Artigo anterior


Deixe um comentário

O seu email não será publicado