Instituições da UE acusadas de passividade face à Microsoft

A Comissão Europeia e outros organismos estão a falhar no dever de ser exemplo na adopção de tecnologias de normas abertas, acusam grupos defensores destas soluções, durante o Document Freedom Day. Há contratos com o fabricante que expiram em Maio.

Uniao Europeia (DR)A Comissão Europeia e o Parlamento Europeu não estão a fazer nada para se livrarem da sua dependência face à tecnologia da Microsoft, disseram dois grupos de pressão, esta quarta-feira,  dedicada ao Document Freedom Day. A Free Software Foundation Europe ( FSFE ) e a Open Forum Europa exortaram as instituições da União Europeia a apoiarem mais as tecnologias de normas abertas, numa carta a Giancarlo Vilella, presidente da direcção-geral de inovação e apoio tecnológico do Parlamento Europeu. O responsável também preside o organismo coordenador das actividades de TI, para organismos como o Parlamento, a Comissão e o Conselho da União Europeia.

A carta destaca vários problemas, inclusive o facto de os vídeos sobre as audiências parlamentares e do Conselho, ainda só estarem disponíveis em tecnologias e formatos proprietários ‒ Microsoft Windows Media Player e Silverlight. Isso limita os cidadãos da UE interessados em participar e assistir aos processos legislativos, e obriga-os a usarem os produtos de apenas uma única empresa, contestam os grupos.

Os mesmos recordam que têm pedido à Comissão para adoptar um formato de vídeo de normas abertas ou de características multi-plataforma desde 2008. Na altura tiveram a resposta de que o Parlamento estava a trabalhar na implantação de um novo sistema de fluxo de vídeo, baseado em normas abertas, mas nada parece ter evoluído nesse sentido. “Gostávamos de saber se este projecto ainda está em desenvolvimento “, escrevem.

Outro problema colocado é o da dependência da Comissão face à Microsoft, como seu único fornecedor de software de produtividade e escritório.

Comissão reconhece dependência e defende-se 

Em resposta a Comissão Europeia reconheceu a dependência em resposta a perguntas escritas endereçadas pela deputada europeia do Partido Pirata, Amelia Andersdotter, em Janeiro, a Catherine Day, a secretária-geral da Comissão.

“A Comissão está efectivamente cativa face à Microsoft no que diz respeito aos seus sistemas operativos de desktop e ferramentas de produtividade de escritório”, envolvendo o processamento de texto e folhas de cálculo, admitiu a Comissão num documento anexo à sua resposta.

As soluções open source não são uma alternativa viável, defende o organismo. E alerta ainda que provavelmente vai continuar a usar os produtos da Microsoft depois de os contratos de software expirarem em Maio próximo.

O uso e desenvolvimento de alternativas em open source para sistemas operativos de desktop e ferramentas de produtividade tem sido lento, reconhece a Comissão no documento enviado a Andersdotter. A adopção de tais soluções “permanece marginal e tende a resultar de decisões políticas”, concretiza.

As administrações, por exemplo, escolhem tecnologias open source, porque precisam de impulsionar uma indústria local no sector de TI, em vez de procurarem as mais adequadas, de acordo com a Comissão.

Política ou desenvolvimento do sector?

No entanto, o desenvolvimento de uma indústria local de TI é desejável, lembra o presidente da FSFE, Karsten Gerloff, esta quarta-feira. “Será que a Comissão realmente defende a visão de que a indústria de TI da Europa não deve ser desenvolvida? Espero que não. A própria abordagem interna da Comissão está seriamente fora de sintonia com os seus objectivos políticos”, argumenta.

Além disso, a Comissão afirma também que as alternativas existentes em código aberto têm sérias limitações nas suas funcionalidades e suporte de múltiplas línguas. Queixa-se ainda de falta de suporte e serviço adequado.

“A falta de escolha é quase total no que diz respeito a sistemas operativos de desktop e ferramentas de produtividade”, defendeu em Janeiro ‒ embora reconheça alternativas maduras nas áreas de e-mail e ferramentas de colaboração e redes sociais.

Muitos governos e outros organismos usam software livre para as suas necessidades de desktop e de produtividade de escritório, contrapôs Gerloff . “Qualquer pessoa que aborde o mercado de software com uma mente aberta vai encontrar uma série de escolhas para a área de trabalho e produtividade de escritório. Parece que a Comissão, ou não consultou o mercado de todo, ou pré-definiu um resultado específico, desde o início”, defendeu.

Neste contexto, os grupos querem ver a análise do mercado na qual a Comissão baseou a sua declaração de Janeiro. O documento divulgado por Andersdotter levanta ainda uma outra preocupação, disse Gerloff.

“Sugere que a Comissão está a consolidar o seu sistema de gestão de documentos sobre Microsoft Sharepoint. O documento reconhece ainda que tornará a dependência pior”, afirmou.




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