“Smartbook pode sacudir o mercado e obrigar Microsoft a mexer nos preços”

A estratégia da Toshiba passa por várias frentes (portáteis, televisões e até lâmpadas LED), explica em entrevista João Amaral, director-geral da Toshiba Portugal.

O mercado de portáteis está cada vez “comoditizado” e face à redução do potencial de lucro, a Toshiba procura reagir de várias maneiras. João Amaral avança que a organização equaciona apostar até no mercado de lâmpadas LED. E depois de ter entrado no universo das televisões, onde tem grandes ambições, vai reformular a estratégia no mercado dos portáteis. Afinal, ainda representam 90% da facturação da empresa em Portugal.

Computerworld – Que balanço faz do ano fiscal de 2009 (que terminou em Março deste ano)?
João Amaral –
Em Abril de 2009, começámos a trabalhar a área de televisão. Tínhamos o objectivo de chegar aos 3% de quota de mercado em 2011 mas já conseguimos isso no início de 2010. Por isso, já temos um novo objectivo para este ano que é chegar aos 5%.
A divisão de electrónica de consumo, onde se integram as televisões, representa 10% da facturação da Toshiba, cujo volume de negócios em 2009 foi de 124 milhões de euros.
Houve um decréscimo na facturação dos computadores devido ao comportamento ao nível de preços dos PC. No entanto, a facturação realizada nas televisões acabou por compensar, tal como a área dos opcionais – inclui malas, discos externos, memórias, câmaras de vídeo – e negócio de filiados – inclui software da Google e acessórios ou componentes essenciais para o relacionamento com o cliente.

CW – E quanto ao negócio dos portáteis, como tem evoluído?
JA
– Os portáteis representam 90% da facturação. Apesar de também estarmos a vender [leitores de] DVD, apercebemo-nos de que não têm futuro, e também defendemos que a televisão vai transformar-se num computador, embora não pessoal, onde se usufrui de conteúdos distribuídos digitalmente.
Hoje, os distribuidores de conteúdos não estão bem definidos: podem ser os operadores e não precisam de ser os produtores [mas] alguém que garanta uma distribuição universal de conteúdos.

CW – E a Toshiba quer estar onde? Abandonou o foco na mobilidade?
JA
– Continuamos focados na mobilidade. Já temos televisão no portátil. Para nós, a televisão vai congregar consola, a televisão e descodificador de televisão por cabo. Deixaremos de fazer zapping e escolheremos mesmo o que queremos ver, sem esperar pelo fim dos anúncios (que talvez passem só numa coluna ao lado).

CW – Voltando aos portáteis, que análise faz da evolução do mercado português no ano passado?
JA –
A IDC diz que o mercado cresceu 11,7%. A Toshiba obteve uma quota de 20% (a segunda maior depois da JP Sá Couto) e um crescimento de 6,7%.
Na verdade, numa análise que fizemos sem contar com as vendas dos programas do Governo, o mercado caiu 20%, em número de máquinas.
A Toshiba cresceu nos dois cenários. Chegámos a prevenir a IDC de que o mercado não estava a crescer, fora do mercado da educação. No primeiro trimestre de 2010, confirmou-se isso.

CW – E o preço dos portáteis está a cair quanto?
JA
– Caíram 21% e nós mencionávamos que anualmente os preços estavam a decrescer entre 15 e 17%. Com o lançamento dos netbooks, o decréscimo ainda foi maior. Houve atenuantes como o lançamento do Windows 7 mas, em 2009, tivémos o primeiro ano do cenário “good enough”, em que o preço  é o principal factor de compra.

CW – Qual foi a repartição entre segmento doméstico e empresarial?
JA
– Nós representamos quase 50% da facturação do portáteis para empresas. No nosso volume de negócio isso representa 30%. O consumo é o restante. Mas cada vez o profissional vai adquirir o seu aparelho e o vai colocar ao serviço da empresa. E o que a empresa vai fornecer é um acesso a uma página Web onde poderá registar as encomendas, facturação e tudo o mais.

CW – Quanto representam os netbooks na vossa facturação?
JA
–  Representam 20% das unidades vendidas. Em facturação, é menos do que isso porque o preço médio é mais baixo.

