Adeus, Nokia, foi bom conhecer-te

A Nokia, antes uma grande empresa e orgulho da Finlândia, está a enterrar-se sob a liderança da Microsoft, diz Steven J. Vaughan-Nichols, do Computerworld.

Steven Vaughan-Nichols - DRAcredite ou não, há apenas quatro anos, a Nokia era a primeira empresa de telemóveis no mundo. Desde então, ela foi comprada pela Microsoft, que anunciou na semana passada ir despedir metade da força de trabalho da Nokia. Então, digam-me, qual foi a razão exactamente da sua aquisição por 7,2 mil milhões de dólares há pouco mais de um ano atrás?

Os sabichões do mercado bolsista podem gostar desses despedimentos – eles adoram tudo o que faz com que o próximo trimestre pareça bom e não têm muito cuidado com o que coisas assim fazem para o futuro a longo prazo de uma empresa -, mas 7,2 mil milhões é dinheiro real, mesmo para a Microsoft.

Mas esse valor não é o dinheiro todo que a Microsoft está a atirar para a grande espiral da Nokia. A empresa terá que gastar entre 1,1 mil milhões e 1,6 mil milhões de dólares para reduzir a sua força de trabalho, com cerca de metade desse montante a ir para os despedimentos na Nokia. Assim, juntem-se mais 550 milhões a 800 milhões de dólares para a conta Nokia.

Mas, pelo menos, a Microsoft beneficia da linha de telemóveis da Nokia, certo? Não é bem assim. A Microsoft também disse na semana passada que ia desistir dos dispositivos “low-end” da Nokia e dos seus Nokia X Android. Em vez disso, o CEO da Microsoft, Satya Nadella, quer concentrar-se nos Windows Phone 8.x.

Tentar adivinhar o que os CEOs de empresas de topo pensam é um grande desporto. Neste caso, no entanto, tudo o que posso fazer é coçar a cabeça.

Tentar adivinhar o que os CEOs de empresas de topo pensam é um grande desporto. Normalmente, pode-se admitir que o CEO está no caminho certo, e que você poderia ter feito as coisas de forma diferente. Neste caso, no entanto, tudo o que posso fazer é coçar a cabeça. A sério, Nadella? Vai apostar tudo em dispositivos que dependem de um sistema operativo móvel que está num distante terceiro lugar relativamente ao Android e ao iOS – um sistema operativo que está realmente a ficar para trás dos seus rivais?

Tudo o que vi faz-me pensar que os dias da Nokia estão contados. Lembre-se, a Nokia já estava com problemas antes de a Microsoft a comprar, mas esta aquisição tem sido um caso de pegar numa má situação e torná-la pior.

As coisas começaram a azedar quando uma massa crítica de consumidores se começou a afastar de telemóveis com funcionalidades [“feature phones”] para os smartphones. O Symbian da Nokia foi um óptimo sistema operativo para esses telemóveis, mas não funcionava nada bem em smartphones. Quando reconheceu que precisava de um sucessor para o Symbian, a Nokia debateu-se, experimentou vários sistemas operativos baseados em Linux – como o Maemo, MeeGo e Tizen – mas não deu em nada. Aparentemente, não querendo ser mais uma a ter smartphones Android, evitou o sistema operativo (quer dizer, até pouco antes do acordo com a Microsoft ser fechado). A Samsung, por sua vez, atirou-se ao Android e tem feito muito bem com os seus smartphones e tablets Android.

Os dias da Nokia estão contados. Lembre-se, a Nokia já estava com problemas antes de a Microsoft a comprar, mas esta aquisição tem sido um caso de pegar numa má situação e torná-la pior.

Quando a Nokia começou a oscilar, contratou como seu CEO Stephen Elop, então o chefe de divisão de negócios da Microsoft. No início do seu mandato, a Nokia tinha uma quota de 34,2% do mercado mundial de telemóveis. Três anos mais tarde, quando Elop concebeu a venda à Microsoft, a quota da Nokia no mercado global caiu para uns péssimos 3%. No meio dessa espiral de morte, a 4 de Setembro de 2012, Elop apresentou o novo telemóvel de topo Windows da Nokia, o Lumia 920. No dia seguinte, escrevi: “a verdade sobre a viabilidade do Windows Phone 8 pode ser vista pelo simples facto de que após a Nokia lançar o novo modelo as suas acções mergulharam mais de 13%. Alguma dúvida?”

Isto não foi um fenómeno de um dia. Até ao momento da venda à Microsoft, o preço das acções da Nokia sob a “liderança” de Elop caíram quase um terço. E antes da Microsoft ter a possibilidade de despedir metade dos restantes funcionários da Nokia, Elop já tinha despedido 20 mil.

Não é de admirar que algumas pessoas digam que Elop era um “cavalo de Tróia”, enviado para a Nokia com o propósito expresso de destruir a empresa para a tornar mais barata para a Microsoft lhe pegar. O problema com essa teoria é que, como disse anteriormente, é difícil ver como a aquisição beneficiou a Microsoft. Talvez Elop seja apenas melhor em empresas de demolições do que alguém alguma vez suspeitou.

Se a aquisição beneficiou alguém, foi Elop. Ele recebeu 25 milhões de dólares pela sua parte no negócio. Bom emprego, se o conseguir ter. E ele acabou por regressar à Microsoft, onde é hoje vice-presidente executivo do grupo de dispositivos (Devices Group).

Enfim, talvez a Nokia tivesse desaparecido de qualquer maneira. Ela já estava em apuros quando contratou Elop. Mas, certamente, com Elop como seu CEO e a Microsoft como seu aliado, ela não teve qualquer hipóteses.

Se a aquisição beneficiou alguém, foi Elop. Ele recebeu 25 milhões de dólares pela sua parte no negócio. Bom emprego, se o conseguir ter.

Por isso, temo que isto seja um adeus, Nokia. Pode ainda existir como uma marca em smartphones fabricados no Vietname, mas a empresa de telefonia móvel, e a sua experiência, desapareceu. Há remanescentes, incluindo a Jolla, fabricante dos smartphones Sailfish OS, e a Nokia Advanced Technologies, que irá gerir as patentes da Nokia. Mas elas não são nada em comparação com a gigante da telefonia móvel que já foi o orgulho da Finlândia. Ainda assim, é possível que Sisu – o espírito finlandês da determinação e da coragem que tem servido bem a Finlândia, o seu povo e as suas empresas ao longo dos séculos – as acompanhe.




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