É precisa “uma verdadeira política” para “smart cities”

Adesão de municípios tem de ser controlada a 60 “smart cities” por questões de eficácia, diz directora da Rede Portuguesa de Cidades Inteligentes.

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Catarina Selada, directora da unidade de cidades, na Inteli

Há várias manifestações de interesse de municípios para integrarem a Rede Portuguesa de Cidades Inteligentes (RENER), revela Catarina Selada, directora da unidade de cidades da Inteli, entidade gestora da rede. Apesar disso, a responsável não prevê que o grupo ultrapasse as 60 edilidades.

Existem razões de eficácia para o controlo de adesões e o facto de a rede constituir uma iniciativa de teste e produção de conhecimento para ser partilhada. Em entrevista, a responsável faz um balanço do trabalho na RENER e fala de novos projectos. Reconhece que as cidades inteligentes “ainda não despertaram para o tema” da análise de dados e diz faltar uma política de cidades em Portugal.

Computerworld ‒ Qual foi a evolução das “smart cities” em Portugal, desde 2013?

Catarina Selada ‒ Na rede das cidades inteligentes fizeram-se diversos avanços no sentido de operacionalizar actividades e projectos. Passámos primeiro de uma rede de mobilidade eléctrica para uma rede de cidades inteligentes e, por isso, estamos a trabalhar em muitas mais áreas – eficiência energética mas também clima e governo e inovação, cultura e criatividade.

Depois, aumentámos o número de municípios envolvidos, para os 43 que actualmente integram a rede, e já recebi mais manifestações de interesse de municípios para entrar na rede. E actualmente temos uma liderança política.

A Inteli assume a gestão técnica, como mobilizadora, facilitadora e catalisadora, mas a presidência pertence à Câmara Municipal de Viseu, com a de Almada e a de Castelo Branco a ocuparem as vice-presidências. Demos também um passo importante na concepção de projectos.

Aprovámos o plano estratégico 2015/16 e já estamos a trabalhar em projectos concretos. A rede vai funcionar através de grupos de trabalho temáticos, à semelhança da rede espanhola.

Vamos começar com o primeiro grupo de governação no sentido de os municípios trocarem experiências, boas práticas, e depois conceberem projectos para o programa Horizonte 2020. Dois dos projectos já têm abrangência ibérica por assentarem num protocolo estabelecido com a rede espanhola: um é na área do empreendedorismo urbano, “Startup for Cities”, implantado em Espanha durante 2013 com sucesso. Vamos replicá-lo à escala ibérica em 2015.

Outro é um projecto do Brasil, o RIO +, ligado à participação pública, tendo a Inteli sido eleita para ser o operador na Europa para esse projecto. Vamos aplicá-lo à rede RENER e alargar a acção para uma escala ibérica.

CW ‒ Em 2015, tendo em conta as manifestações de interesse, a rede pode aumentar para quantas cidades?

CS ‒ Para nós, isso é um problema. Espanha tem cerca de 100 cidades mas nós não devemos absorver muito mais cidades porque se torna difícil gerir a rede com eficácia.

Estamos a falar numa operação com grupos de trabalho de 40 cidades e diversos técnicos das autarquias. Será complicado trabalhar com uma rede superior a 50 ou 60.

As manifestações de interesse recebidas ainda vão ser avaliadas em comité estratégico durante 2015, mas não prevejo que haja um número muito maior de cidades a participar. Até porque a lógica inerente é muito da demonstração, de teste. E depois as outras autarquias receberão o conhecimento, a informação e as boas práticas, para poderem desenvolver os seus projectos.

CW ‒ Mas ampliando-se a rede, também não se alarga a plataforma de captação de investimento?

CS ‒ Isso pode acontecer, mas a dificuldade é aliar o alargamento geográfico à necessária capacidade de gestão. E por isso preferimos concentrar-nos num número que, pensamos, não será superior a 50 ou 60 municípios.

CW ‒ Na conferência “Cidades Inteligentes – Cidades do Futuro”, uma pessoa da audiência colocou uma questão que não foi respondida e tinha a ver com estratégias e sistemas de gestão de recolha de dados também pessoais. Mas durante o evento enfatizou-se a dimensão humana dos projectos, em detrimento da componente tecnológica.

CS ‒ No fim, o objectivo a atingir é a qualidade de vida das pessoas. Mas as tecnologias têm de funcionar como meio.

