O estado do sector das comunicações

O “jardim” da concorrência voltou ao congresso anual da APDC, com operadores fixos e móveis a terem posições diferentes.

A concorrência que ocorre no sector das comunicações móveis não tem paralelo nas comunicações fixas. Mas o contrário também parece ser verdade, pelo que ficou expresso no painel sobre “O Estado da Nação” das comunicações, que esta quinta-feira encerrou o congresso da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC).
Para António Coimbra, da Vodafone, que está há “cinco trimestres a aumentar quota de mercado e estamos a um ponto percentual do incumbente”, o leilão da quarta geração (4G) ocorre “numa altura em que há concorrência no móvel mas isso não ocorre nas comunicações fixas”.
Nestas, nomeadamente nas redes de nova geração, “não há estratégia nem plano de negócios que aguentem”, pelo que, contrariando a ideia de não haver problemas para novos operadores, há “barreiras tremendamente elevadas à entrada, são enormes e assim se condiciona a concorrência”.
Coimbra defende, para não repetir o que “sucedeu” com as ofertas de ADSL, uma “separação das actividades retalhista e grossista para assegurar a oferta e para garantir competitividade”.
A menos que, diz, no leilão da 4G que se inicia na próxima semana, “o objectivo seja dificultar a concorrência”.
“O sector móvel é concorrencial, o fixo não”. Neste último caso, “caminhamos para um duopólio musculado, que se traduz em não-concorrência”, assegura Miguel Almeida, CEO da Optimus, para quem a rede de fibra da Portugal Telecom (PT) devia ser “partilhada”.
No móvel, nos últimos nove meses e perante o período homólogo, “Portugal foi o país em que as receitas mais caíram”. Isto quando, relativamente a outros países, “é quase líder em termos de investimentos”.
Miguel Almeida lembra ainda que, no exemplo do leilão da 4G para novos operadores e na ideia já apontada pelo responsável da Vodafone, o mesmo tipo de regulação não existe para o sector das comunicações fixas.
Posição contrária tem a Oni. O “sector móvel não tem o nível de concorrência do fixo, nunca conseguimos materializar a concorrência no móvel”, assegura Xavier Martin. O CEO da Oni lembra que nunca conseguiu lançar um operador virtual neste segmento, “nunca conseguimos, há anos que tentamos”, para assim defender que “as redes fixas estão mais abertas do que as móveis” e que “as condições para entrar no fixo são mais fáceis do que entrar no móvel”.
“Não estamos habituados a ter concorrência, vemos problemas nos jardins dos outros, os móveis queixam-se dos fixos” e o contrário também acontece, assegurou Rodrigo Costa, presidente da Zon Multimedia.
Neste impasse, Martinho Tojo, responsável da Cabovisão, lembrou que “foi preciso a troika e o memorando de entendimento para se salientar a necessidade de concorrência” no sector.

Consolidação é inevitável
“O investimento no sector [das telecomunicações] é enorme e coloca Portugal à frente” de outros países, em termos de dinamismo, defendeu ainda o director-geral da Cabovisão.
Em termos de retorno de investimento, “temos de ser hoje mais criteriosos no investimento” e deve-se “optimizar aquilo que já foi feito, fazer mais com o que está feito”.
Nesse sentido, a empresa, que deve terminar o ano “com mais 200 mil clientes”, pretende dar “saltos qualitativos e capitalizar” o que tem instalado.
O responsável da operadora de televisão paga, sobre a qual correram rumores esta semana de estar à procura de compradores (e que levaram a Optimus a declarar não estar interessada no negócio), declara que “a consolidação é inevitável mas só não sabemos quando” vai ocorrer. Tojo considera que a Cabovisão é “atractiva” porque “estamos a fazer um bom trabalho e os rumores [de venda] são recorrentes desde há dois anos”, quando assumiu o cargo.
“Os accionistas devem ter isso em cima da mesa mas eu estou lá para definir objectivos e o nosso objectivo não é vender a companhia”, diz.
No sector em geral, lembra Xavier Martin, CEO da Oni, “mais do que consolidação, têm-se visto processos de aquisição e de transmissão de propriedade – por [entidades de] ‘private equity’, provavelmente para uma posterior consolidação”.
São “cartéis da crise” mas, recorda, “uma empresa é como uma cebola – o melhor está no centro mas, para lá chegar, é preciso chorar”. Ou inovar.
“55% do negócio da PT já não é voz e isso torna o negócio mais resiliente”, com apostas na cloud,  virtualização e na inovação, e “não só nos preços”, salientou Zeinal Bava. “Temos um plano de inovação a cada 36 meses”, referiu o CEO da PT sobre a estratégia da operadora, lembrando como o centro de dados que está a construir na Covilhã será um dos seis maiores do mundo.

