Os ecrãs entre átomos, bits e política

As sociedades não estão famosas, a tecnologia não contribui para as melhorar e pode mesmo ampliar a ignorância. Debate entre políticos a propósito de obra sobre a sociedade dos ecrãs.

Nem todos os ecrãs são iguais. “Aparentemente, é sedutor pensar que sim mas socialmente não são idênticos nos seus efeitos e nos seus usos”, salientou Pacheco Pereira esta terça-feira, no lançamento do livro “A Sociedade dos Ecrãs”, resultado de várias colaborações no OberCom.

O professor universitário deu o exemplo dos televisores, que se afastam do centro da sala para serem cada vez mais como uma parede. Ou o ecrã dos telemóveis, que “não é igual para novos e velhos” – “nem todos conseguimos ler num ecrã pequeno”, lembrou, e “não é confortável escrever ou ler textos longos num telemóvel”.

“Há limitações físicas, os nossos sentidos são limitados” e, no exemplo entre livros de papel e electrónicos, as “leituras diferenciadas têm resultados diferenciados”. Pacheco Pereira concede que, no caso da leitura no ecrã, a grande diferença é o hipertexto – “não há o folhear mas a pesquisa é mais fácil, quando se sabe o que se procura”. No entanto, “algumas coisas são melhores em átomos do que em bits”, porque “há textos que não ganham com o hipertexto”.

No geral, os ecrãs têm duas vertentes, defendeu o eurodeputado Rui Tavares. Para um tecno-pessimista, são como uma tela, um “tromp l’oeil” que “serve para tapar uma lixeira”, enquanto o tecno-optimista os vê como “uma janela para um outro mundo”, podem ser “uma tertúlia ou como alguns jornais do século XIX, produzidos só por ûma pessoa ou por três ou quatro amigos”.

“Os ecrãs passaram a ser uma data de coisas”, reflecte, lembrando como se pode ouvir rádio num ecrã ou, com os ecrãs tácteis, como estes se transformam em máquina de escrever.

Nesse sentido, qual escolher, o ecrã do televisor ou o da Internet? Ou, dito de outra forma pelo ex-secretário de Estado, José Magalhães, “queremos mais espectro para televisão ou dá-lo aos operadores móveis para se ter mais canais”, questionou. “Os nossos decisores políticos ainda estão a decidir se vão ter mais três canais” na TDT, quando deviam estar a querer “ter mais autores para conteúdos nacionais e mais canais com conteúdos nacionais na Web”.

Mas a contrapartida da Internet também pode não ser saudável. “Se se meter lixo na Internet, sai lixo”, argumenta Pacheco Pereira, alertando para uma tecnologia que passa despercebida – o browser – mas que “é a questão política essencial”, porque é através dele que se procura hoje na Internet e, no futuro, no televisor o que há para ver/saber. José Magalhães, noutro sentido também mais técnico, defendeu mesmo que se deve legislar sobre o “direito dos algoritmos”, por serem estes a base das compras electrónicas de bilhetes de avião ou de eleições electrónicas (no Brasil, disse, todos os partidos analisam os programas informáticos nas eleições com voto electrónico).

O potencial da tecnologia como instrumento político foi bastante realçado. “Com a destituição das mediações, como com a democracia participativa, há uma tentação para substituir a democracia representativa”, alerta Pacheco Pereira. Esta “tentação”, para ser uma democracia “quase em tempo real”, levaria a um “governo tecnocrático”. Neste caminho para o fim do “raciocínio racional”, com uma “superficialidade do debate público, acha-se que é mais democrático – há mais participação”, concede, “mas é falso”.

O que está a acontecer, diz, é o “esmagamento do tempo lento, com os soundbytes e os telejornais e o fim da argumentação lógica”, sem tempo para se pensar ou argumentar ou sequer para o silêncio. Ora, sendo os portugueses “videodependentes para a política” através do televisor e com a “imagem horrenda” que os portugueses têm dos políticos e da política, “não se peça à Internet o que ela nunca poderá fazer”, complementou Magalhães.

Estas evoluções têm um natural impacto político, salientou também Rui Tavares. “Há uma crise da complexidade, como com as transacções bolsistas feitas em milissegundos”, refere o eurodeputado. Esta “crise” também gera que os novos avanços surjam com uma “multiplicação da informação e, porque temos limitações cognitivas, isso tem consequências sociais ou políticas”, porque “não conseguimos gerir ciclos noticiosos, não conseguimos acompanhar e tendemos a exigir simplicidade, também na política” e pelos políticos, “para que os cidadãos se possam apropriar da política”.

No entanto, “quando não se dá simplicidade inteligente, a simplicidade estúpida – como o populismo – tende a triunfar”, diz Rui Tavares. E “não caminhamos para uma sociedade mais rica com estas tecnologias”, argumenta Pacheco Pereira. “As sociedades não estão brilhantes e estas tecnologias não contribuem para as melhorar” porque, diz, “o mundo das tecnologias pode ampliar a ignorância”.

E deu o exemplo da escassez da pedagogia sobre a privacidade, nomeadamente junto dos jovens adeptos das redes sociais, quando “as operadoras de telecomunicações querem é que o bébé já nasça com um telemóvel”.




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