IBMC usa modelos da física e biologia para governar SI

A equipa de TI do Instituto de Biologia Molecular e Celular criou uma metodologia de governação capaz de colocar o utilizador no centro da definição da arquitectura de sistemas, baseando-se na forma como ele usa aplicações e sistemas.

A metodologia de governação dos sistemas de informação do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) foi criticada na recente conferência Netevents, por ser baseada em conceitos demasiado académicos. Mas, em entrevista ao Computerworld, o CIO da organização, José Sousa, mantém o entusiasmo ao explicá-la.

A metodologia é baseada em modelos matemáticos, requisitados à física e à biologia. E tende a evoluir para uma matriz automática de monitorização e avaliação da utilização de aplicações e dos SI por parte dos colaboradores.

Segundo José Sousa, serve para um CIO ter uma governação das TI, SI  e arquitectura inerente, mais aproximada às necessidades dos utilizadores. Ou mesmo à forma mais produtiva de utilização das aplicações.

Como resultado, o centro da arquitectura tende a ser o utilizador. Em processo de estudo, mas com aplicação no instituto, a metodologia tem tido resultados interessantes e pragmáticos, segundo José Sousa.

Computerworld – Para que serve esta metodologia?
José Sousa – Notamos nas organizações a existência de dois momentos, ao longo do tempo. Um momento no qual se transformam os processos de funcionamento organizacional em processos digitais – incorporando-os num ERP ou CRM, por exemplo.

Num segundo momento, a evolução da relação desses utilizadores com essas ferramentas envolve o nível a que os processos desenhados dentro do sistema são aqueles efectivamente usados, e a existência de “caminhos” ligeiramente diferentes. Uma das coisas que não se percebia era porque o mesmo ERP tinha resultados diferentes em organizações diferentes.

Nós achamos que o factor principal é o utilizador. E procuramos perceber o que acontece noutras áreas como a da biologia e da física teórica, que modelos eram usados para perceber comportamentos de objectos ou de pessoas.

Acabámos por encontrar na física teórica modelos matemáticos que traduzem esse comportamento. E adoptamos esses modelos na nossa análise de implantação da arquitectura de implantação dos sistemas de informação.

CW – Como?
JS – Há uma diferença muito radical entre as TI e o sistema de informação: este resulta de uma arquitectura de interacções de TI, gestão e de pessoas. E isso permite traduzir esse comportamento da relação das pessoas, aplicações e TI em alterações a processos.

E possibilita fazer uma previsão predictiva de como podemos evoluir para modelos mais eficientes e mais adequados ao modelo de negócio da organização.

CW – Acaba por haver uma espécie de “crowdsourcing” quase involuntário, porque as pessoas não sabem que estão a ser monitorizadas?
JS Nós mantemos a confidencialidade. Não monitorizamos objectivamente as pessoas.

CW – Pois, há a questão da privacidade.
JS – Garantimos a privacidade. Olhamos é para o fluxo informacional, e não para as pessoas em si. Uma pessoa, neste contexto, é um endereço ou um ”MAC address” e não procuramos mapeá-los. Isso é a primeira regra.

CW – Como se processa esse “crowdsourcing”  ?
JS – Procuramos extrair padrões. Mas em vez de usar a metodologia do “crowdsourcing”, usamos modelos matemáticos que quantitativamente nos caracterizam as interacções entre as pessoas e as TI.

Conseguimos mapear, pegando em informação de envio e recepção de e-mail, numa rede de utilizadores, e percebemos quais os utilizadores com maior peso.

CW – Que tecnologia suporta isso?
JS – Não estamos a falar de nenhum desenvolvimento tecnológico puro e duro. Trata-se de modelação e de ter um “business model”: o CIO tem um modelo de abordagem ou desenvolvimento da sua arquitectura que permite saber ou ter variáveis para gerir, ter uma governação da sua arquitectura de sistemas de informação.

Trata-se de criar um modelo de governação da sua arquitectura de sistemas de informação.

 

CW – Portanto um modelo de gestão, numa esfera já superior, destacado da tecnologia?
JS – Exactamente.

CW – Além do “crowsourcing”, a vossa inspiração vem de outras áreas?
JS Do comportamento biológico. Vem do que se chamam redes adaptativas complexas. Um fenómeno estudado na física e aplicado em muitas áreas e que trouxemos para os sistemas de informação.

Abordagem em teste

CW – A vossa abordagem foi criticada pelo cariz muito académico.
JS – Sim, tem de facto uma componente académica muito forte.

