Uso de Big Data deve aumentar em Portugal

A pressão sobre os resultados operacionais exige às organizações a tomada de decisões mais rápidas, diz João Almeida, vice-presidente da Capgemini Portugal. E Big Data “é uma peça instrumental” nesse sentido.

A experiência e a intuição estão a ser afastadas da decisão organizacional e está a aumentar a importância do Big Data na tomada das decisões estratégicas de negócio, revela um recente relatório da Capgemini. Em entrevista, João Almeida, vice-presidente da Capgemini Portugal, analisa o relatório e as conclusões também à luz da realidade portuguesa.
Computerworld – O estudo revela que a experiência e a intuição estão a ser substituídas pelas decisões baseadas nos dados. Considera que isso também está a acontecer em Portugal? Se sim, em que sectores?
João Almeida – Sim, particularmente na banca e no retalho. No setor financeiro a gestão de grandes volumes de dados tem sido um tema de crescente importância pelas necessidades de conformidade, gestão de risco, eficiência operacional, relacionamento eficaz com os clientes e ações de marketing. Todas essas funções dependem da precisão dos dados para a tomada de decisão. Existem, também, áreas como o risco, as operações, o “trading compliance” que tratam a mesma informação, mas de forma diferente. Quando a alta-direção cruza dados, de diferentes origens e formas de tratamento, levantam-se disputas sobre a qualidade dos mesmos, as definições do glossário, a forma como são armazenados, controlados e, sobretudo, a facilidade e rapidez com que são tratados.
Por exemplo, os benefícios de uma política de gestão de dados e da arquitetura de suporte aos sistemas decisionais para as instituições bancárias, são claramente identificados quando vistos à luz das capacidades de suportar o negócio. Alguns benefícios, a título ilustrativo, são por exemplo:
• Operações – um sistema de referência de gestão de dados centralizado oferece a grande vantagem de fornecer dados precisos, atempados e coerentes entre os sistemas. Isto resulta numa redução enorme em atividades de reconciliação e aumenta a eficiência e eficácia das várias equipas.
• Gestão de risco – entre outros benefícios é de referir a capacidade, de forma precisa, de identificar e gerir o risco integrado.
• Integridade e consistência dos dados – permitem uma maior rapidez e confiança nos relatórios de gestão.
• Vendas e marketing – a capacidade de ter uma visão única do cliente permite a operação de “cross-selling” e “up-selling”.

CW – O investimento em Big Data vai aumentar nos próximos três anos – o que acha que vai suceder em Portugal nesse período temporal?
JA – Acreditamos que vamos, igualmente, assistir a essa tendência em Portugal. A pressão sobre os resultados operacionais vai exigir que as organizações tomem decisões de forma cada vez mais rápida. O Big Data é uma peça instrumental para facilitar todo o processo de construção de soluções informáticas, que permitam disparar avisos para os responsáveis do negócio ou para a alta-direção, sempre que determinado evento pré-definido ocorre. A atual crise financeira global, com suas dimensões históricas, tem um grande impacto sobre o sector bancário e a economia mundial. Os bancos estão à procura de oportunidades de crescimento, mas o seu sucesso depende muito da capacidade de gerir as operações de forma optimizada. Para não falar das necessidades crescentes de tratar volumes de dados, no âmbito da análise de risco e simulação de cenários económicos, vemos que as áreas de “business intelligence” estão a ser integradas com a gestão de relação com clientes  (CRM) e há um forte enfoque na construção de modelos de previsão e análise comportamentais. Esta combinação está a tornar-se uma peça central na engrenagem do processo de “cross-sell”, gestão do risco, recuperação de crédito. Em suma, na criação de valor pela correcta gestão do ciclo de vida do cliente.
Complementarmente, os bancos começaram a perceber o potencial de análise do chamado “social media” e o acompanhamento dos seus conteúdos. A ligação a soluções de “customer experience”, como o Twitter e o Facebook, vai ser uma realidade em breve. Toda esta informação tem que ser acompanhada em tempo real.
A nível internacional, conjugando interesses do sector financeiro e do retalho/grande consumo, com o surgimento do “mobile banking”, ambos terão que reestruturar os seus modelos de negócio e aumentar a colaboração com empresas de cartões, de pagamentos e os “players” de telecomunicações. Mais uma vez o acesso, em tempo real, a volumes massivos de informação, em múltiplas fontes, é um fator crítico de sucesso.

