Wintrust cresce 30% e não se “contenta” com menos

A empresa tem 80% de cerca de 1,3 milhões de euros assegurados e aposta no serviços de “nearshore”, diz Filipe Nuno Carlos em entrevista.

 

Filipe Nuno Carlos, sócio-gestor da Wintrust

Filipe Nuno Carlos, sócio-gestor da Wintrust

A Wintrust avançou para o ano de 2015 com um novo contrato na banca, com o Santander, e perspectivas prometedoras depois de ter crescido 30%. É pelo menos esse grau de crescimento que o sócio-gestor da empresa, Filipe Nuno Carlos, prevê para o exercício corrente.

Também como presidente da Associação Portuguesa de Testes de Software, o responsável aposta na criação de condições para Portugal ser conhecido como fornecedor de bons serviços de testes de software.

Computerworld ‒ Quanto facturou a empresa em 2014? Cresceu 30% baseada em que factores?

Filipe Nuno Carlos ‒ Nos finais de 2012, houve uma aceleração do crescimento da empresa. Hoje temos entidades a contactarem-nos, sem ser preciso “evangelização”, porque sentem necessidade de ter produtos com qualidade superior.

A internacionalização de muitas empresas foi um factor importante: ter um software com problemas só em Portugal, é diferente [do ponto de vista do suporte], do que tê-lo instalado no estrangeiro.

Outro factor é o efeito de rede – a Wintrust é mais conhecida actualmente.

CW ‒ Mas tinham previsto facturar 1,5 milhões de euros em 2014. Confirmou-se a previsão?

FNC ‒ Ficou nos 1,3 a 1,4 milhões. As contas ainda não estão fechadas . Mas o mais importante é a nossa capacidade de resposta face à necessidades do mercado. Fizemos apostas importantes na nossa metodologia para optimizar processos, para aumentar o ritmo de crescimento sem comprometer a qualidade.

CW ‒ Quanto da vossa facturação é proveniente do estrangeiro? Prevêem aumentá-la este ano?

FNC ‒ É de cerca de 15%. A nossa estratégia de internacionalização passa por criar um conjunto de competências nos nossos centros de nearshore, em Lisboa e Porto.

Há muitas entidades com testes manuais e não conseguem aproveitar a vertente de teste automático, porque não têm tempo. Nós distinguimo-nos por uma abordagem diferente.

CW ‒ Mas como?

FNC ‒ Nesta área, podem-se usar programadores para gerir os testes, de modo a ser mais fácil ajustar o teste e acomodar alterações no software. É uma solução mal compreendida pelos gestores por custar quase o mesmo do que o desenvolvimento da aplicação. Outra abordagem é pôr ferramentas de teste a aprenderem o processo, e depois elas repetem os procedimentos. E quando detectam algo de diferente, reagem.

CW ‒ E vossa é qual?

FNC ‒ É intermédia. Está orientada a palavras-chave, é “keyword driven”. Temos uma framework à qual um gestor de testes habituado aos procedimentos manuais se adapta rapidamente, e gere o processo automático.

As palavras não são mais do que ordens ou acções que se pedem à ferramenta. A parte mais interessante: se houver alguma alteração, é muito fácil acomodá-la.

Por exemplo, se tenho um formulário com 10 campos e agora este passou a ter 11, basta-me ir ao código dos testes e acrescentar a linha a dizer o que o teste tem de fazer com esse campo.

CW ‒ Mas a abordagem automática não é capaz de aprender?

FNC ‒ Tenho de apagar tudo e repetir o teste para a ferramenta aprender que, além daqueles 10, ainda tem outro campo. Acaba por ser destrutivo. Se a aplicação muda e já se investiu numa bateria de testes, tenho de mandar esta fora.

Portanto, não tenho um activo – cada vez que a aplicação muda, tenho de desenvolver uma nova bateria. A nossa abordagem protege o activo sem envolver o investimento semelhante ao desenvolvimento.

CW ‒ A AWS começou a disponibilizar serviço de testes em cloud computing. Como está a evoluir este segmento e como se posiciona a Wintrust, nesse cenário de concorrência?

