HP expulsa Apotheker, Whitman é a nova CEO

Ex-CEO da SAP, Leo Apotheker, ficou menos de um ano no cargo de CEO da Hewlett-Packard.

Leo Apotheker foi afastado esta quinta-feira de CEO da HP e substituído pela directora e ex-CEO do eBay, Meg Whitman, menos de um ano após ter assumido o cargo.
Para executar com sucesso a sua estratégia, a empresa exige “atributos adicionais” ao seu CEO, traços que Whitman possui, segundo a HP.
Além de nomear Whitman como presidente e CEO, a HP revelou que Ray Lane mudou de cargo, passando de presidente não-executivo do conselho para presidente executivo da HP. O conselho “tem a intenção de nomear um director independente rapidamente”, diz a empresa.
“Temos sorte por ter alguém do calibre e experiência de Meg Whitman para liderar a HP”, diz Lane no comunicado.
Whitman é “uma visionária da tecnologia com um histórico comprovado de execução” e uma “forte comunicadora”, acrescenta. “Além disso, como membro do conselho de directores da HP nos últimos oito meses, Meg tem uma sólida compreensão dos nossos produtos e mercados”.
“Sinto-me honrada e animada para liderar a HP”, disse Whitman em comunicado. “Acredito que a HP importa – é importante para Silicon Valley, na Califórnia, para o país e o mundo”.
Rumores circularam nos últimos dias de que o conselho da HP estava prestes a afastar Apotheker, ex-CEO da empresa de software SAP. Apenas uma pequena quantidade do negócio da HP é no software, actualmente, um facto que Apotheker procurou mudar numa estratégia que delineou pouco depois de ingressar na empresa em Setembro de 2010.
Apotheker foi para a HP num momento de turbulência, após a saída do CEO Mark Hurd, envolvido num escândalo. Hurd acabou por assegurar um lugar como co-presidente da Oracle, rival da HP.
O mercado não reagiu bem a uma série de anúncios e movimentações de Apotheker, incluindo a prevista aquisição do fornecedor de software de infra-estrutura Autonomy e a provável cisão da divisão de PCs na HP. Este último tema provocou uma grande recessão no valor das acções da HP, que pode ter acelerado o despedimento de Apotheker.
No geral, a experiência da HP deve ter sido uma sensação de “déjà vu” para Apotheker, dada a dificuldade que experimentou como único CEO da alemã SAP.
Executivo de longa data na SAP, Apotheker também durou menos de um ano no cargo de topo, e foi substituído por Jim Hagemann Snabe e Bill McDermott, em Fevereiro de 2010, quando a SAP voltou ao formato de ter co-CEOs, que tinha aplicado no passado.
“Acho que Apotheker foi para uma espécie de trabalho ingrato”, disse Charles King, presidente e analista principal da Pund-IT. “É difícil para qualquer CEO entrar numa empresa que está em crise, que era claramente como estava a HP após a saída de Mark Hurd”.
Ainda assim, o possível “spinoff” do negócio de PCs “pode simplesmente ter sido demasiado radical para o mercado aguentar”, acrescenta King.
Outros grandes factores que levaram à mudança na liderança da HP foram as falhas nas suas metas financeiras nos três últimos trimestres e pagar um monte de dinheiro para chegar mais fundo no negócio de software através de aquisições como a Autonomy e a Vertica sem fornecer uma estratégia clara para o futuro, segundo o analista da IDC Crawford Del Prete.
“Havia provavelmente uma subestimação por parte da empresa e da parte de Leo… sobre o quão difícil seria esta transformação”, diz Del Prete. “Eles não foram capazes de comunicar eficazmente a sua estratégia e visão”.
“A confiança dos investidores é algo muito difícil”, acrescenta. “Quando começa a ficar desgastada, é muito difícil para essa pessoa obter a confiança de volta”.
Além de Wall Street, a ideia também despertou provavelmente algumas preocupações na base de clientes da HP, diz o analista Ezra Gottheil, analista sénior da Technology Business Research.
“Eles são o maior fornecedor de PCs do mundo, o mais rentável depois da Apple”, lembra. “Falar de deitar isso fora sem qualquer resolução sobre o mesmo foi uma surpresa. Como é que como cliente teria respondido? Eu acredito que eles estão preocupados. Pegaram numa grande base instalada e de clientes, e fizeram-nos sonhar”.
Há também a questão de saber se tal movimento iria servir totalmente como caminho para a HP mudar a sua imagem de empresa de consumo, de acordo com King.
