“Cloud computing não tenta revolucionar o mercado com mais uma ‘tecnologia’ imatura”

O presidente do EuroCloud Portugal, Paulo Calçada, no ponto de partida da segunda edição do evento anual sobre o referido modelo de computação revela que a associação está a promover uma nuvem para a rede RCTS, com a FCCN.

A aposta no modelo de “cloud computing” em Portugal parece ter convencido os mais os pioneiros, e tem já manifestações interessantes, na perspectiva de Paulo Calçada, presidente do EuroCloud Portugal. Em entrevista, o responsável revela que a organização está a promover com a FCCN, a constituição de um conjunto de recursos de computação, a serem disponibilizados num modelo de IaaS, de Infraestructure as a Service. Esta servirá a rede académica nacional, aproveitando também os recursos de grid computing, disponibilizados já hoje num modelo de Platform as a Service (PaaS). Como lembra o dirigente, o cloud computing não vem revolucionar o mercado pela introdução de uma tecnologia por comprovar. Mais importante será a abordagem de “articulação e integração entre um conjunto de tecnologias já existentes”…
 

Computerworld – Quais vão ser as principais ideias a enquadrar o evento?
Paulo Calçada – Demonstrar que o cloud computing é uma realidade e, em particular, no mercado nacional, capaz de ajudar as empresas a agilizar as suas estruturas, tornando-as mais elásticas e seguras, e ainda, ajudar a optimizar investimentos com a ajuda das TIC. Mostrar ainda que as empresas portuguesas, fornecedoras de produtos e serviços nas áreas das TIC são capazes de se afirmar neste mercado. Depois, salientar o papel das parcerias e a importância das redes de cooperação europeias. Destacar ainda o papel importante da colaboração entre centros de investigação e desenvolvimento das IES (Instituições de Ensino superior) e as empresas, numa óptica de transferência de conhecimento e numa óptica de transformar os medos e dúvidas trazidas pelo cloud computing, em oportunidades de negócio e de desenvolvimento de projectos.
CW – Na sua opinião, como se caracteriza a realidade portuguesa de cloud computing?

PC – Em Portugal tradicionalmente somos muito receptivos a tecnologias e modelos de negócios disruptivos, e o caso do cloud computing não é excepção. Por exemplo, a Associação EuroCloud Portugal tem um plano de trabalho que supera em muito o dos nossos parceiros, fruto do trabalho que já vínhamos a desenvolver no Politécnico do Porto através do projecto cloudVIews.Org. Estamos a organizar a segunda edição da nossa conferência, e temos ainda um conjunto de projectos muito bem recebidos pelos restantes parceiros. É claro que à escala europeia temos menos quantidade de empresas a apresentar projectos, mas temos ao mesmo tempo, empresas de referência como a Primavera e a PHC a apresentarem produtos de SaaS muito maduros e muito agressivos do ponto de vista de funcionalidades e de modelo. Depois temos ainda exemplos como o da Tranquilidade Seguros.

CWConcorda que ainda existe um cepticismo relevante quanto ao modelo, visto como mais uma buzzword da indústria?

PC – O rótulo de “buzzword do dia” tem sempre uma carga negativa difícil de se eliminar. Aparece com qualquer novo modelo ou tecnológica que tenta romper com os modelos existentes e nesse sentido não devemos dramatizar o aparecimento desse rótulo. Esta questão ainda se torna mais evidente quando se tentam oferecer soluções para problemas que outras já tentam resolver em sucesso. Na nossa visão, é fundamental que, em primeiro lugar, se enquadre devidamente a emergência do cloud computing. É necessário salientar que actualmente, fruto de evolução tecnológica e de maior capacidade de integração, em áreas como a virtualização, a identidade digital, as redes de nova geração, etc, em que é mais fácil para o cloud computing ter sucesso e cumprir com os objectivos a que se propõe. É ainda preciso destacar que o cloud computing é um modelo de negócio e de disponibilização de serviços, e que nesse sentido não tenta revolucionar o mercado com mais uma “tecnologia” potencialmente imatura, em vez disso, aposta na articulação e integração entre um conjunto de tecnologias já existentes.

CW – Haverá espaço para operadores portugueses relevantes no espaço ibérico?

