Exago factura dois milhões mas quer ser líder mundial

A “plataforma de ideias” para gestão de inovação e inteligência colectiva das organizações seduziu o PARC no caminho de expansão da empresa portuguesa, focada nos mercados dos EUA , América Latina e Europa.

Pedro da Cunha_CEO da Exago

Pedro da Cunha, CEO da Exago

O nome do software-base que o Palo Alto Research Center (PARC) está a adoptar, disponibilizado pela Exago, é “Idea Market”. Constitui o núcleo da actividade do fornecedor, liderado por Pedro da Cunha, que explica como o sistema funciona e revela as ambições da empresa fundadas na “plataforma de ideias”, como é denominada, por vezes, dentro da empresa.

Apesar de facturar perto de dois milhões de euros por ano, a empresa pretende ser líder mundial na área da gestão de processos de inovação. Nos EUA, já estabeleceu um marco com a implantação no centro de investigação californiano e actualmente 90% da sua facturação é realizada no estrangeiro.

A instituição norte-americana junta físicos, cientistas sociais, engenheiros electrónicos, entre outros profissionais de 35 países, e quer usar o software português para avaliar e seleccionar colectivamente ideias com potencial de inovação, revelou recentemente a Exago. O desafio é intensificar os processos de inovação do PARC e, com a sua plataforma, o centro tenciona interligar os colaboradores e “agregar a sua criatividade e inteligência colectiva, para eleger ideias” de forma mais eficiente.

Deverá também conseguir decidir mais facilmente as linhas estratégicas de investigação passíveis de serem “encapsuladas em novos modelos de negócio”, diz a empresa portuguesa.

Computerworld ‒ Como é feita a validação da selecção de ideias que a plataforma assinala como aquelas com maior potencial?

Pedro da Cunha ‒ Através da intervenção dos participantes, que actuam como investidores, o mercado aprova um conjunto de ideias, precisamente aquelas que a comunidade acredita ter maior potencial. Essas ideias que atingem uma certa valoração seguem para uma avaliação final mais aturada, num processo habitualmente feito pelo responsável pelo desafio ou por uma equipa para isso constituída. É nesta fase que se decide se a ideia segue para implementação.

CW ‒ De que forma é que a plataforma ajuda a perceber o potencial comercial das ideias?

PC ‒ A inteligência colectiva é chamada para estabelecer o potencial de cada uma das soluções sugeridas. A plataforma baseia-se neste princípio de que nem todos sabem tudo, mas sabem alguma coisa, e isso é valioso.

Este poder reunido é maior do que a soma das suas partes. Neste sentido, acreditamos que, globalmente, as empresas têm em si, nos seus colaboradores, as respostas para grande parte dos seus desafios de negócio.

A nossa tecnologia foca as pessoas nesses desafios, tendo em vista a obtenção de resultados tangíveis, seja a criação ou upgrade de um produto, a melhoria de um processo ou serviço, ou a definição de novos caminhos estratégicos, entre tantos outros.

CW ‒ Qual é o papel da gamificação? Como funciona?

PC ‒ Com a gamificação dotamos o processo de inovação de um conjunto de dimensões lúdicas de jogo para melhorar a sua execução. Associada a um plano de incentivos e de comunicação e contando com os nossos serviços de moderação, ela torna a participação mais divertida, mais apelativa e sobretudo mais sustentável.

De entre os vários elementos de gamificação usados, podemos destacar os pontos que os participantes conquistam na dinâmica de actuação do mercado, capital virtual que podem trocar por prémios reais: de acções de formação a viagens, vouchers, entre outros, definidos pela empresa. Estes leilões acontecem, normalmente, em fim de ciclo de desafios específicos.

As dinâmicas de jogo garantem que as pessoas continuam envolvidas e motivadas para participar, ao longo do tempo. Há ainda um reconhecimento dos colaboradores que dão mais e melhores contributos, na plataforma, com leaderboards, e fora dela.

PARC

CW ‒ O mecanismo de mercados preditivos no qual se baseia a “Idea Market” funciona de que maneira, neste caso?

