Cloud pública ameaça liberdade no software

O académico Stefano Zacchiroli defende a utilização de um modelo de plataformas federadas, no qual os servidores são geridos pelos utilizadores.

Stefano_Zacchiroli_por Moleculea (cc)

As plataformas de cloud pública estão a afastar cada vez mais os utilizadores da computação real que fazem, ameaçando o controlo deles sobre esse processo, alertou o académico Stefano Zacchiroli durante o evento LibrePlanet 2015. Representa, na sua opinião, um perigo para a liberdade do uso de software.

O ex-líder do projecto Debian argumenta que todos os grandes sistemas “as a service” causam problemas à liberdade do utilizador. “Todos os diferentes  modelos de serviços de cloud representam a mesma ameaça… há o mesmo padrão de evolução, colocando a computação longe das máquinas dos utilizadores, em máquinas remotas”, explica.

Isso é problemático, avisa Zacchiroli, porque tudo – desde aplicações básicas como e-mail e de produtividade até ao consumo de conteúdos, como os de televisão e jogos – é  fornecido a partir de “jardins murados”, como a Google, o Netflix ou o Steam. Em termos gerais, as pessoas estão a fazer o seu trabalho nos computadores de outras pessoas.

“A computação antes localizada em máquinas pertencentes ao utilizador está a acontecer longe delas”, diz Zacchiroli. Assim, essa falta de controlo pode colocar os utilizadores à mercê dos detentores desses “jardins”.

O FOSS  está a “ganhar uma guerra cada vez mais inútil para a liberdade de software”, diz Zacchiroli.

Ironicamente, no entanto, esse perigo associado à cloud surge num momento em que os movimentos de software livre e de código aberto desfrutam de inaudita popularidade entre muitas das empresas fornecedoras dessas plataformas. O software livre está realmente em toda parte: nos servidores de Internet, nos browsers e dispositivos móveis. Mas, segundo Zacchiroli, o software livre e open source, ou “free and open source software” (FOSS), está a “ganhar uma guerra cada vez mais inútil para a liberdade de software”.

Mas com maior federação…

O panorama não é de todo sombrio, ressalvou. Com algumas mudanças, o modelo de cloud pode ser benéfico para a liberdade de uso de software.

Usar clouds federadas e com os utilizadores a disponibilizarem os seus próprios equipamentos e a gerirem o seu próprio software ‒ seja por conta própria ou em parceria com os pares ‒ pode ser uma solução. Obter-se-iam os recursos de cloud computing, mas sem ceder o controlo final sobre a parte da computação.

“Precisamos de pessoas contra-corrente a trabalharem em soluções federadas, em vez de soluções centralizadas”, defende Zacchiroli. Para ele, projectos como o FreedomBox ‒ software livre concebido para fornecer uma maneira fácil e segura de as pessoas gerirem os seus próprios servidores de e-mail, comunicações e redes sociais ‒ deviam ser a norma e não projectos de nicho, restritos a entusiastas do software livre.




Deixe um comentário

O seu email não será publicado