YDreams disponível para criar novas empresas

A empresa quer democratizar a utilização e programação de robôs e espera facturar acima dos 10 milhões de euros em 2011, segundo o CEO António Câmara.

O CEO da YDreams, António Câmara, manifestou durante a conferência Interact2011 a disponibilidade do grupo para formar novas empresas baseadas em ideias inovadoras disruptivas. O executivo usou mesmo a expressão “as vossas ideias mais malucas”, dirigindo-se a uma plateia de investigadores.

Ainda em Agosto último, o grupo fundou a sua quinta empresa, a YDreams Atlantics, sedeada nos Açores. A capacidade de investimento do grupo funda-se num modelo de financiamento centrado em investidores alemães e na bolsa de Frankfurt – onde o grupo tem já uma empresa cotada, a Ynvisible.

António Câmara não teme a perda de controlo total sobre as empresas, e outras desvantagens, dado pretender seguir uma estratégia na qual só dispersará 20% dos capitais sociais das organizações criadas. “Hoje é a única forma de obtermos financiamento”, diz o responsável, sem esquecer de elogiar o contributo da Espírito Santo Ventures para os primeiros passos do grupo.

Segundo o CEO, a YDreams facturou um pouco abaixo de 10 milhões de euros em 2010. Mas para  2011, o executivo prevê, com expressa certeza, um volume de negócios acima desse valor.
Mesmo num cenário macro-económico difícil, a estratégia da empresa aponta para a expansão e traduz-se em diferentes iniciativas consoante as empresas do grupo. No caso  da Yvison, por exemplo, a empresa disponibilizou de forma gratuita a versão beta do pacote de desenvolvimento do software Yvision.

Por detrás dessa iniciativa está a intenção de tornar este software de interfaces naturais de utilizador (Natural User Interfaces – NUI) numa norma internacional para o segmento. Mas, como explica António Câmara, o modelo de negócio assenta numa lógica “freemium”: haverá componentes mais sofisticados e de maior valor, que serão pagos.

O software Yvison é uma matriz de software capaz de permitir a prototipagem rápida e o desenvolvimento de aplicações baseadas em NUI. Engloba tecnologia de renderização em tempo real, simulação de fenómenos físicos, realidade aumentada, inteligência artificial, realização simultânea de múltiplas tarefas, entre outras.

Na Ynvisible, liderada por Inês Henriques, estão a ser desenvolvidos projectos envolvendo química para criar interactividade em suporte de papel. Outras iniciativas decorrem no campo do papel electrónico e áreas associadas.

Robôs abaixo dos 100 euros

Para a Ydreams Robotics, a estratégia passa pela ambição de democratizar a programação e utilização de robôs. Trata-se de desenvolver software e hardware capaz de colocar no mercado robôs a baixo custo. O objectivo passa pela massificação do produto, endereçada ao mercado global.

Como exemplo, o CEO refere o caso da Parrot, a qual comercializa pequenos helicópteros telecomandados por smartphone a um preço na ordem dos 150 euros. António Câmara promete robôs a um preço abaixo dos 100 euros.
A estratégia envolve parcerias com entidades nacionais como, por exemplo, o Instituto Superior Técnico. O executivo acredita mesmo ser possível fabricar os dispositivos totalmente em Portugal sem ter de recorrer ao outsourcing em países asiáticos.

Em destaque, tem estado o maior projecto desenvolvido pela YDreams: trata-se de um sistema englobando robôs como assistentes de acolhimento, paredes interactivas, instalado no centro de recepção de visitantes da Ciudad Santander, a sede do banco com o mesmo nome, nos arredores de Madrid.