CW ‒ Mas sem a análise de dados será difícil atingir certos objectivos, e de forma granular?

CS ‒ Exactamente. Os projectos que desenvolvemos na rede, além dos mais concretos, são de “intelligence” e o que nós queremos é gerar dados e informação capazes de suportar tomadas de decisão.

E uma das questões pertinentes também é a da interoperacionalidade, o que se instala numa cidade ser compatível com aquilo adoptado nas outras, é um dos objectivos da própria rede. Nomeadamente quando se colabora com a indústria.

Em Espanha, por exemplo, o sistema de mobilidade eléctrica é diferente do nosso. Nós tivemos desde o princípio um sistema interoperacional e eles não.

Um dos trabalhos da rede é precisamente promover essa interoperacionalidade.

CW ‒ Cá, a questão coloca-se nos sistemas da informação?

CS ‒ Sim, por exemplo. E é uma das qualidades que queremos assegurar no âmbito da rede.

CW ‒ E como pretende fazer isso? Montando uma plataforma de cloud computing? Há dinheiro para isso?

CS ‒ Estamos a analisar. Não nos podemos circunscrever aos financiamentos nacionais e penso que à escala europeia poderemos aceder a fundos, nomeadamente aos do Horizonte 2020. Nesse programa há financiamento para questões ligadas às “smart cities”. Mas a concorrência será muito maior e precisaremos de capacidade de ”lobby” e de integração em consórcios, já formados de grandes ou pequenas cidades.

CW ‒ No campo da análise dos dados, o que está a ser feito? Os municípios estão a abordar esse tema como?

CS ‒ Depende muito dos municípios. Por exemplo, nós com o sistema de mobilidade inteligente montado na Maia e no CEIA, todas as edilidades da rede tinham um acesso, mediante password, a um sistema onde tinham dados em tempo real sobre a mobilidade eléctrica – incluindo dados sobre o estado dos postos de carregamento, número de clientes, quantidade de toneladas de dióxido de carbono evitadas, consumo de energia. Havia capacidade de decisão.

CW ‒ Mas todos os municípios que apostam em “smart cities” estão a investir em sistemas de BI ou Big Data?

CS ‒ Não estão todos. O Porto está a investir seriamente nessa área.

CW ‒ E Lisboa?

CS ‒ Um pouco.

CW ‒ Mas é uma área onde tem de haver maior investimento, não? A maior parte das apostas está na sensorização (ou instalação de sensores)?

CS ‒ Exacto. Se calhar as pessoas ainda não despertaram para esse tema.

CW ‒ Então qual é a estratégia para mudar a situação?

CS ‒ Nós na rede actuamos muito na sensibilização para os temas. E facilitar a apresentação de candidaturas e o desenvolvimento de projectos nesta área. Depois cabe às autarquias e parcerias locais desenvolverem os projectos de acordo com as suas necessidades.

CW ‒ Os projectos de “intelligence” que a rede está a desenvolver como estão?

CS ‒ Desenvolvemos um índice de cidades inteligentes segundo o qual analisamos cerca de cem indicadores nas cidades. Houve uma fase-piloto em 2012 e vamos repetir já este ano com os 43 municípios.

Isso permite-nos quantificar cerca de 100 indicadores, que as cidades poderão monitorizar para perceber o grau de persecução das metas municipais e num quadro europeu.

Queremos com uma análise fazer um “roadmap” de necessidades comuns, para percebermos os municípios que podem fazer parcerias e abordar determinados problemas em conjunto ou em separado.

Gostaríamos de levar alguns municípios a assinarem uma carta de compromissos, na qual manifestariam a intenção de atingirem determinados indicadores a vários níveis: na economia, área social e sustentabilidade. E vamos começar a conceber os projectos no âmbito dos grupos de trabalho. Juntamente, vamos apresentar a classificação.

CW ‒ Há uma comunhão tão grande de ideias e objectivos nos projectos de “smart cities” em Portugal, como alguns responsáveis sugerem, ou existem diferenças importantes?

CS ‒ Notam muitas diferenças, sem dúvida, mas a maioria das cidades está cada vez mais desperta. Nos últimos três anos viu-se uma diferença extraordinária. Há velocidades diversas entre municípios.

CW ‒ De velocidades ou de visão?

CS ‒ Ambas. Mas a situação melhorou muito nos últimos anos: há edilidades a darem passos concretos na área da eficiência energética, na qual outros já progrediram mais.

CW ‒ O espírito colaborativo entre cidades melhorou?