Mudanças na cadeia de valor
A cadeia de valor está a ser alterada e os operadores de telecomunicações “podem ficar com partes mais pequenas e outros ganham mais, há um risco concreto” nesse sentido, defendeu Miguel Almeida, da Optimus.
Quem pode ganhar mais “está em Silicon Valley mas se essas empresas não tiverem redes, também não ganham nada”, salientou, apontando “o risco de colapso da sociedade digital se não houver investimento dos operadores”.
Xavier Martin desdramatiza e acredita que “vamos viver emoções fortes, apesar do mercado ser difícil” mas “estamos melhor como sector do que o país” em geral, salienta.
Rodrigo Costa traça o retrato de um “sector exigente em termos de investimentos” e as “empresas grandes queixam-se de ter de fazer investimentos avultados” mas sem os mesmos, a situação seria pior.
Neste caso, depois de defender essa atitude pela PT, lembrou como “há quatro anos decidimos fazer investimentos ou morríamos”. Hoje, “temos uma boa rede, uma boa cobertura, onde chegamos às casas onde podemos ter rentabilidade”.
Já no caso das pequenas empresas de telecomunicações, “quase todas morreram e isso deve-nos fazer pensar”.
Para Miguel Almeida, não só “a liberalização do cobre falhou completamente”, como “o Governo onera este sector em demasia”, seja no próximo leilão da 4G como na Lei do Cinema que pretende “taxar as operadoras para financiarem o cinema” nacional, refere.
O responsável da Optimus defendeu ainda a partilha das infra-estruturas de telecomunicações entre os operadores nacionais (como sucede entre a Optimus e a Vodafone) numa altura de crise, até para evitar a “compra de serviços e equipamentos a empresas estrangeiras”.
Zeinal Bava é claro sobre o assunto: “chega de querer surfar nas redes dos outros, a rede de fibra óptica é nossa, investimos nela” quando outros o não faziam, “antecipámos isso em 2008”, diz, e não está disponível para essa cedência fora do quadro regulamentar.
Lembrando como a estratégia foi acertada, pela análise dos picos de acesso a dados, recorda que a PT não é incumbente na fibra nem na televisão, porque “começámos do zero”.

A piada da regulação
Para Rodrigo Costa, um outro problema é “a forma lenta como as coisas se decidem em Portugal”, nomeadamente em termos de regulação. “Há um défice de regulação, há muita concorrência mas as decisões são lentas e o sector beneficiaria com mais rapidez na análise de processos, dos abusos de posição dominantes, das actividades predatórias”.
No entanto, salientou, “tomara que a concorrência noutros sectores em Portugal fosse como no nosso”.
“Eu não me queixo, não tenho nada para me queixar”, assegura Zeinal Bava, “mas há queixas contra o regulador” Anacom porque “isso é normal, senão não tinha piada”.

E o serviço universal nos correios?
60% do correio em Portugal é gerido pelos CTT e a concorrência que aí vem com a liberalização dos serviços postais, em 2012, “é a sério” mas “não nos assusta”, afirma Pedro Coelho.
Para o vice-presidente dos CTT, uma questão essencial neste processo é “o que vai acontecer ao serviço universal”.
“Quem o paga? Todos os ‘players’”, questiona. E será entregue aos operadores por leilão? Isso “não seria bom para os portugueses”, garante.
Até porque, antes, “é preciso definir o que é o serviço público. E exemplifica como os tempos mudaram e se “escrever uma carta já é raro, pagar contas nos correios” é normal mas isso “não é serviço público”.
Já no correio de grandes quantidades, defende que “o mercado deve funcionar e só se deve intervir ‘a posteriori’”.
“Estamos disponíveis para abrir a nossa rede mas deixem-nos negociar”, pediu, embora ciente de estar dependente “da directiva que está a ser transposta”.




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