PC ‒ Os mercados preditivos, como o nome indica, avaliam activos para prever eventos futuros (neste caso, quais são as melhores ideias), tal como numa bolsa de valores. Neste “mercado de ideias” cada participante dispõe de um montante inicial de pontos em carteira. Estes pontos podem ser investidos nas ideias em que mais acredita para gerar ganhos adicionais. Para acumular valor para trocar por recompensas, deve investir nas ideias que acredita ter maior potencial e não nas mais populares, ou arrisca-se a perder pontos.

Os mercados preditivos são, assim, uma forma altamente eficiente de avaliar um grande número de ideias e perspetivas. Ao mesmo tempo, o processo torna-se inclusivo. Qualquer pessoa, mesmo que não tenha uma ideia a apresentar, pode participar e trazer mais-valias ao processo, se tiver a capacidade de avaliar, de forma inteligente, as ideias de outros.

Esta dinâmica dá empowerment com responsabilidade e assegura, de forma transparente e eficaz, a seleção das ideias que a comunidade – pessoas com diferentes backgrounds profissionais, diferentes valias e pontos de vista – entende terem maior potencial.

CW ‒ Como estão a tentar melhorar ou afinar a plataforma? Quais são as prioridades da vossa estratégia tecnológica e que desafios levanta?

PC ‒ Estamos, neste momento, a fazer um upgrade das funcionalidades, não só para integrar os diferentes módulos que cobrem inteiramente o processo de gestão de inovação – desde a fase dos insights (perspetivas) até à implementação –, mas também para melhorar a usabilidade e permitir uma interface que se ajusta automaticamente aos dispositivos móveis. Estamos ainda a trabalhar num acréscimo de autonomia de configuração por parte dos clientes e no desenvolvimento de funções que facilitem a integração com outras plataformas.

CW ‒ Em que sectores a plataforma tem melhor aceitação ou está mais implantada? E qual a dimensão hoje dessa base de implantação da tecnologia?

PC ‒ A tecnologia é fácil de implementar e usar e útil a qualquer setor, porque vai libertar o potencial que já existe internamente mas pode estar mais ou menos adormecido, qualquer que seja a empresa. Por isso, temos clientes tão diversos como operadoras de telecomunicações, grande distribuição, bancos, farmacêuticas, empresas de energia, em 19 países, em quatro continentes. É usada por 500 mil utilizadores e já processou mais de 50 mil ideias, com mais de um milhão de transações nos mercados preditivos, 750 mil “posts” em fóruns de discussão.

CW ‒ Qual é o caminho mais directo para o retorno com este tipo de software?

PC ‒ Há retorno financeiro directo, através de aumento de receitas e/ou corte de custos em função do conteúdo gerado e avaliado pelo modelo – por exemplo, ideias para optimizar a logística da exportação de um produto. Mas pode tratar-se de algo mais intangível, mas igualmente relevante no processo evolutivo de uma organização, como o aumento do “engagement” dos colaboradores (e há numerosas provas de que colaboradores mais engajados são mais produtivos, assíduos, criativos); a sua satisfação profissional; e ainda o facto de ser um modelo que permite um mecanismo direto e bidirecional de comunicação entre a liderança e os colaboradores. Este modelo também ajuda a criar e a manter uma cultura de participação e inovação, em que todos se sentem escutados e parte dos processos decisórios da sua empresa.

Maior distribuição geográfica das receitas

CW ‒ Qual é o volume de negócios da Exago e quanto representa, em percentagem, o software?

PC ‒ O nosso volume de negócios ronda os dois milhões de euros. Cresceu regularmente ao longo dos anos e, sobretudo, conseguimos garantir uma maior distribuição geográfica das receitas.

Somos uma empresa altamente exportadora, numa área de elevado valor acrescentado. O software é o nosso “core”, representa grande parte das receitas da empresa, muito embora o portefólio de serviços de consultoria tenha vindo a crescer de forma sustentada e em termos de valor acrescentado.

CW ‒ Quais são as prioridades da vossa estratégia de internacionalização? Que desafios têm enfrentado?

PC ‒ Queremos acelerar o crescimento nas nossas geografias de eleição, que são a Europa, América Latina e EUA, através de promoção direta, mas também de parcerias relevantes. O nosso grande desafio passa por encontrar cada vez mais casos em que este modelo possa ser aplicado na solução de problemas concretos, em contexto empresarial ou em projectos de “open innnovation”. Estamos, assim, apostados em ser um líder mundial na prestação de soluções para desafios reais de negócio, baseados em princípios fundamentais de inovação.​




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