FNC ‒ É mais uma oportunidade. Há empresas que para produtos de grande consumo conseguem prestar serviços na cloud, criando uma comunidade de voluntários. São testes na cloud.

Depois há outros que são sobre a cloud: com a aplicação colocada nesse ambiente, o que permite agilizar operações de laboratório, replicar infra-estrutura e fazer testes de carga. Estamos mais orientados para o último tipo.

E não sentimos o efeito dessa concorrência. Os nossos clientes são empresariais e quando têm um novo produto, não querem revelá-lo, para protegerem as vantagens competitivas.

CW ‒ Mas empresas como a Codacy são vossas concorrentes?

FNC ‒ Já propusemos a clientes os serviços da Utester para testar uma solução. Esta funcionava muito bem em Portugal, mas para nos EUA foram necessárias alterações no plano dos protocolos de comunicação.

A Codacy tem uma solução que faz análise ao código e constitui um complemento à nossa oferta. Também fazemos análise ao código para segurança.Filipe Nuno Carlos_gestor da Wintrust_2r

CW – Essa área tem muito potencial?

FNC ‒ Tem cada vez maior potencial. O IDC Predictions 2015 revelou que a segurança perdeu prioridade, mas isso será temporário, porque se tentam agora aproveitar mais as novas oportunidades. Mas, em tudo aquilo relacionado com IaaS, as pessoas preocupam-se com a segurança.

CW ‒ Há quem diga que os testes às aplicações só são possíveis de fazer bem internamente. Concorda?

FNC ‒ Não tem de ser mas, na mobilidade, um aspecto ganha mais relevância: o “risk based testing” [testes baseados no risco]. É uma forma de reduzir problemas em produção.

E para este objectivo o investimento pode ser maior ou menor. O segredo está em saber o conteúdo da aplicação, para poder definir o investimento em segurança.

Na mobilidade isto é muito importante porque tenho de fazer os testes em dezenas de dispositivos presentes fisicamente. Além disso, importa saber em que sistema operativo é mais importante fazer o teste: aquele mais usado pelo público-alvo, por exemplo.

O facto de termos trabalhadores especializados e atentos a questões, diferencia-nos.

CW ‒ A Wintrust pretende reforçar a aposta na parceria com a HP? De que forma?

FNC ‒ Em Fevereiro, tivemos um colega em Telavive num curso ligado ao “Mobile Center” da HP. Fizemos também uma aposta muito interessante na área de media e televisão, com aspectos ligados à mobilidade.

CW ‒ Isso traz alguns desafios particulares à empresa? De formação, por exemplo?

FNC ‒ Sim e é uma oportunidade por ser uma área na qual não há muita especificação detalhada de requisitos. É explicado o que a aplicação deve fazer e eles são inferidos pelo conhecimento das pessoas sobre aquela área de negócio.

Por exemplo: no teste a um sistema de legendagem, nós temos de perceber o negócio do cliente, para saber em que países vai ser usado e perceber o que testar.

Quando a Associação Portuguesa de Testes de Software organizou um curso de Certified Mobile Application Professional, a Wintrust era a entidade que tinha mais alunos nesse curso que aborda precisamente os testes em dispositivos de mobilidade. E agora também disponibilizamos um curso focado nas aplicações móveis.

CW ‒ E aposta nessa área de negócio? Esta já é importante para a Wintrust?

FNC ‒ Ainda é residual, vale 2%. Mas isso não é o facto decisivo de aposta. Neste momento, é ter um papel activo na sociedade portuguesa.

Não é por acaso que firmámos uma parceria com a empresa inglesa na área de media e televisão, a Fairmile West. Estão a apostar em nós para termos o conhecimento que eles precisam, para a partir de Portugal fazermos testes por via remota. Isso deverá criar emprego em Portugal.

Com os projectos no estrangeiro, a escala muda, e por isso já temos dois centros, para ter capacidade de resposta. Mas é bom que Portugal seja visto como um país de bons profissionais de testes.

CW ‒ Como assim?

FNC ‒ O português é astuto, arranja sempre forma de fazer as coisas de maneira diferente do estabelecido, e isso é bom para testes. Os defeitos detectam-se quando alguém usa o software de forma diferente da maioria.