PC -Temos um conjunto significativo de empresas em inicio de carreira que estão a apresentar produtos bastante inovadores. Com o objectivo de ajudar estas empresas a mostrarem-se no mercado europeu, a Associação EuroCloud Portugal criou o primeiro fórum de oportunidades de negócio. “Eurocloud Portugal Call For Business”, neste fórum mais do que premiar soluções ou empresas, pretendemos criar condições para que se possam desenvolver parcerias, visando sobretudo o mercado europeu. Assim considero que há espaço para operadores portugueses não só no espaço Ibérico como além dele, mas para isso é necessário que as empresas portuguesas percam também alguma timidez, e desenhem as suas soluções de raiz com o objectivo de se internacionalizarem.

CW- Há alguma iniciativa de cloud computing para a administração pública em Portugal? Em que medida e com que características pode fazer sentido?

PC – Há um conjunto de projectos que talvez não se possa ainda etiquetar como cloud computing, no entanto há projectos de racionalização de recursos, aumento de elasticidade de estruturas, etc, que se encontram em desenvolvimento e que apesar de não se chamarem cloud computing pretendem solucionar os mesmos problemas. Nesta área, há ainda muito trabalho a fazer, nomeadamente na desmistificação das questões de segurança, ou ainda, da possibilidade de utilização do cloud computing num modelo privado ou híbrido, aumento do controlo e, em particular, potenciar a protecção de dados. Há ainda projectos, na área da interoperacionalidade, como é o caso da iniciativa adesenvolvido pela AMA, que são muito importantes para a área do SaaS: a interoperabilidade entre sistemas é fundamental para que se desenvolva um verdadeiro ecossistema cloud computing. Nele, as aplicações web, até agora a funcionar de forma separada e independente, passam a ter capacidades de comunicação e de partilha de informação de forma segura, salvaguardando sempre a privacidade e protecção de dados.

CW – Que papel pode o país ter no quadro internacional de cloud computing? Que oportunidades existem?

PC – Como referi, é importante que os medos e dúvidas que o cloud computing ainda apresenta sejam transformados em novas oportunidades, na área da segurança, protecção de dados, medição da qualidade de serviços, geolocalização, costumização de soluções ,etc. Em Portugal existem as competências técnicas e de empreendedorismo para surgirem soluções visando esses problemas. Existem ainda projectos, como são exemplo as redes de excelência apresentadas pelo CMUPortugal, que poderão potenciar ainda mais as nossas capacidades nessas áreas.

CW- Que papel pode ter o cloud computing na investigação científica? Haveria alguma vantagem em criar uma cloud para o meio universitário, de investigação e desenvolvimento?

PC – Bastante importante, nomeadamente, neste campo, a EuroCloud POrtugal encontra-se a promover junto da FCCN a criação de um projecto chamado [email protected] onde se pretende explorar a utilização do cloud computing dentro da rede académica nacional. Na área científica, o modelo de partilha de recursos mais recorrente é o GRID Computing. Apesar de este modelo tentar ser abrangente e, em certa medida, ser tão transversal como o cloud computing, devido a alguma imaturidade tecnológica e aos modelos de negócio propostos – demasiado caros para consumo generalizado – o GRID passou a ser utilizado quase em exclusividade pela comunidade científica e recorrendo a financiamento público e a grandes projectos. Devido à sua evolução, neste momento o GRID Computing é visto por muitos como sendo a PaaS (Platform as a service) para a e-Science, e neste sentido e de nosso interesse que a plataforma [email protected], seja uma plataforma de partilha de recursos na área da infra-estrutura (IaaS) capaz de suportar a utilização de recursos, como servidores web, bases de dados, etc, mas também capaz de suportar estruturas de computação distribuída e GRID, reduzindo assim os custos de manutenção e suporte, agilizamos as estrutura de aprovisionamento. etc.

CW – Um estudo do Ponemon Institute indica que as empresas europeias estão mais renitentes em aderir ao novo modelo de cloud computing? Como acha que deve ser resolvido este problema?

PC – Em primeiro lugar espero que redes como a EuroCloud consigam de forma articulada desmistificar as dúvidas e receios. Em seguida, julgo que é imperativo que surjam mais operadores europeus. O mercado é hoje muito ocupado por empresas de fora da Europa, e isso é também um entrave. Na Europa, devido à nossa característica heterogénea, e em particular a multiplicidade linguística, há a necessidade de os operadores serem capazes de oferecer soluções mais passíveis de costumização e de integração com a realidade local. É necessário que os fabricantes, mesmo os maiores como o Google, Microsoft, EMC ou SalesForce, tenham presença local para ajudarem a ajustar as soluções que oferecem. Isso já acontece com fabricantes mais tradicionais, mas ainda não com os fabricantes mais recentes. Na minha óptica, tudo isto são razões para as empresas europeias se mostrem um pouco menos receptivas.




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