CW – Mas como é que o sistema funciona no instituto – e obteve resultados?
JS – Resultados tem. A questão é que por vezes acusam-nos de nos fecharmos nas instituições e não partilhar com a opinião pública.

E quando partilhamos dizem que é demasiado vanguardista e académico. Contudo se não juntarmos as duas realidades torna-se difícil comprovar a utilidade dos conceitos tecnológicos.

E no IBMC, fruto de facilidades internas, estamos a usar a organização como caso de estudo de implantação desta abordagem. Isso permitiu identificar uma série de aspectos e variantes onde fizemos intervenções.

CW – Como por exemplo?
JS – Nós desenvolvemos um portal com o objectivo de gerir encomendas. Depois, ao longo dos anos, acrescentamos aplicações à arquitectura do portal.

Pensávamos que as encomendas eram a aplicação mais importante no portal. Com as avaliações feitas na referida abordagem, chegámos à conclusão de que aplicação mais transversal era um “scheduler” [ferramenta de agenda].
Portanto, agora, quando desenvolvemos qualquer aplicação já temos como imperativo ligá-la de alguma maneira ao “scheduler”.

CW –O “scheduler” passou a ser o centro da interacção?
JS – Sim, e não as encomendas como pensávamos.

CW – Mas o modelo funciona sobre que plataformas?
JS – Sendo um modelo de avaliação de negócio, a base é o processo de recolha dos registos, ou “logs”. Mas usamos as normas e tecnologia do mercado, com a filtragem de pacotes.

Toda a informação existe na organização. Depois, a informação é organizada para se obter elementos úteis e gerar os modelos de negócio.

O núcleo são os modelos matemáticos e os resultados. Não propriamente os elementos tecnológicos.

É um modelo de avaliação e uma das suas vantagens é ser sempre possível executá-lo.

CW – O que pode variar é a profundidade da avaliação?
JS – E a qualidade dos dados disponíveis. No caso do e-mail, depende de como o sistema trata os registos.
É independente da tecnologia ou da base instalada. Num estado embrionário, usávamos tabelas de Excel, com os algoritmos a correrem nas colunas formatadas.

Em evolução de modelo para matriz

CW – Como é que o modelo pode evoluir?
JS – Estamos a trabalhar na criação de uma matriz capaz de ser usada por outros CIO como ferramenta de trabalho e desenvolvimento de governação: procuramos ter uma “framework” que aplicada às organizações a partir dos elementos introduzidos fosse capaz de os processar, definir a organização e depois, a partir daí, o responsável faria a governação da organização.

CW – Mas como se materializa essa matriz?
JS – Materializa-se na construção das redes de forma dinâmica. Produz de uma forma dinâmica as redes resultantes do fluxo informacional dentro de uma estrutura.

CW – Será só um modelo teórico?
JS – A ideia é existir uma plataforma capaz de produzir os modelos de forma automática, com todos os processos de definição de caracterização, hoje bastante manual. O objectivo último será transformar o modelo numa ferramenta automatizada, com a qual vamos buscar os registos, escolhemos os algoritmos e a seguir ele gera as redes associadas ao que estou a avaliar.

CW – Isso pode beneficiar das redes definidas por software (Software Defined Networks)?
JS – Acho que este modelo pode ter um impacto brutal na forma como as SDN são organizadas nas empresas. O objectivo das SDN é proporcionar capacidades de auto-composição nas redes.

O nosso modelo oferece informação sobre o que utilizador está a usar, as relações de rede que ele tem, funcionalidades usadas, que se podem aproveitar depois nas SDN. No caso dos prestadores de serviço, podem adaptar a rede a uma maioria dos utilizadores específicos de determinada hora do dia, em função dos metadados.

Com o mercado no horizonte

CW – Têm algum objectivo comercial?
JS – Correndo tudo bem, em 2013 queremos ter condições para tornar isto num produto de mercado ou que possa ser fornecido como serviço. O modelo de comercialização ainda não está de definido.

CW – Estão abertos a propostas e a qualquer hipótese de modelo de comercialização?
JS – Sim. O nosso “core business” não é produzir matrizes. Estamos a fazer prova de conceito no mercado. E estamos disponíveis a fazer, sem custos, esta abordagem noutras organizações. Podemos usar os registos que as organizações têm.

CW – Incluindo o sector público?
JS – Em qualquer entidade.

CW – Que desafios levanta a aplicação no mundo empresarial?
JS – O mundo empresarial poderá ser mais contido. Pensa que tem os utilizadores mais controlados. E esta abordagem pode mostrar que se calhar não os tem tão controlados. Porque os utilizadores arranjam sempre maneira de executar os processos de uma forma diferente daquela planeada pela organização.