Grande parte dos 40 mil milhões de dólares do negócio de PCs da HP nos EUA “é através de acordos corporativos”, refere. “Se fosse desmembrado, ainda assim estaria intimamente ligado às vendas da HP e a outras relações com os clientes. Não há como separá-los completamente, especialmente a parte dos serviços da HP que lidam com a implementação e gestão dos clientes. De certa forma, faria sentido mantê-los, e continuar a andar para a frente”.
“Pode ser o negócio de menor margem na HP, mas ainda é rentável”, acrescenta. “Mantê-lo em segundo plano pode ser a jogada mais inteligente”.
Além disso, livrar-se da divisão de PCs pode prejudicar o negócio dos servidores da HP, porque a empresa depende de relações de alto volume no fornecimento com os fabricantes de componentes, lembra Del Prete. E é provável que atinja também o negócio das impressoras, pois os PCs ajudam a cimentar bons negócios com retalhistas, que também vendem impressoras da HP.
No geral, é provável que Whitman continue a empurrar a HP para se tornar mais uma empresa para o sector empresarial, diz King. “É claramente onde estão os lucros”.
Mas a escolha de Whitman como CEO é um pouco confusa, ainda de acordo com King.
“Por um lado, ela é conhecida e obviamente tem experiência significativa na gestão de uma empresa multibilionária como no eBay”, diz.
No entanto, Whitman tem muito pouco no seu passado que faça dela uma boa aposta para uma empresa do tamanho da HP, nem sequer é “profundamente experiente no espaço das TI empresariais”, aponta.
Além disso, Whitman teve uma corrida mal sucedida para o cargo de governadora da Califórnia, e “continuou a discutir as suas ambições políticas”, refere King.
Portanto, é possível que Whitman vá dar à HP algum “poder de estrela” na cadeira de CEO, enquanto a administração da empresa orienta uma estratégia mais ampla e procura encontrar um CEO mais permanente, de acordo com King.
Um primeiro passo para a HP e Whitman pode ser reavaliar os principais negócios de PCs e do WebOS e continuar a desenvolver uma estratégia em torno do software e da cloud. Outro pode ser o de fornecer uma estratégia clara sobre o rumo da HP sem prejudicar os negócios existentes.
Apotheker equivocou-se nos negócios de software e hardware do WebOS, comprado à Palm pelo ex-CEO Hurd, recorda Roger Kay, presidente da Endpoint Technologies Associates. A HP já liquidou os seus smartphones e tablets WebOS, ficando apenas com o software.
A empresa disse que estava a pensar reter o software WebOS e licenciá-lo a terceiros. Se a HP queria o WebOS como plataforma para terceiros, podia ter feito isso há algum tempo. Mas muito poucos fabricantes de dispositivos o querem licenciar, refere Kay, acrescentando ter poucas hipóteses contra outras plataformas móveis como o iOS, da Apple, e o Android, da Google.
“Ninguém quer licenciar aquilo. Se eles não constroem o seu próprio hardware e não podem licenciá-lo, compraram a Palm para nada”, diz Kay.
A HP tem algumas outras opções, incluindo “uma possibilidade a longo prazo para se tornar num líder na cloud empresarial como âncora de um grande ecossistema de produtos e serviços”, refere o analista da Forrester Research, Frank Gillett, em comunicado. “Eles podiam comprar a Amdocs para a facturação e monitorização melhoradas, mas a compra da SAP ainda não faz sentido”.
Pode ainda haver repercussões na direcção da HP devido à “remoção súbita” de Apotheker, segundo uma nota da analista Bernstein Research emitida antes do anúncio da HP.
“A potencial remoção repentina de Apotheker como CEO – e o facto de que tais discussões do Conselho foram mais uma vez transmitidas para a imprensa – são susceptíveis de comprometer ainda mais a já frágil credibilidade do Conselho de Administração”, afirma essa nota. “As nossas conversas com os principais accionistas também indicam que eles ficaram descontentes com o Conselho, dado que fez e aprovou uma série de decisões (despedimento de Hurd, contratação de Leo, aprovação da compra da Autonomy, o anúncio prematuro da saída do negócio dos PCs) que muitos accionistas acreditam serem decisões fracas e desalinhadas com os seus interesses”.




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