A grande investigação das pequenas coisas

Nanotecnologia e RFID são áreas de investigação com algum sucesso em Portugal.

Portugal está acima da média nas entidades sem fins lucrativos que se dedicam à investigação e desenvolvimento (I&D), afirma António Vieira, do CeNTI, uma destas organizações dedicadas à investigação das nanotecnologias e que em 2009, com 27 investigadores, conseguiu uma patente por cada três investigadores, embora pertençam “às empresas com quem trabalhamos”.
Segundo declarações deste responsável no recente 2º Congresso Nacional da Propriedade Intelectual, desde 2006 que as patentes europeias “estagnaram” mas subiram em Portugal. No caso da nanotecnologia, foram registadas 14 patentes num campeonato que é actualmente liderado pelo centro nacional de investigação do Japão, pelas empresas L’Óreal, Samsung, HP e o centro nacional de investigação de França (CNRS). “Comparativamente, Portugal não está mal relativamente à Europa e ao mundo, apesar do pequeno número de registos”, refere António Vieira, que questiona sobre quem acaba depois por deter as patentes ou se é importante ter patentes deste tipo num país que não tem empresas de nanotecnologia para as explorar.
A dúvida instala-se porque a exploração dessas patentes “tem um custo-benefício muito alto” que “é de evitar”. Até porque as alternativas ou “direcções” são duas: explorá-las com grandes empresas industriais já estabelecidas ou com “start-ups” focadas na alta tecnologia para, em ambos os casos, levar os produtos patenteados para o mercado e obter retorno do elevado valor investido.
Este retorno é complicado também na nanomedicina, explicou Rogério Gaspar, da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. Sendo uma área de investigação já com 30 anos, os métodos de avaliação de sucesso no mercado estão mais definidos. “De 100 medicamentos testados, só cinco chegam ao mercado”, pelo que o “impacto económico” decorre na investigação e “é enorme”, explicando assim porque apenas uma empresa nacional é salientada neste tipo de sucesso: “temos a Bial, ponto”. Esta “teve uma molécula que teve sucesso, sem ter nove que foram para o lixo”.
Um novo medicamento demora 10 anos de investimento, com um custo de 1500 a 2000 milhões de dólares “para empresas que já estão no ‘pipeline’ do sector”, lembrando que o retorno também é de muitos milhões de dólares.
Rogério Gaspar considera ainda que a aposta nacional se deve dirigir para outras áreas onde se podem afirmar algumas empresas e centros de investigação com competência internacional (e inseridos em consórcios de investigação respeitados), originados ainda nos anos 80 do século passado.
De competência e inovação aplicada fala Francisco Teixeira e Melo, da Creativesystems, sobre sistemas de identificação por rádiofrequência (RFID) já a funcionar no mercado.
Posicionada nos RFID passivos – por contraponto aos activos como a Via Verde, que emitem sinais para interacção – a  Creativesystems tem desenvolvido projectos inovadores para empresas como a Vicaima, Throttleman ou Fly London em Lisboa.
Neste último caso, com a SurfacesLab (consórcio com a Vicaima) e a WOW Systems, desenvolveu uma solução interactiva em que “todos os artigos expostos na loja (calçado, vestuário, acessórios) possuem uma etiqueta RFID UHF (equipadas com um chip electrónico) no qual é armazenada toda a informação sobre o respectivo artigo. As etiquetas RFID UHF são fornecidas e codificadas pela Avery Dennison através do seu reconhecido sistema de commissioning garantindo a qualidade e nível de serviço exigidos pela Fly London”.
Ainda segundo o comunicado da empresa, “esta tecnologia inovadora traz valor à loja Fly London e aos seus clientes em dois níveis distintos mas complementares: optimização logística e interactividade com o cliente. A optimização logística tira partido da tecnologia RFID nos processos de recepção de mercadoria, inventário e anti-furto. A integração total da logística da loja através do RFID permite o aumento do nível de serviço ao cliente, através de optimização dos processos de reposição, e a optimização dos níveis de stock necessários na loja. Do ponto de vista de interactividade, a solução permite que um cliente experimente um produto na loja e veja a sua imagem projectada em tempo real num ecrã que o coloca de imediato num cenário interactivo e virtual das ruas de Londres, Tóquio ou Nova Iorque”.
Francisco Melo acredita que este tipo de projectos com o RFID “valoriza e diferencia a oferta e permite inúmeras novas oportunidades”. Em declarações ao Computerworld, explicou que o problema do detentor das bases deste tipo de dados está ainda por decidir, nomeadamente quando a interacção pode ser efectuada por telemóvel – com identificação do seu proprietário. As operadoras de telecomunicações móveis querem ficar com os dados, pelo potencial comercial que eles representam, mas o assunto não é pacífico.


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