CW – O Big Data não é um grande problema, dizem os inquiridos no estudo, mas a dificuldade é “analisar e agir sobre os dados, em tempo real”, bem como garantir a qualidade dos dados. Como acha que estes desafios vão ser superados pelas empresas?
JA – Do ponto de vista do negócio, a capacidade de analisar dados, em tempo real, obriga a pensar e a definir com grande clareza, a informação que se quer obter. Ou seja, como garantir que vou ser informado do que é realmente importante, em que contexto e com que grau de relevância. É uma aproximação onde a consultoria de alta-direção pode desempenhar um papel crítico no aconselhamento das organizações na definição de um modelo gestão com base em informação “real-time”. De notar que num ambiente de escrutínio das aplicações, a deteção e lançamento de alertas, deixa de permitir a possibilidade dos destinatários dos alertas, alegarem o desconhecimento ou falta de informação. O ónus inverte-se e passa-se a questionar de forma factual, eventuais faltas de reação aos problemas – o “miss management” torna-se mais evidente.
Do ponto de vista tecnológico, a evolução de arquiteturas de tratamento de informação em “real-time” tem sofrido uma enorme evolução nos últimos anos. O investimento em bases de dados “in-memory” por parte dos principais “players” mundiais de software e arquiteturas de IT que incorporam soluções com componentes como o Hadoop, Cassandra, Datameer, Storm, Pulse, etc. são já uma realidade. E vemos o surgimento de pequenas organizações, com forte capacidade de I&D, a lançarem no mercado soluções muitíssimo inovadoras. Hoje, lidar com dados em “real-time” já não é um problema. É uma realidade.
Por outro lado, as grandes organizações têm, necessariamente, que definir a sua política de gestão de dados. De forma sumária definirem políticas nas áreas de:
• inventário de dados críticos – dados (e as suas definições de negócio) que a gestão considera importante para a tomada de decisão e “compliance”. Esse inventário deve ser feito, conjuntamente, com o negócio e serve para atribuir prioridades à política de gestão de dados;
• integração de dados – processos e ferramentas para a recolha, agregação e enriquecimento de dados de diferentes fontes num único sistema unificado;
• qualidade de dados – medida em que os dados são “adequados ao uso pretendido”. Normalmente é medida ao longo das dimensões de integridade, exatidão, conformidade, consistência, duplicação e integridade;
• gestão de metadata – metadados são informações sobre os dados em si (tipo, duração, hora, origem, proprietário) de forma a poder haver rastreabilidade;
• Master Data Management – dados mestre armazenados numa única fonte e que são críticos para a operação do negócio. São, normalmente, dados de características perenes e não-transacionais (clientes, produtos, funcionários, etc.);
• privacidade de dados (“anonymization”) – inclui processos, algoritmos e plataformas tecnológicas necessárias para assegurar que o conteúdo de qualquer objeto de informação cumpre integralmente requisitos de privacidade e proteção legal e demais regulamentos.

CW – A falta de talento (analistas de dados) é notada por muitos dos inquiridos. Sendo o estudo global, o que acha que está a suceder no nosso país nesta questão?
JA – Tendencialmente, e Portugal não é exceção, os analistas de dados serão substituídos por analistas electrónicos. A inteligência na obtenção de dados de gestão não está nas soluções informáticas, mas em quem define a informação que quer obter, quando e em que condições. Ou seja, o velho problema de ter “n” indicadores, quando na realidade só preciso de um “sub-set” reduzido, mas muito relevante se atualizado atempadamente, mantém-se. O que os analistas eletrónicos trazem é a capacidade de estarem sistematicamente a varrer um conjunto massivo de dados em busca de determinada ocorrência. Podem ser eventos simples, como uma rutura de stock, ou a subscrição por um montante muito elevado de um determinado produto bancário. A situação complica-se quando se cruzam estes eventos com outros, em múltiplas localizações ou geografias. Nestes casos, dificilmente a resposta se encontra com recurso a analistas de dados “humanos”.
Da mesma forma, a falta de talento na leitura e interpretação de dados, muitas vezes decorrente do fraco conhecimento do negócio, também se mitiga pela criação de um glossário de dados (uniformização de conceitos) e pela implementação de soluções que automatizem e minimizem problemas de “data quality”.




Deixe um comentário

O seu email não será publicado