São aqueles que comprometem a segurança e integridade dos dados. Mas havendo necessidade de bons profissionais para testes, não é a Wintrust sozinha que vai construir lá fora a imagem de que Portugal é bom a fazer testes.

Por isso, apostamos na formação. Além de nós, queremos que toda a comunidade portuguesa desta área faça as coisas bem. Para se ter uma imagem de profissionalismo [generalizado] desde o estrangeiro.

CW ‒ Os serviços de testes de software têm um importante potencial para exportação?

FNC ‒ Claramente. A CIP está com uma iniciativa, na qual estamos inseridos ‒ a Forum Serviços ‒, que tenta posicionar Portugal como uma plataforma de serviços. Está com uma atenção muito especial na área de IT e nós nos testes.

CW ‒ Quanto valem os serviços de nearshore na vossa facturação?

FNC ‒ Não temos isso definido. Mas o nearshore tem o papel mais importante nas entidades com testes manuais, interessadas em garantir uma evolução para testes automáticos.

E aí subcontratam serviços para aliviar a carga do teste manual e poderem ganhar capacidade de resposta. A complexidade e as interacções são cada vez maiores e o esforço para garantir a qualidade de testes está a incrementar.

Torna-se incomportável se não houver testes automáticos.

CW ‒ Quantas pessoas têm no nearshoring?

FNC ‒ A operação ainda é reduzida porque estamos a construir a base para impulsionar o negócio internacional, apesar de já termos projectos lá fora, especialmente na Bélgica.

Para nós, é relevante ter capacidade para crescer e dar resposta à solicitações. Temos os processos montados, até no recrutamento. O nosso método faz uma des-selecção natural: as pessoas pró-activas, com potencial mal estabelecido em termos de auto-estima nem entram no processo de selecção.

CW ‒ Pretendem contratar 18 pessoas durante 2015, correcto?

FNC ‒ Quando se inicia o ano com 80% da facturação garantidos, e com as solicitações registadas, acreditamos que pelo menos vamos contratar 18. Podemos crescer muito no volume de negócios este ano e não só por força do mercado internacional, no qual se consegue ter um rendimento superior por trabalhador. Também contamos com as parcerias estabelecidas, para revenda de ferramentas HP e Oracle. Antes era muito pontual, mas hoje como a complexidade é grande, se uma empresa não tiver uma plataforma para gerir testes, não é eficiente.

CW ‒ A parceria com a SAP é só para serviços?

FNC ‒ Sim, mas estamos a desenvolver uma parceria com a Intelicorp que está a ganhar alguma dimensão e visa precisamente a área da SAP.

CW ‒ Quais são então os vossos objectivos de internacionalização para este ano? Das 18 pessoas que tencionam contratar, quantos servirão essas ambições?

FNC ‒ Há duas ou três destinadas à Europa Central, no curto prazo. É uma zona onde temos objectivos e prima pela excelência. Na Bélgica, Holanda e Reino Unido.
Depois, temos parceiros com solicitações frequentes em África: Gana, Nigéria, Quénia.

Filipe Nuno Carlos_gestor da Wintrust_3rCW ‒ São clientes portugueses que lá estão presentes?

FNC ‒ Sim, confiam nos nossos serviços e querem que sejamos o seu “braço” na qualidade de software. Cremos poder ter um incremento interessante num ou dois países africanos e um reforço na Europa Central.

CW ‒ O peso da facturação internacional poderá então evoluir para quanto?

FNC ‒ Cerca de 30%.

CW ‒ E quanto prevêem facturar em 2015?

FNC ‒ No mínimo 30%, mas se tudo correr bem pode ser bastante mais e até podemos chegar aos 100%.

CW ‒ Que sectores verticais contribuíram mais para o vosso negócio?

FNC ‒ Temos quase todos os bancos como referência. Mas em 2012 a banca teve uma contracção forte e, portanto, alguns clientes suspenderam projectos.

CW ‒ Mas em 2014 já houve recuperação nesse sector?

