Os dois mundos da TDT portuguesa

Entre o que a população tem e o que as empresas oferecem, há uma enorme diferença na TDT, defende Sergio Deliconi, professor da Universidade do Minho e responsável do blogue TV Digital em Portugal.

Parece haver dois sistemas de TDT em Portugal. Um deles é o que a população recebe, o outro é o que as empresas de telecomunicações construíram, com alguns apoios importantes.
O da população está cheio de equívocos. É o pior da Europa em oferta de programas – pois contempla apenas os quatro canais generalistas, a qualidade de recepção da imagem deixa a desejar, o sinal não está disponível para cerca de um milhão de cidadãos – que estão nas chamadas zonas de sombra e são obrigados a pagar mais de 100 euros para assistir aos canais em TV aberta via satélite, não há uma oferta de serviços em HD, nem a TV móvel, muito menos serviços interactivos diferenciados, como, por exemplo, aplicações para pessoas com necessidades especiais.
Já o sistema das empresas vai muito bem. É um dos responsáveis pelo crescimento de quase 30% do mercado de televisão paga em Portugal, que aumentou de 43,7%, em 2008, segundo dados do Obercom, para 70%, em 2011, segundo dados da Anacom. Algo extraordinário em tempos de recessão. A TDT das empresas também prospera na área da Internet em banda larga, pois já foram leiloadas frequências que serão libertadas a partir do apagão analógico, previsto para Abril, quando os operadores de telemóveis poderão fornecer serviços 4G. Uma transação que trouxe aos cofres públicos 370 milhões de euros. O sistema das empresas ainda tornou monopólio da PT a distribuição dos sinais televisivos terrestres e a venda de equipamentos pra a recepção em zonas de sombra. Além disto, como comprova o documento abaixo, inicialmente a PT seria obrigada a arcar com todos os custos referentes ao kit satélite, mas a Anacom mudou a lei em Abril e jogou a maior parte da conta para a população.

Entre os dois sistemas, posiciona-se a Anacom, que deveria primar pelos interesses da população. Mas, nas declarações do regulador, tudo está a correr muito bem na TDT da população, pois as pessoas estão devidamente informadas, há subsídios excelentes para as famílias se adaptarem à recepção da TDT, o apagão nas zonas piloto foi um sucesso e Portugal está preparado para avançar.
No entanto, bastou que os meios de comunicação investigassem um pouco mais a fundo e fizessem uma série de reportagens para as coisas começarem a mudar. A RTP, cumprindo o seu importante papel de serviço público, foi a primeira a levar à televisão os dados que mostravam que havia algo errado na TDT da população, enquanto a TDT das empresas prosperava.
Houve recuos por parte da Anacom, que decidiu fasear o apagão no litoral, que atingiria grande parte das pessoas que vivem na costa, e também uma pequena diminuição do custo do kit satélite. Mas, em termos de modelo, até ao momento nada mudou.
Na tabela abaixo podemos comprar os dois mundos da TDT:

Agora que os dados dos dois mundos da TDT tornaram-se públicos, vamos aguardar para ver se os agentes políticos vão agir para diminuir a clara disparidade do processo.

[texto originalmente publicado no blogue Jornalismo e Comunicação]



  1. Alguem tem ideia de qual foi o custo total da implementação do sistema?
    – transmissores TDT
    – codecs, muxs
    – rede de transmissão do sinal (MW, fibra, etc)

    Tendo em conta que todo o processo não beneficia a população (quando muito apenas mantém o estado actual) quanto perdeu o pais com isto?
    E a PT, quanto ganhou?

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