CW – Neste cenário, o que pretendem fazer?
JA
– Com uma estrutura idêntica, juntámos a televisão. Tivémos de montar uma estrutura de pós-venda para as televisões, apenas duplicando o atendimento telefónico. E queremos manter a relação constante com o cliente – podemos estar mais atentos ao desempenho do PC e assim gerar negócio vendendo melhorias nas máquinas.
Depois, sabemos que o mundo está em crise mas as TI são uma solução para a resolver e o aparelho administrativo vai ter de se modernizar e ter menos gente.
Além disso, vamos lançar uma novidade ainda este ano com os “smartbooks”, equipamento com sistema operativo de telemóvel.
Está enquadrado num cenário de simplificação dos equipamentos – os portáteis hoje são muito complexos, com muitas funcionalidades e a maioria dos utilizadores quer funcionalidades mínimas. Vamos usar processadores mais fracos mas mais económicos no consumo energético, com sistemas operativos mais simples, com capacidade para usar aplicações à distância e aceder à Internet.

CW – Quando será lançado o produto?
JA
– Está previsto para o final do terceiro trimestre ou para o quarto. Vai haver primeiro uma versão em formato tradicional e outra que funcionará como um tablet.

CW – Que peso poderá atingir no vosso negócio?
JA
– Os smartbooks deverão substituir os netbooks, os quais deverão desaparecer juntando-se aos notebooks. O smartbook será o dispositivo intermédio entre telemóvel e portátil. Será muito simples de usar, tão simples como um telemóvel, e qualquer pessoa deverá saber usá-lo.

CW – Que outras características terão?
JA
– Ligar-se-á rapidamente, terá memória flash, com uma CPU capaz de proporcionar uma autonomia de um dia. Não será um dispositivo de produção. Alguns modelos terão só Wi-Fi e outros também 3G.

CW – Que outras formas serão adoptadas para reagir ao impacto dos netbooks?
JA
– Vamos baixar os preços de alguns equipamentos com características superiores, como os Quosmio e os Portegè, para preços em torno dos 899, 999, 1000 euros.

CW – E a rentabilidade do negócio dos portáteis vai manter-se?
JA
– A margem de lucro vai reduzir-se com a comoditização. Vamos vender mais barato produtos que estariam eventualmente demasiado caros e vamos lançar, na baixa gama, produtos capazes de dar margem, de forma a suportarem a quebra de preço dos outros.

CW – Na gama baixa, também esperam uma margem interessante?
JA
– Sim, usufruindo da poupança de custos quando equipamos as nossas máquinas com processadores de telemóvel mais baratos embora mais fracos, além de aproveitarmos os sistemas operativos Linux.
O smartbook vai ter um preço mais baixo, ou dentro do mesmo nível, mas assegurará maior rentabilidade. Os netbooks não nos dão rentabilidade nenhuma, dão-nos prejuízo.
O Linux não vingou até ao momento em que surge o Android, suportado por uma empresa, sem cobrar o que outras cobram e garantindo uma plataforma de produtividade.
A Microsoft está preocupada com o sistema operativo para telemóveis mas não está preocupada com este segmento. Continua a achar que pode vender netbooks com Windows 7 e com Atom da Intel. Contudo, isso não é um negócio que interesse para os fabricantes. A alternativa smartbook pode sacudir o mercado porque vai mexer com o ecossistema e obriga a Microsoft a mexer nos preços.

CW – Mas nos portáteis tradicionais quais serão os parceiros privilegiados da Toshiba?
JA
– A Microsoft e a Intel .

CW – Há também espaço para os operadores de comunicações?
– Sim, sem dúvida… Até porque uma das oportunidades que vamos ter é a subsidiação. E esta passa pelos operadores quando se assumirem como distribuidores de conteúdos. Vão dar aos clientes um meio de acesso aos conteúdos de outras empresas que ajudam a distribuir. O smartbook vai ajudar a criar esse canal.

CW – O smartbook terá pendor mais empresarial ou mais doméstico?
JA
– O nosso enfoque será o sector doméstico. Virão com aplicações como o Chrome, possibilidade de aceder ao Google Docs, ao Gmail, ao Twitter. À medida que o utilizador ficar mais sofisticado e a plataforma tiver sucesso, esta deverá evoluir também.

CW – Haverá uma plataforma de disponibilização de aplicações específicas para smartbooks?
JA
– Não. Será a mesma existente para os sistemas Android.

CW – Equacionam vender os vossos telemóveis em Portugal?
JA
– Eu estou muito interessado em ter telemóveis mas não é estratégico e tem de haver interesse da casa-mãe e procura.

Parte 2 : “Mantendo a relação com o cliente temos menos prejuízo no canal”

Parte 3: “A Toshiba é uma empresa tão portuguesa como a JP Sá Couto”




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