“Bolha” do Facebook não deve afectar outras ofertas

As condições de mercado serão mais importantes do que a oferta pública de venda do Facebook para o destino de outras operações de tecnológicas no mercado de valores.

A oferta pública de venda (OPV) do Facebook pode ter sido um fiasco mas não “enterra” as outras operações semelhantes de empresas de TIC, previstas para este ano. O sucesso ou fracasso das OPV de empresas de tecnologia dependerá mais das condições de mercado, dizem vários analistas.
A entrada do Facebook na bolsa foi de muitas maneiras um evento anómalo: uma das maiores empresas de tecnologia à volta  da qual houve mais expectativas bolsistas entrou no mercado contra tendências predominantes. Os eventos associados à confusão gerada – que em última instância, representou um encaixe de 16 mil milhões de dólares para a Facebook – por si só não significa que tenha estourado uma bolha fundada no sector tecnológico.
“Uma bolha de Internet emergiu e desapareceu num dia”, considera John Fitzgibbon, o qual dirige a IPO Scoop.com. “Ficou esquecido um aspecto em toda a histeria: a bolsa não estava em grande forma”, explica.
Na véspera da oferta, a Nasdaq tinha descido de valores altos alcançados anteriormente no ano –  e ainda está em baixo. Ultimamente, problemas com a dívida soberana na Europa, receios com possibilidade de a Grécia entrar em falência e sair do Euro, e relatórios económicos com indicadores mistos nos Estados Unidos colocaram obstáculos ao crescimento do valor das acções.
“Tenho conversado com os investidores e eles estavam de mau humor – a situação estava a entrar em ebulição à medida que o mercado avançava para a oferta do Facebook”, disse o analista, Richard Canaccord, da Genuity Davis. Entretanto muitos aspectos correram mal com a operação do Facebook em si, a começar pela forma  como a oferta foi estruturada.
O Facebook escolheu uma meia dúzia de bancos de investimento de alto perfil, liderados pelo Morgan Stanley, para organizar o processo. “E se o facto de ter na operação muitos bancos, repartindo assim as taxas pelo serviço para níveis insultuosos para todos, simplesmente faça perder o interesse dos mesmos e elimine responsabilidades?”, questiona Richard Canaccord.
“É simplesmente estúpido fazer operações de venda com tantos bancos envolvidos”, defende. Os subscritores de última hora aumentaram a dimensão da oferta e elevaram o preço das acções para um valor astronómico, em comparação com o que a empresa realmente ganha.
Mesmo tendo por base o valor das acções do Facebook uma semana após a operação –  sete dólares abaixo do preço  inicial estabelecido de 38 dólares –, o rácio entre preço e lucro é de 72,20. Por outras palavras, custa cerca de 72 vezes comprar uma acção do Facebook do que a empresa está a ganhar por essa acção.
A Apple – que é sem dúvida a empresa tecnológica mais bem sucedida – tem um rácio de apenas 13,68. (O lucro por acção do Facebook é de 0,43 dólares, enquanto o da Apple é de 41,04).

Episódios estranhos
Entretanto, notícias da Reuters e do Wall Street Journal, entre outros, revelaram que um analista da Morgan Stanley reduziu a sua previsão de receitas para o Facebook dias antes da oferta. Tê-lo-á dito  apenas aos principais clientes, em vez de espalhar a informação publicamente.
Se for verdade, essa acção pode ser interpretada como uma infracção às leis financeiras. Comités do Senado e da Câmara dos Representantes, bem como do estado do Massachusetts, estão a investigar o assunto.
Além disso, problemas com os sistemas informáticos da Nasdaq pioraram a situação. As falhas atrasaram as notificações de transacções e uma série de empresas perdeu dinheiro com discrepâncias de preços de acções. Cerca de 30 milhões de acções foram afectadas, estima a bolsa.
A multiplicidade de subscritores, o preço e a dimensão da oferta, as falhas técnicas – para não mencionar a natureza do próprio Facebook -, todos combinados formaram uma tempestade perfeita irrepetível. Para ter mais certezas, o mercado pode travar OPV de empresas de tecnologia mais pequenas e aumentar o escrutínio sobre os resultados trimestrais.

Efeitos benéficos
“A operação elevou o cepticismo dos investidores e isso significa que ter resultados trimestrais insuficientes em Junho será severamente punido. No curto prazo as OPV também não deverão resultar em encaixes astronómicos”, estima Richard Canaccord. “Mas isso são até duas coisas boas”.
A questão é que, em última análise, o fiasco da operação do Facebook pode levar as empresas de tecnologia candidatas à entrada na bolsa, e os seus potenciais investidores, a serem mais realistas sobre as condições de mercado. Das 173 OPV nos Estados Unidos no último ano, 37 foram de empresas de tecnologia – mais do que qualquer outro sector.
E há uma série de empresas tecnológicas interessantes a prepararem-se para ofertas públicas este ano.  Empresas citadas pelos analistas incluem o fabricante de “firewalls” Palo Alto Networks, o fabricante de tecnologia de automação de marketing Eloqua e o prestador de serviços SaaS, Workday.
Enquanto os indicadores económicos dos Estados Unidos  têm sido mistos, ultimamente, tendem a melhorar nos meses antecedentes a uma eleição presidencial, disse Fitzgibbon. Num comentário à compra da Ariba pela SAP, Canaccord salienta que a capitalização de mercado da Ariba – o preço da acção multiplicado pelo número de acções – atingiu um máximo de 40 mil milhões de dólares. E, na semana passada, a empresa foi adquirida por 4,3 mil milhões de dólares.




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