As organizações não estão preparadas para colocar o utilizador no centro da arquitectura.

CW – A ideia de o utilizador ser cada vez mais o centro da rede e dos sistemas de informação, que consequências traz?
JS – A base instalada e as organizações não estão preparadas para essa mudança e para orientarem-se para aquilo que o utilizador precisa. Isso é fruto da evolução ao longo dos tempos: por exemplo, um ERP é implantado para criar algumas regras de funcionamento, em silos, para garantir a realização de processos de determinada forma.

E com isso as organizações pensam tirar melhor partido. Contudo perdem aspectos humanos como a flexibilidade e a capacidade de adaptação.

CW – Então qual é tendência de mudança?
JS – No futuro, as TI serão uma “commodity” e o grande salto das organizações passa por ter a capacidade de utilizar todas as componentes de “commodities” para transformá-las numa plataforma em que a interacção com o utilizador resulte num comportamento diferente, entre empresas. Isso será um elemento diferenciador no mercado, na forma como as organizações evoluem, como prestam os seus serviços.

A pessoa que gerir as TI terá de olhar para as TI e para as pessoas e perceber como as combinar com esses colaboradores, procurando torná-las o mais produtivas possível. Por exemplo, se existem pessoas com dificuldades na manipulação, no âmbito das interfaces e dos dispositivos apontadores, pode ser necessário transformar as primeiras em ambientes visuais, passíveis de serem modificados facilmente pelos utilizadores.

Os registos chegam para perceber isso.

 

CW – Que grau de falibilidade detectaram nesta abordagem?
JS  – Os resultados que estamos a ter só nos permitem avançar com  uma avaliação preditiva. Temos vários caminhos e escolhemos um.

Não avaliamos se dá modelos certos ou errados. Mas sabemos que estamos a caminho de uma destruição criativa, de destruir processos  “velhos” e de criar novos baseados nas práticas dos utilizadores.

Ainda não estamos a medir a fiabilidade dos modelos. E estamos só a reflectir sobre alguns processos ainda, mas conseguimos detectar a mudança de pessoas nos cargos.

Podemos avaliar quem usa o ERP e como este é usado e podemos recomendar formação para determinado utilizador, se este não usar o ERP como planeado.

CW – Que conhecimento extraído podem partilhar?
JS – Nós avaliámos o ERP Primavera, e a sua estrutura funcional do ponto de vista da rede: podemos partilhar o que extraímos nas variáveis medidas, perceber se as variáveis e os constrangimentos serão os mesmos, se será diferenciador ou não. E perceber quais são os processos mais adequados.

Cloud envolve outras especificidades

CW – Que variáveis mediram?
JS – O de “clustering” (agrupamento), o “path” (caminho) e o “average degree” (grau médio).  A primeira trata dos nós, a quantidade de ligações que cada aplicação tem. O “path” é o percurso seguido pelos utilizadores na utilização.

Quanto mais ligações o nó tem, mais importante é na rede. E podem-se tomar decisões sobre a resiliência da rede, sobre a qualidade do software, a sua tolerância a falhas, entre outras.

Fizemos também um exercício de desenvolvimento de software para cloud computing.

CW – E que ideias extraíram?
JS – Tipicamente, quando se desenvolve software, o que se faz de forma empírica é a definição dos pacotes de software: o módulo de manutenção agrega determinadas funcionalidades, e por aí adiante. Medimos isso com base num levantamento de requisitos, criamos uma rede, e depois o processo gerou o que chamamos “comunidades”.

Comparamos a quantidade módulos de funcionalidades que existiam com as das “comunidades” geradas e notamos grandes diferenças até nas agregações. As pessoas do desenvolvimento depois aperceberam-se de que se calhar determinada função fazia mais sentido estar noutro módulo. Isso tem impacto na qualidade do software, na manutenção, e na aplicabilidade.

CW – Num contexto de desenvolvimento ágil de software isso pode ser interessante?
JS – Sim, por exemplo, pode ser usado para validar ainda mais rapidamente as aplicações. Podemos partir do levantamento de requisitos, criamos a rede, aplicamos o modelo matemático e depois extraímos resultados teóricos sobre a composição.

CW – Que nível de automatismos é que se poderá produzir na afinação da arquitectura de sistemas?
JS – Nós ainda não estamos preocupados com isso. Mas é possível chegar a um nível estratégico no qual as decisões são tomadas com base nos modelos. E depois pode-se “injectar” de forma automática dentro daquilo que é a arquitectura de informação. Usamos isso para tomar decisões sobre o desenvolvimento da arquitectura.




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