Financiamento de “smart cities” em mudança

Projectos estão muito focados nos sensores mas Lisboa está a promover o projecto BESOS para integrar dados provenientes de vários sistemas de recolha de informação.

José Sá Fernandes (CM Lisboa), Nuno Bilo (CM Évora), Catarina Freitas (CM Almada) Carlos Carreiras (Presidente CM Cascais)  e Maria Santos (Lisboa E-Nova)

José Sá Fernandes (CM Lisboa), Nuno Bilo (CM Évora), Catarina Freitas (CM Almada) Carlos Carreiras (Presidente CM Cascais) e Maria Santos (Lisboa E-Nova)

O vereador da Câmara Municipal de Lisboa, José Sá Fernandes, manifestou esta terça-feira a sua preocupação perante a exiguidade de recursos previstos pela União Europeia para o financiamento e concretização de projectos de “smart cities”, durante um evento promovido pela Lisboa E-Nova. Contudo, num comentário à afirmação do responsável, Catarina Freitas, da Câmara Municipal de Almada, diz que se assiste antes a uma mudança de paradigma: haverá até mais dinheiro para investir, mas estará mais direccionado para empresas – e, além disso, os fundos são emprestados.

A responsável considera que poderá haver um desfasamento entre o investimento previsto e os objectivos comunitários pretendidos, quanto a eficiência energética e gestão ambiental das cidades. Para  Sá Fernandes, os fundos estarão a ser mal geridos tendo em conta serem essas as duas áreas onde se sente, nas cidades, o maior impacto das transformações à escala mundial: tanto na evolução económica como nas mudanças climáticas. O vereador argumentou que há outros governantes de cidades europeias a pensarem o mesmo.

Da apresentação de vários projectos e exemplos ficou patente um enfoque ainda grande em projectos de recolha de dados e informação, ou seja na instalação de sistemas de sensores. Em declarações ao Computerworld, Catarina Selada, da Inteli, confirmou essa predominância mesmo na rede de 43 “smart cities” de Portugal, gerida pela organização.

Houve muito menos atenção dada aos desafios da integração e análise de dados, para obtenção de informação estratégica, a não ser o projecto Building Energy decision Suport Systems (BESOS), promovido pela CML, através da Lisboa E-Nova, e com participação da PT.

É o primeiro passo, segundo Sá Fernandes, para integrar vários sistemas de monitorização já instalados, necessidade considerada importante na evolução da estratégia de “smart city” de Lisboa para um patamar superior. Isso envolverá uma maior integração de plataformas de monitorização de resíduos, de consumos, de sistemas de rega inteligente, de georeferenciação de semáforos, equipamentos de iluminação pública, telemetria, contadores, sistemas de gestão de frota, medição de poluição atmosférica, previsão meteorológica, gestão e pagamentos de estacionamento ou gestão de tráfego, entre outros.

A Plataforma de Serviços de Energia resultará do BESOS e inclui a integração dos vários sistemas de gestão de energia a funcionar na cidade.

O sistema em perspectiva, constituído por três aplicações, tem como objectivo unificar fluxos de dados para gestão e controlo de consumo e produção energética, em infra-estruturas públicas, numa plataforma de monitorização e disponibilização de informação. Inclui a apresentação de informação em dispositivos de mobilidade para os cidadãos através de uma app, cujo objectivo é sensibilizar os utilizadores e promover a mudança de hábitos, mostrando quanta energia é usada e como.

Outra das aplicações é um Balanced Score Card que permitirá uma monitorização contínua e verificação dos níveis de serviço e contratos de manutenção. Estará integrada com o “Cockpit de Suporte à Decisão”, uma ferramenta de controlo de informação que permite estabelecer estratégias coordenadas de energia, entre empresas de serviços e municípios que gerem a sua infra-estrutura.

A base tecnológica tem a designação de Plataforma de Serviços de Energia e inclui a integração dos vários sistemas de gestão de energia a funcionar na cidade. Será produzida uma versão piloto a implantar em Lisboa integrando sistemas aplicados em vários prédios: no edifício municipal do Campo Grande, no dos Serviços Sociais, na Escola Básica dos Olivais ou na iluminação pública e residencial.

De acordo com Francisco Gonçalves, da Lisboa E-Nova, o projecto procura valorizar os sistemas de monitorização ‒ o ISA, o LMIT, o OWLET (iluminação pública), o CONERGY (produção fotovoltaica)‒ já existentes, mas implantados de forma isolada, dificultando uma visão global.

Modelo de dados é desafio complexo

Além do contributo no desenvolvimento da solução, a PT está a apoiar a Lisboa E-Nova no processo de adaptação e integração de dados, para serem usados pela plataforma central, explicou Paulo Caínho. Segundo este responsável  da empresa envolvido no BESOS, estão a ser usadas várias API, capazes de serem usadas noutros projectos.

A arquitectura da solução incluiu “gateways” onde são realizadas as operações de integração e conversão dos dados num formato comum. “Um grande desafio é arranjar um modelo comum de dados”, reconhece o responsável da empresa. Neste caso “é muito complexo” e está focado no equipamento, explicou.

O processo de funcionamento envolve o cálculo dos KPIs necessários, baseados nos acordos de serviços, constituindo os elementos nos quais se vão basear as tomadas de decisão para resolução de problemas. No projecto será usada ainda uma solução de partilha assente em normas reconhecidas (ETSI M2M), que deverá garantir a partilha dos dados de forma segura, segundo o responsável.

“Toda a informação é cifrada para efeitos de privacidade e com política de privilégios de acesso e perfis de acção”, assinala Paulo Chaínho.

O BESOS está a ser desenvolvido em colaboração com organismos municipais de Barcelona, beneficiando da experiência da cidade neste campo. O projecto é  gerido por um consórcio de organizações, incluindo empresas e instituições de investigação e desenvolvimento, liderado pelo grupo espanhol Etra.

Iniciou-se em Outubro de  2013 e o prazo de execução é de 36 meses, com um orçamento de 4,6 milhões de euros.




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