Mas as iniciativas da YDreams na robótica não se ficam por aqui e a empresa voltou-se para… o mar. Com a YDreams Atlantics, o grupo pretende apostar em robôs para a exploração do fundo oceânico. A sede da empresa no Açores não é por acaso.
A estratégia não passa por fazer mais do mesmo: na visão do investigador, com o conhecimento da YDreams é possível fazer a referida exploração de uma forma menos dispendiosa e logo mais prática. A visão passa por desenvolver robôs  capazes de realizar a exploração autonomamente, em grupos ou “enxames”.
António Câmara acredita que a YDreams Atlantics será capaz de suplantar, com superioridade tecnológica, a concorrência da Liquids Robotics, uma “start-up” vocacionada para a recolha de dados sobre a água dos oceanos que recentemente mereceu o contributo do chamado pai da linguagem Java, como arquitecto-chefe de software.

A aposta nos oceanos acaba por servir outros propósitos. Como ideia base,  a YDreams assume que a computação está hoje demasiado centrada no interior dos edifícios. E por isso há importantes oportunidades a aproveitar em colocá-la no exterior.

Para isso, é preciso prepará-la  para suportar condições menos favoráveis no ambiente externo. “E é nos oceanos que podemos encontrar as condições mais adversas no planeta”, assinala o CEO. Ou seja, o conhecimento desenvolvido servirá para sinergias tecnológicas em futuros projectos, no âmbito do grupo (se não com parceiros).

Objectivo  Nasdaq
António Câmara tem como objectivo colocar a YDreams cotada, até 2014, em bolsas na Europa e na Nasdaq (Estados Unidos).  Para já, apenas a Ynvisible vai evoluindo na Bolsa de Frankfurt.

O período inicial da cotação teve bons resultados na perspectiva do executivo. Seguiu-se um momento de correcção com a queda do valor das acções da empresa. Mas agora Câmara considera essa evolução como “controlada”.
E prevê melhorias assim que a empresa entre no mercado com  produtos, nos próximos meses. A Ynvisible vai lançar ecrãs “electrocromáticos” passíveis de serem impressos, e que são flexíveis, transparentes e capazes de suportar interacções, através de reacções químicas. Isso deverá  alimentar a confiança dos investidores e permitirá  ascender a um segmento mais restrito de empresas “onde há maior liquidez”. Actualmente, as acções da organização evoluem no First Quotation Board, um segmento secundário.
“A principal vantagem de estar na bolsa é a visibilidade obtida”, considera o executivo depois de dizer que já aprendeu muito com a experiência da Ynvisible. Além disso, considera que a entrada em bolsa traz o benefício de acelerar os processos de produção e colocação de produtos no mercado.
“Tivemos a sorte de poder estar os últimos quatro anos a desenvolver tecnologia sem a revelarmos ao mercado”, afirma. Agora parece ter chegado a altura de colocar essa tecnologia sob a forma de produtos.
O responsável considera que a empresa detém hoje um património de tecnologias patenteadas com muito potencial: tanto na área dos ecrãs, onde poderá proporcionar preços mais competitivos, como no software de interfaces de“multi-sensing” especialmente e na já referida robótica.

Câmara não teme a possibilidade de a pressão do mercado levar ao decréscimo da qualidade da tecnologia da empresa. “Nestas áreas, ou se consegue a certificação ou não se consegue”, argumenta.

E não arrisca que nas empresas do grupo, a serendipidade – como aptidão ou disponibilidade de descobrir ou ter ideias por acaso – deixe de ter espaço e tempo para existir. “Para uma empresa prevalecer, hoje dia, tem de haver nela serendipidade. As organizações demasiado focadas [em objectivos ou estratégias] acabam por desaparecer”.

Para rematar a questão, o CEO sublinha que a YDreams “não se baseia em marketing e vendas, mas sim em conhecimento”. Reflexo dessa filosofia é uma certa separação entre as forças comerciais e as de investigação, existente no grupo, segundo o responsável.

Apesar desta ideia, defende que a investigação e desenvolvimento como um todo na Europa tem de ser drasticamente alterada. “Não faz sentido estar três a quatro anos a desenvolver alguma coisa, muitas vezes para nada”, explica. Tem de haver um ritmo muito maior, na sua visão, porque a tecnologia rapidamente fica desenquadrada da realidade do mercado.




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