Software pode ser considerado um dispositivo médico?

Ainda há demasiada incerteza sobre se os sistemas de apoio à decisão dão conselhos sempre correctos, diz Adel Taweel, para quem organizações privadas têm melhor suporte a sistemas de SI.

Adel Taweel_investigador da King's Collge of London_destJPN DSCAinda está bem vivo o debate sobre se um software deve ser considerado dispositivo médico, sobretudo num quadro de suporte à decisão médica, segundo Adel Taweel, investigador do King’s College of London, que esteve recentemente em Portugal. É necessário haver mais investigação científica para certificar as recomendações dos sistemas, diz em entrevista ao Computerworld.

Taweel considera que as organizações do sector privado estão melhor vocacionadas para oferecerem os serviços de suporte e manutenção necessários aos sistemas de informação da saúde.

Computerworld ‒ Um estudo recente sobre a utilização de sistemas de eHealth na Europa revela que os médicos querem mais dinheiro para usarem as aplicações. Que percepção tem sobre isto?

Adel Taweel ‒ Isso foi o que aconteceu no Reino Unido, há cerca de sete anos. E na Europa acham que conseguem desenvolver os seus trabalho sem recurso às aplicações. Quando se instala qualquer coisa de novo dizem: se querem que faça mais isto, têm de pagar mais.

Nem todos os médicos receberam sistemas pagos pelo Estado, até na manutenção. Houve muita adopção mas nem todos aderiram.

CW ‒ Outro dos argumento é que as aplicações não são fáceis de usar.

AT ‒ Sim, alguns médicos também disseram isso. É um desafio para o sector. Dizem que não foram formados para usar TI, especialmente os mais velhos.

Mas no Reino Unido deram-lhes formação, financiada pelo Estado. A adesão era voluntária e muitos médicos tinham o equipamento mas não o usavam. O governo teve de mudar de estratégia: criou uma matriz baseada em qualidade, na qual ligava o desempenho de cada clínica aos dados da prática de cada médico, recolhidos para saber como estava a ser o seu desempenho, em certas áreas.

Associaram isso a incentivos dizendo que se tivessem bons resultados nestas áreas, era-lhes dado mais dinheiro. Mas para provar a utilização e esses resultados, exigiu a introdução de dados no sistema. A partir dessa altura a utilização cresceu mais de 20%.

CW ‒ Mesmo assim, não acha que as aplicações têm de ser mais fáceis de usar? Porque os médicos também dizem que elas os impedem de dar a devida atenção aos pacientes.

AT ‒ Concordo. Muitos gostavam de afastar o PC do processo, para poderem interagir mais facilmente com o paciente.

CW ‒ Qual é a sua opinião sobre isso? Deveriam usar tablets?

AT ‒ Há muita actividade em torno dessa ideia. Um dos nossos trabalhos mais recentes tem sido desenvolver e disponibilizar aplicações através de tablets.

Tem sido mais eficaz, porque menos obstrutivo. Porque quando nos sentamos à frente do paciente deixa-se de ter um monitor à frente.

Passa a haver maior contacto visual entre os dois, quase permanente. Quando não se está a olhar para o paciente, ele é afastado do envolvimento com a consulta. Os pacientes gostam de confidenciar aos seus médicos outros problemas sem ser os de saúde.

CW‒ E usar tablets resolve isso?

AT ‒ Na minha opinião, reduz a barreira, em termos de como se fala com o paciente. Mas tendo dito isto, tenho de acrescentar que ainda não vi integração suficiente entre os sistemas de SI de saúde e os tablets. E não tenho a certeza de quando e se isso deverá acontecer. Mas outra das queixas tem a ver com a complexidade dos sistemas.

Uma das grandes questões na captação de dados clínicos é fazê-lo na terminologia correcta, de maneira que quando transpomos a informação de um médico para outro, ela signifique a mesma coisa.

Isto é muito importante numa clínica com cinco ou seis médicos a cuidarem dos pacientes, que podem ser vistos por vários clínicos. Mas quando se introduz essa exigência no sistema, complica-se a sua utilização porque os médicos têm de ser selectivos sobre as palavras.

CW ‒ E isso remete para a ideia de que toda a informação deverá ser traduzida em conhecimento, de forma o mais directa possível?

AT ‒ Exacto. Isso elimina logo muitos pormenores. Refiro-me a um conhecimento implícito ou tácito. Cada domínio do conhecimento o tem. Quando é bem estruturado e extraído dos dados, faz a diferença.

CW ‒ Em Portugal, existe uma questão muito actual sobre se o Estado deve desenvolver as suas próprias soluções através de uma entidade pública, ou adquirir ao mercado. A questão ganha ainda outros contornos porque essa entidade define como devem ser as soluções e depois concorre com as empresas na produção das mesmas. Como se resolve esta questão?

AT ‒ Considerando o mercado do Reino Unido como exemplo, o problema não tem a ver com o desenvolvimento. Muito provavelmente, se fizerem alguma coisa em conjunto, usando métodos científicos, a solução será melhor.

A questão mais importante está na implantação e manutenção. No fim de tudo, os médicos têm de atender pacientes, têm de gerir serviços de cuidados de saúde. Precisam de ter uma entidade a quem ligar se o sistema deixar de funcionar como deve, para arranjar uma solução. Isso não costuma ser facilmente disponibilizado por entidades públicas ou institutos de saúde, porque não estão especializadas nisso.

É necessário alguém do mercado, e é por isso que esses SI têm sido mais suportados por soluções comerciais, apesar de muitos terem origem em entidades públicas e universidades. Mas para poderem dar um serviço de qualidade, todas evoluíram para empresas privadas. E muitas no Reino Unido foram fundadas por clínicos, porque perceberam as necessidades no sistema.

CW ‒ E isso está a funcionar bem?

AT ‒ Está a funcionar bem porque, nas administrações destas empresas, há médicos envolvidos na sua gestão. Sabem o que pode ser feito e o que não pode, e conseguem falar melhor com os colegas.

CW ‒ Referiu a utilização de sistemas de suporte à decisão. Como se gere depois a responsabilização dos médicos? Não haverá tendência para se tornarem dependentes dos sistemas?

AT ‒ É o que muitos sistemas de suporte à decisão estão a tentar evitar. Mas há diferentes tipos. Não se pretende que tomem as decisões. A última palavra é do médico e só servem para se obter uma melhor decisão.

Mas por isso há muito debate sobre se devem ser considerados um dispositivo médico. Se um termómetro dá a temperatura de um doente, um médico tem de confiar no dispositivo. E se der uma leitura errada, o fabricante tem de ser responsabilizado.

Mas pode um software ser considerado um dispositivo médico? Se está a aconselhar, deve ser responsabilizado?

CW ‒ Qual é a resposta?

AT ‒ Ainda há um grande debate sobre isto. Muitas pessoas na indústria e na academia estão a tentar evitar que o software seja assim considerado. Porque, baseados nos actuais conhecimentos de ciência, não conseguimos chegar a um estado em que se afirme, com certeza, que as decisões aconselhadas são completamente correctas. E obviamente precisamos de fazer mais investigação científica sobre como posicionar isto.




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