O impacto da agilização dos cursos nas TIC

Como podem alguns políticos ter respeito pelas instituições universitárias quando estas agilizaram o seu percurso académico?

Os imbróglios das licenciaturas do ex-primeiro ministro José Sócrates e do actual ministro Miguel Relvas são uma trapalhada política. Não são a primeira, nem a última.
O problema é que esta trapalhada tem consequências práticas. O que tanto Sócrates e Relvas disseram (pelas suas acções) aos mais jovens é que o mérito está primeiro em obter o cartão partidário e, depois e à medida do cargo que se antevê, obter rapidamente o canudo universitário, agilizar o que já foi chamado de “licenciaturas honoris causa”.
Este tipo de expediente é moral e eticamente reprovável, apesar dos passos serem pretensamente legais. Afinal, se esta elite política demonstra que o famoso desenrascanço é que vale para a vida, como os podem desmentir pais e jovens que se endividam para obter o curso universitário?
A 8 de Maio passado, o jornal I apontava que 1.437 estudantes do ensino superior contraíram empréstimos entre Janeiro e Março, “num valor médio 2,6% acima do ano letivo anterior”. Segundo dados da sociedade de investimento SPGM, “o valor total dos novos contratos firmados desde 12 de Janeiro até 31 de Março ascende a 16,9 milhões de euros, tendo sido utilizados 2,24 milhões”, enquanto “o valor médio dos empréstimos passou de 11,4 para 11,7 mil euros este ano”.
E, “em menos de cinco anos letivos, o sistema nacional de garantia mútua viabilizou a concessão de crédito a 17.236 estudantes portugueses do ensino superior”.
Hoje, soube-se pelo Diário de Notícias que o Governo (através do Ministério da Educação e Ciência) acordou com os bancos um empréstimo de 23,5 milhões de euros, a vigorar neste ano lectivo e até 2014.
Em resumo, o Governo acorda com os bancos, as famílias endividam-se e mais de 17 mil estudantes questionam-se para quê, quando o percurso académico é preterido perante o caminho partidário.
Mas o que estas atitudes demonstram, em paralelo, é o descrédito da e a falta de confiança na academia. Quem teve percursos académicos destes, como pode confiar no labor e em estudos universitários?
O resultado é a entrega de assuntos de governação, com impacto económico evidente, a consultoras ou a empresas. Veja-se o alerta do consultor Luís Vidigal sobre o que está a passar-se com o levantamento das TIC na Administração Pública (AP): “começou a ser feito ‘pro bono’ por uma única empresa, a quem se deu acesso a toda a informação privilegiada a instalações, recursos, contratos, aplicações, etc. Quando se está no poder fica-se muito deslumbrado com os ‘almoços grátis’ e as ‘borlas’ muito convenientes. Trata-se de um insulto para a própria” AP.
Mas há mais. A falta de qualidade nos cursos universitários nacionais tem impacto directo no mercado de trabalho. Quando se pede aos jovens que emigrem, era bom dizer para o fazerem com um curso reconhecido lá fora.
Ora o que está a acontecer é o contrário e a tendência é para piorar. Como aqui alertou há dias Filomena Lopes, em artigo de opinião, “o mercado na área dos sistemas e tecnologias de informação continua em desenvolvimento mas constata-se uma reduzida procura dos cursos desta área, tendo sido poucas as universidades, quer públicas quer privadas, a encher o número de vagas no ano lectivo que agora termina. Os alunos continuam a querer cursos onde há grandes taxas de desemprego: direito, psicologia, gestão (sem especialização)”.
Filomena Lopes alerta ainda: “é urgente intervir na reforma do ensino básico e secundário onde o ensino das tradicionais ‘TIC’ é muito mal ‘tratado’, pressupondo que qualquer professor domina as tecnologias de informação (o que está muito longe de ser verdade) e que os alunos, apenas com uma disciplina no ensino secundário, ficam a dominar as tecnologias – é um engano. Esta geração de ‘nativos digitais’ são uns falsos ‘literados’ em TI. No ensino secundário, esta área de conhecimento, não lhes é dada a conhecer tal como é a física, a química, etc. e os alunos não aprendem algoritmia, não aprendem ‘a falar com as novas tecnologias’ e não aprendem a pensar como as usar para potenciar a sociedade e o mundo. A par disto, é necessário que sejam criados mecanismos para que a matemática seja devidamente leccionada; é uma disciplina muito importante pois desenvolve muito o raciocínio. Para o país se desenvolver é preciso pôr mais jovens a gostar de matemática e a saberem pensar”.
E o que faz o Ministério da Educação perante isto? Nos currículos do ensino básico e secundário, esquece as TIC e reforça o Português, a referida Matemática, a História, a Geografia, a Físico-Química e as Ciências Naturais. Nos princípios orientadores, atira o uso das TIC para as “diversas componentes curriculares”. E o ensino das TIC “inicia -se no 7.º ano de escolaridade”, quando os miúdos têm cerca de 13 anos, enquanto no próximo ano lectivo, as TIC no 9.º ano de escolaridade “mantém -se com um tempo mínimo de 90 minutos semanais”.
O desfasamento entre as diversas realidades – política, governamental, necessidades do mercado de trabalho – é enorme. O mercado nacional das TIC continua a necessitar de quadros e outros países têm carências neste domínio. Os EUA estão, pela primeira vez desde Janeiro de 2008, a aumentar os bónus e a recrutar mais quadros nas TI.
O único, o verdadeiro e terrível problema, é que estes lugares não serão preenchidos por quem tem carreira política mas por quem frequentou cursos universitários a sério. E, se foi bom, poderá nunca ser ministro.




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