São os “comedores de banda” um mito?

Os ISPs querem que se acredite que um punhado de utilizadores é tão voraz pela largura de banda que têm de impor limites aos dados a todos os clientes. Um novo estudo prova que as operadoras não contaram toda a verdade, diz o jornalista Bill Snyder.

Partilha, aprende-se no jardim de infância, é a coisa certa a fazer. Assim, quando os fornecedores de banda larga dizem que os “porcos da largura de banda” [“bandwidth hogs” ou “data hogs”] estão a prejudicar a rede para todos, provavelmente pensa-se ser justo partilhar esses recursos de forma justa. Mas acontece que os ISPs não estavam a dizer a verdade (é um choque) sobre as causas do congestionamento da rede.
Um novo estudo mostra que os chamados “porcos” não são a causa de congestionamento – o vilão e que está a causar o problema é o pico de uso por pessoas que nem sequer estão perto de atingir os limites de downloads.
“A nossa análise confirma que o consumo de dados é, na melhor das hipóteses, um ‘proxy’ pobre para o uso da banda”, escreve Benoît Felten, chefe de investigação da Diffraction Analysis, que conduziu o estudo. “A correlação entre o uso de banda em tempo real e os dados descarregados ao longo do tempo é fraca, e [as imposições pelos ISPs a um limite de download de dados] capturam utilizadores que não podem ser responsáveis pelo congestionamento”.
As limitações, primeiro impostas pela Comcast há alguns anos atrás e mais recentemente pela AT&T e pequenos fornecedores de banda larga, surgem quando muitos estão a usar a Web para fazer download e visualizar vídeos pesados em HD e filmes. A maioria das novas estratégias de preços gira em torno das limitações de dados: um nível de consumo de dados mensal que desencadeia mecanismos de “pay-as-you-go” com taxas crescentes por megabyte.
Os ISPs não têm estado ansiosos para provar a verdade das suas alegações. De facto, em 2009, Felten ofereceu gratuitamente os serviços da sua empresa para avaliar como os “porcos” afectaram o desempenho da rede, mas demorou anos até um fornecedor de médio porte de DSL nos EUA concordar.
O nome dessa empresa não foi revelado, mas os resultados sim: (O relatório completo é proprietário, mas pode-se ler um resumo aqui.)
O número de utilizadores é bastante constante durante a maior parte do dia, segundo o estudo, mas picos médios de largura de banda ocorrem ao final da tarde e início da noite. Então, quem está a usar a largura de banda? Acontece que a resposta é – quase todos. Durante as três horas de pico do dia, quase metade dos utilizadores activos da empresa sugam enormes quantidades de largura de banda. Se é esse o caso, obrigar a encargos extra alguns dos chamados “porcos” dos dados não faz muita diferença.
Grande parte do uso pelos “porcos” não é feito no horário de pico, o que significa que eles não estão a ter um efeito significativo sobre o desempenho da rede.
Os investigadores também analisaram o uso por clientes que excedem os seus limites de dados e a quem foi cobrado o excesso. Destes, 78% faziam parte de 1% de todos os utilizadores durante o horário de pico. Isto significa que cerca de 22% dos utilizadores mais consumidores de dados estavam a ser acusados pelo congestionamento nas horas de pico que eles não tinham causado.

Mas se os “data hogs” não estão a causar o problema, o que está? O uso da banda por todos os utilizadores está, obviamente, a aumentar e a estratégia sensata seria expandir as redes. Mas as operadoras e as empresas de cabo preferem aumentar os preços e embolsar a receita extra do que colocar em perigo as suas preciosas margens de lucro ao adicionarem mais capacidade.
(Parabéns à Ars Technica por revelar primeiro este estudo).




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