CS ‒ Pensamos que sim, apesar de ainda existir um longo caminho a percorrer. Por exemplo, a RENER iniciou a sua actividade com 25 cidades em 2009, mas actualmente integra 43 municípios.

E a Inteli tem recebido manifestações de interesse de municípios adicionais, o que demonstra a maior aptidão das cidades para colaborar. Desta forma, ganham massa crítica, escala e poder negocial.

Existem também exemplos de Redes Urbanas para a Competitividade e Inovação (RUCI) que funcionaram bem, como o Quadrilátero ou a Rede Algarve Central. Acresce a recente constituição da Associação Frente Atlântica na qual se integram as cidades do Porto, Vila Nova de Gaia e Matosinhos, que procura desenvolver estratégias e projectos conjuntos em áreas diversas, desde a mobilidade à cultura.

CW ‒ Quando estará pronto o sistema de informação sobre o mercado português de “smart cities”?

CS ‒ A Inteli tem vindo a trabalhar na geração de conhecimento acerca do mercado português das “smart cities”. Por um lado, com a agregação de informação e a construção de indicadores das empresas que operam neste mercado, tendo os resultados desse trabalho sido publicados no “Smart Cities Portugal – Roadmap”.

A título de exemplo, enquanto as empresas do tecido empresarial português investem 1,4% do seu volume de negócios em I&D, as empresas que desenvolvem soluções para cidades inteligentes investem 13%, o que demonstra o potencial deste núcleo ou “cluster” emergente.

Por outro lado, com a aplicação do Índice de Cidades Inteligentes 2020 às cidades portuguesas, que visa gerar informação e conhecimento de suporte à tomada de decisão, integrando cerca de 100 indicadores em cinco dimensões críticas: inovação, sustentabilidade, inclusão, governação e conectividade.

Durante Janeiro tem início a 2ª edição deste projecto, que aplicará a metodologia às 43 cidades da Rede RENER.

CW ‒ Quais são as perspectivas da Inteli para o programa Horizonte 2020?

CS ‒ As empresas, as instituições de investigação e os municípios portugueses não participaram activamente nos programas que antecederam o Horizonte 2020, nomeadamente no 7º Programa-quadro. Privilegiou-se o apoio concedido pelo QREN 2007-2013 em detrimento da apresentação de candidaturas directamente a Bruxelas.

A Inteli tem vindo a mobilizar as cidades, nomeadamente as que integram a RENER, para a apresentação de propostas ao Horizonte 2020, que lançou concursos específicos na área das “smart cities”. Mas estes foram direccionados para consórcios consolidados à escala europeia, havendo pouco espaço para as cidades pequenas e médias.

Por exemplo, os designados “lighthouse projects” são projectos demonstradores de soluções na intersecção entre a mobilidade, a energia e as TIC, desenvolvidos em cooperação entre duas ou três cidades líderes (e duas a três cidades seguidoras). E apenas é aprovado um pequeno número de iniciativas desta natureza.

Mas existem outros apelos à apresentação de candidaturas na área da mobilidade e transportes e da energia e clima que poderão ser uma aposta para algumas entidades portuguesas. E a taxa de aprovação dos projectos tem-se situado entre os 2 a 3%…

CW ‒ O Estado mostra-se sensível às necessidades de investimento? O preço dos equipamentos continua a ser um entrave?

CS ‒ Não se trata apenas de equipamentos. Podemos construir cidades mais inteligentes através de inovações incrementais e não só de transformações radicais assentes em elevados investimentos em tecnologia.

Existem diversos projectos de baixo custo e elevado impacto que podem ter resultados positivos na qualidade de vida dos cidadãos. Em relação ao Estado, é necessária uma maior territorialização das políticas públicas, com o reconhecimento do papel das cidades e das autoridades locais como agentes activos no processo de mudança.

No Reino Unido, a título de exemplo, o Governo lançou um programa de centros de investigação e tecnologia designados “Catapult”, um dos quais exclusivamente dedicado às cidades do futuro – “Future Cities Catapult”. Trata-se de um centro de excelência em inovação urbana, uma arena onde os municípios, as empresas e as universidades desenvolvem soluções para colmatar as necessidades futuras das cidades.

No conjunto, o investimento público e privado para os sete centros da rede “Catapult” ascende a cerca de mil milhões de euros nos próximos cinco anos. Em Portugal, precisamos de uma verdadeira política de cidades.


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