“Nearshoring” português não está no “radar”

Os factores de competitividade dos serviços de outsourcing portugueses para o mercado externo mantêm-se válidos, embora haja perdas, de acordo com um estudo da Portugal Outsourcing.

Na 4ª conferência Portugal Outsourcing ficou patente que a principal barreira ao crescimento dos serviços portugueses de “nearshoring” é a fraca visibilidade ou reconhecimento da oferta nos mercados estrangeiros. Apesar disso e de algumas perdas, os indicadores frequentemente apresentados como diferenciadores da oferta portuguesa mantêm-se competitivos –  de acordo com um estudo da Portugal Outsourcing, apresentado por Rogério Carapuça, presidente da Novabase.

No enquadramento de comparação (inclui referências da oferta de vários países) adoptado para o estudo, o sector português perdeu dois lugares (de 7º para 9º) quanto à evolução da economia. No nível de governação houve a queda de um lugar na qualidade de infra-estruturas de redes também, mas por melhoria das condições na Polónia.

Em sentido contrário, as competências em inglês melhoraram um lugar e a disponibilidade de recursos humanos qualificados – teve uma melhoria de quatro lugares. Nos indicadores mais negativos do estudo, Rogério Carapuça salienta sobretudo aquele relativo ao nível de investimento em educação face ao PIB: aí Portugal perdeu dois lugares e o executivo considerou o desinvestimento como preocupante. Nos custos houve perdas de competitividade mas nos custos de trabalho o indicador melhorou três lugares (de quarto para primeiro lugar) face ao de outros países.

O aumento da competitividade na função trabalho resultou sobretudo com a maior flexibilidade introduzida com nova legislação, segundo o executivo. Para melhorar a competitividade da oferta portuguesa de “nearshoring” o responsável sugere a redução da carga fiscal das empresas para acelerar a captação de investimento estrangeiro.

Contudo o responsável ressalva ser importante não haver um posicionamento da oferta de “nearshoring” baseado nos custos: a Gartner reconhece que acaba por não ser este o principal factor de decisão.

Nessa linha defende uma maior autonomia das universidades na gestão dos seus orçamentos – metade dos quais já é obtido sem recorrer directamente ao orçamento do Estado –, para promover maior inovação e desenvolvimento de competências. De outra perspectiva, Carapuça refere como factor negativo para o outsourcing em Portugal os atrasos na adopção de medidas de eficiência de funcionamento da administração público.

E como factor particularmente importante, o executivo sugeriu uma maior abertura das organizações portuguesas para a adopção do outsourcing. O Estado terá neste sentido um papel directo fundamental no sector público: para o responsável é crucial as empresas de outsourcing terem casos de sucesso nacionais para os mostrarem nos mercados externos.

Falta imagem de país tecnológico

De várias intervenções na conferência ficou a impressão de não existir no exterior uma imagem de Portugal como sendo um país com capacidade de tecnológica. O CEO da Espírito Santo Ventures, Sérvulo Rodrigues, diz haver uma percepção generalizada sobre a engenharia portuguesa, por exemplo. Num contexto semelhante, Rogério Carapuça defendeu que o Estado tem de desempenhar um papel fundamental na promoção da imagem tecnológica do país. Mas além disso, devia dar um maior suporte ao tecido empresarial focado no negócio de “nearshoring”.

AICEP à espera de candidatura da Portugal Outsourcing

De acordo com Pedro Pereira Gonçalves, em declarações para o Computerworld, a AICEP está à espera da parte da Portugal Outsourcing, uma candidatura para o apoio a acções de dinamização do “nearshoring” português nos mercados internacionais. O responsável concorda que o Estado deve ter uma política de apoio mas exclui-o da responsabilidade de desenvolver a imagem do “nearshoring” português.

Quem deve tratar dessa imagem são as próprias empresas prestadoras dos serviços. Além disso considera que “a imagem tecnológica de um país não resulta da promoção feita pelo Estado, mas sim da soma das várias partes ou contributos dados pelas empresas, com a sua presença constante nos mercados estrangeiros”.

Para este responsável, o papel da AICEP deverá centrar-se mais em acções para conferir credibilidade às empresas portuguesas no mercado internacional – desbloqueando alguns processos e facilitando o acesso a interlocutores, por exemplo.

Considerando outras estratégias, para Sérvulo Rodrigues o ideal para a imagem do país tecnológico executivo seria ideal ter outras entidades, sem serem as portuguesas, a dar essa imagem. Para isso é importante estimular os fabricantes a terem mais centros de investigação e desenvolvimento no país.

Uma das formas de conseguir isso será demonstrar a capacidade de engenharia, e outra que os fabricantes comprem mais empresas portuguesas, diz. Outros aspectos negativos a resolver são a percepção negativa sobre a justiça portuguesa, sobretudo relativamente à sua morosidade.

E manter consistência fiscal para as empresas. Além disso, também por razões fiscais, apesar de a disponibilidade de recursos humanos qualificados ter aumentado, a retenção dos mesmos pode ser um problema. A carga fiscal sobre os trabalhadores vai tornar-se mais pesada e o seu êxodo para outros ambientes é mais fácil de acontecer.

Estado precisa de liderar, diz a Gartner

A especialista da Gartner, Patricia Cody-Otero, confirma o fraco reconhecimento da existência da oferta portuguesa de “nearshoring” nos mercados internacionais. A consultora é vice-presidente para os Executive Programs da Gartner – grupos de especialistas de consultoria a CIO – e recorda que o reconhecimento da oferta de serviços de Portugal não é a mesma coisa que a percepção sobre o país.

“Os portugueses são vistos como persistentes, motivados e criativos. Mas depois não são reconhecidos no radar” do universo do “nearshoring”.  Segundo a experiência de Cody-Otero, para o “nearshoring” português progredir nos mercados internacionais, é necessário “liderança do governo”.

Se for de facto uma área na qual o país quer investir, ressalva. De acordo com a mesma responsável, torna-se assim importante definir o que o sector deve ser e onde deve focar-se. E esses aspectos devem ter o suporte do Estado.




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