FNC ‒ Pelo menos na maioria. Além disso, já em 2015, conquistámos a confiança de mais um banco, o Santander,.

CW ‒ É um sector que vale quanto da vossa facturação? Chega a 50%?

FNC ‒ Não chega. Para nós, a banca nacional, em 2015, deverá representar 25%, depois as “utilities” e transportes, 25%, e os restantes 50%, serão distribuídos por outros segmentos de mercado e internacionalização.

CW ‒ Essa distribuição foi semelhante em 2014?

FNC ‒ Foi talvez mais 30 % [banca], 30% [utilities e transportes], 40%[internacional e outros sectores], porque a parte de internacionalização não foi tão elevada como se perspectiva para 2015.

CW ‒ Qual é o vosso modelo de internacionalização?

FNC ‒ Passa por ter um parceiro local, com um ADN alinhado com o nosso. Em qualquer venda de serviço, o factor confiança é determinante, e por isso precisamos de um elemento local, para o cliente sentir que estamos a apostar naquela zona.

É também uma entidade a responsabilizar, quando as coisas não correm bem. É o caso da Fairmile West com presença muito forte na Holanda.

CW ‒ Como é que a empresa convive com as metodologias de desenvolvimento Agile? Diminui-vos o negócio?

FNC ‒ A PSTQB trouxe para Portugal outro recurso inovador que também foi lançado à escala mundial no ano passado, a Agile Tester Extension, complemento de formação focado nos testes Agile.

É para quem está no grau de certificação base. Mas nós temos clientes de referência como a TAP que adoptou a metodologia e prestamos lá serviços.

CW ‒ Mas como lidam com ela? Assumem o manifesto?

FNC ‒ Sim, mas o que diz esse manifesto? Cada empresa adopta-o de maneira diferente.

CW ‒ Isso é bom ou mau?

FNC ‒ É bom, porque necessário. Quando for mau, as coisas mudam, tem a ver com processos de gestão da mudança. Cada empresa deve aproveitar a base do desenvolvimento ágil, em benefício próprio, mesmo não implantando um ou outro aspecto.

Por isso, neste momento, acaba por ter de haver uma necessidade de adaptação à realidade de cada cliente. A disciplina dos testes é mais de aprendizagem do que de conhecimento.

Nós recrutamos mais preocupados com a capacidade e vontade de os colaboradores aprenderem. Sobre cada sistema, é necessário aprender o que é suposto ele fazer.

CW ‒ A metodologia DevOps é uma moda?

FVN ‒ Não, veio para ficar. Enquanto num determinado calendário havia quatro actualizações das aplicações, por ano, hoje elas acontecem todos os meses.

Em 2020, deverá haver uma de dois em dois dias: há organizações já neste estado de maturidade. O ritmo de mudança é acelerado porque a vontade de as pessoas serem competitivas é tão grande que as aplicações têm de estar em constante ajustamento.

Como será possível fazer uma actualização de software, estar cinco dias a testar, mais dois dias a corrigir e mais dois dias para testes. Com a DevOps, quando actualizo a minha aplicação, tenho um mecanismo de teste automático e, a partir daí, há uma implantação integrada do sistema para entrar em produção. O que demora duas semanas, passa a duas horas talvez.

CW ‒ Mas isso não envolve mais risco?

FNC ‒ Depende da maturidade dos sistemas. A tecnologia vai evoluindo.

CW ‒ E já existe a maturidade suficiente?

FNC ‒ Se a minha aplicação tem muita complexidade e os testes automáticos apenas cobrem 10% dessa funcionalidade, não podemos arriscar. Mas se cobrem 90% das operações críticas, podemos adoptar a DevOps.

Um dos nossos clientes financeiros pretende, em 2020, ter um prazo de uma hora entre o pedido do utilizador e a disponibilização do produto, em produção. Ele vende produtos adaptados às necessidades do cliente, e a ideia é quando a oferta não for adequada, lançar-se o pedido e desencadear-se um processo: fazer avaliação de risco, uma inventariação, uma parametrização, usar a DevOps e colocar em produção. Isto é impossível sem testes automáticos.




Deixe um comentário

O seu email não será publicado