Prazo para ROI de “open data” é incerto

Não haverá muitas dúvidas sobre os efeitos benéficos da disponibilização mais livre de dados da Administração Pública na economia. Mas não é claro quando isso começa a acontecer, até porque as repercusssões são caóticas.

Georg Hittmair, da PSI Alliance

Georg Hittmair, da PSI Alliance

As previsões sobre quando um Estado obtém retorno de investimento (ROI) pela disponibilização gratuita, ou pelo menos mais livre, dos dados (“open data”) da Administração Pública (AP) não são claras, confirmaram oradores da conferência sobre a directiva europeia SharePSI 2.0, realizada em Lisboa esta semana.

Uma das principais razões para isso acontecer será o carácter “caótico” dos efeitos da referida estratégia, tal como definiu Marc de Vries durante a sua apresentação. Em declarações ao Computerworld, o co-fundador da Green Land e autor de estudos sobre os dados abertos, considera a questão do prazo de retorno como uma das mais importantes ainda por esclarecer. Como seria de esperar, há muita variabilidade.

Mas o responsável referiu um exemplo no sector autraliano do fornecimento de água, em que o retorno foi visível um a dois anos após o lançamento de uma iniciativa. Outro projecto, na área dos fundos de investimento, revelou resultados ao fim de um ou dois anos, também.

Contudo, não há um prazo claro e podem-se atingir cinco a 10 anos e não se conseguem definir prazos com maior clareza. Por exemplo, Georg Hittmair, da Association of Internet Providers Austria (ISPA) e representante da PSI Alliance, refere dois a três anos, talvez cinco anos, como estimativa.

O autor de um estudo sobre o impacto de “open data” na economia (juntamente com De Vriers) assinala, no entanto, que o efeito impulsionador da criação de emprego ocorre mais cedo. De Vriers depreende que é possível estar-se à procura do valor da disponibilização de dados a partir de uma perspectiva errada. Os efeitos dessa medida podem ser caóticos.

A PSI 2.0 sugere a disponibilização de dados ao valor mais baixo possível para garantir as maiores margens aos intermediários, pertencentes a uma cadeia na qual cada um vai enriquecendo os dados, fornecidos em bruto.

A fonte de retorno principal será, prevê-se, através dos impostos cobrados a jusante, sobre os lucros das empresas envolvidas no processo. Mas De Vries nota que ao serem introduzidos numa rede de entidades e organizações, o potencial de transacções é muito imprevisível e pouco claro.

Em muito casos, há a possibilidade de a AP reutilizar dados, já enriquecidos por intermediários, havendo uma reintrodução de elementos no sistema original.

Relutância exige modelos de negócio

Há pequenas transacções entre agentes e um grande potencial de surgirem novos modelos de parceria. Mas apesar do espírito da directiva, Hittmair assinala em declarações ao Computerworld, a relutância importante das administrações em ceder os dados.

Isso ficou patente no debate sobre a situação em Portugal: a investigadora da Direcção-Geral do Território, Maria José Vale, apontou a necessidade de se definirem modelos de negócio claros para, pelo menos, aqueles auxiliarem os organismos no esforço financeiro de recolha e consolidação de dados.

Na sua apresentação, De Vriers afirmou que pode ser necessário às AP terem infra-estruturas adequadas para fornecer os dados. Mas, depois, os custos de manutenção do serviço serão pouco importantes.

Hittmair não deixou de apontar três áreas de desafios – produtos, preços e posicionamento (distribuição) ‒ na definição dos modelos de negócio. Determinar que dados processar e disponibilizar “é um elemento crucial”.

Na maior parte dos casos, os dados mais caros ou difíceis de obter são aqueles com maior procura. Isso dificulta a decisão, por envolver a perda da receita inicial comprovada, reconhece o responsável.

Contudo, o mesmo socorre-se das ideias da referida directiva comunitária que deverá estar transposta até Julho de 2015. “Na PSI 2.0, há uma mudança de paradigma: os privados não devem ter de pedir os dados, a AP é que tem de os disponibilizar, pois há o direito de os obter”.

Além disso, avisa, têm de ser disponibilizados em tempo útil para viabilizar os modelos de negócio. Quanto ao preço, Hittmair assinalou a possibilidade prevista na directiva de as entidades alegarem excepções de vária ordem, para aumentarem os montantes pedidos pelos dados, colocando em risco as margens dos intermediários.

O plano do posicionamento ou da distribuição da oferta está dependente dos preços a que se obtêm os dados e das margens, dos elementos disponíveis – em resumo, dos modelos de negócio possíveis, explica. Apesar de Hittmair reconhecer que a abertura nas AP nem sempre é boa, em resultado de muitas pressões, deixou uma provocação às empresas: “cabe-lhes imaginar os modelos de negócio possíveis”.

No período de debate, houve quem na audiência destacasse o problema das garantias de integridade dos dados, na fase de comercialização, junto do utilizador final. Mas os responsáveis dizem que essas falhas acabarão por ser punidas pelo mercado, com o descrédito dos fornecedores.

Não obstante, ficou presente a ideia de ser necessária uma entidade reguladora da actividade dos intermediários.




Deixe um comentário

O seu email não será publicado