Operadores querem tecnologia NFC nos telemóveis

Duas formas concorrentes de equipar telefones móveis com tecnologia NFC, que permite transformar os dispositivos em terminais de pagamentos seguros e de compra de bilhetes de transporte, foram exibidas esta semana aos visitantes da feira “Cartes”, realizada em Paris.

Parte da tecnologia que permitirá esta transformação já está a ser amplamente utilizada. Cartões inteligentes sem contactos – etiquetas RFID do tamanho de cartões de crédito com um chip de encriptação integrado para autenticação e armazenamento seguro de dados – estão já a ser utilizados em sistemas de controlo de acessos, bilhetes de transportes públicos e sistemas de pagamento electrónico (como o Visa Paywave), sendo que os mesmos chips podem ser usados para adicionar etiquetas inteligentes a objectos ou edifícios, permitindo clientes de lojas ou turistas obter informações sobre os mesmos. Os chips são alimentados por um sinal de rádio emitido pelo leitor.
Ma qualquer pessoa que utilize esta tecnologia para múltiplas aplicações depressa verá a sua carteira inundada de cartões de plástico. Uma forma de impedir que isso aconteça é colocar todas as aplicações num único chip de smartcard embutido num telemóvel, que por sua vez é ligado a uma pequena antena.
Uma vantagem de combinar um telemóvel com um smartcard é que a mesma antena pode comunicar com outros chips de cartões inteligentes, como por exemplo para permitir ao utilizador visualizar no ecrã do seu telefone o saldo do seu cartão de pagamento, ou informações acerca de um objecto etiquetado. Ao combinar esta tecnologia NFC (Near-Field Communications) com ligações de dados celulares, o telemóvel pode também ser utilizado para renovar online um passe de transportes públicos e carregar essa informação no smartcard.
Embora a tecnologia NFC já seja um sucesso no Japão, onde conta com o forte apoio do operador de redes móveis NTT DoCoMo, as tentativas realizadas no sentido de a fazer passar da fase piloto em França e noutros países da Europa têm sido frustradas pela renitência dos operadores de rede, bancos, lojas e autoridades de trânsito, com cada uma delas à espera que as outras dêem o primeiro passo.
São dois os principais problemas: por um lado, os bancos e as autoridades de trânsito recusam-se a carregar as suas aplicações nos chips de terceiros, a menos que a sua segurança e integridade possam ser salvaguardadas; por outro, as lojas não estão dispostas a implementar as infra-estruturas necessárias para a instalação de leitores e aplicações, a menos que lhes seja garantido que uma grande parte dos seus clientes usará a tecnologia.

As duas propostas que combinam tecnologia NFC de smartcards e telemóveis apresentadas no Cartes alegam ter a solução para estes problemas.
O Cityzi, proposto pela French Mobile Contactless Association (AFSCM), baseia-se numa ligação do SIM (Subscriber Identity Module), um pequeno smartcard já presente em todos os telemóveis GSM (Global System for Mobile Communications), aos circuitos NFC integrados no chassis do dispositivo. A segurança e fiabilidade dos chips existentes nos smartcards são garantidas pelos operadores móveis que os emitem, e todas as aplicações estarão sujeitas a aprovação prévia antes de serem instalados nos chips, como conta Bruno Prexl, responsável da associação. Contudo, existem penas ainda dois telefones GSM compatíveis com NFC no mercado, o Nokia 6216 e o Samsung Player One NFC Version.
Os operadores de redes móveis franceses Orange, SFR e Bouygues Telecom, todos membros da AFSCM, iniciaram o desenvolvimento de standards comuns para sistemas NFC baseados em SIM no ano 2006, tendo até ao momento conseguido realizar experiências com um pequeno número de utilizadores e lojas nas cidades de Caen e Estrasburgo.
Depois destas experiências, os operadores planeiam iniciar um projecto de maiores dimensões no segundo trimestre de 2010 em Nice, onde colocarão à venda telemóveis NFC num grupo seleccionado de lojas. A ideia é perceber se existe interesse suficiente para que a tecnologia NFC seja comercialmente viável.
Para Bruno Prexl, o projecto será um sucesso se conseguirem persuadir três mil dos cerca de 500 mil habitantes de Nice a comprarem um telemóvel NFC nos meses seguintes ao arranque do projecto. Contudo, depois de se retirar da equação os que não prescindem de iPhone ou BlackBerry e os que não estão simplesmente interessados em trocar o seu telemóvel actual, conclui-se que a meta deste grupo de operadores pode ser algo ambiciosa demais.
Entretanto, operadores de outros países estão também a manifestar interesse na abordagem da AFSCM, mas, de acordo com Bruno Prexl, é importante que percebam que, se o objectivo é chegar a um grupo elevado de clientes, os operadores terão obrigatoriamente que trabalhar em parceria.
Contudo, não é possível ter a pretensão de chegar a um grupo elevado de clientes – 30 por cento ou mais – quando apenas dois das centenas de modelos de telemóveis GSM existentes no mercado são compatíveis com NFC, como destaca Franck Edme, gestor de desenvolvimento de negócio da Twinlinx. Na sua opinião, a melhor abordagem é aproveitar as ligações Bluetooth existentes em cerca de 70 por cento dos telemóveis e usá-las para fazer o telefone comunicar com um dispositivo NFC externo.
Foi isto mesmo que a Twinlinx, a autora da segunda proposta apresentada no Cartes, fez com o MyMax, um pequeno autocolante, de apenas 38 por 29 milímetros, que contém um rádio Bluetooth, uma minúscula bateria, alguns circuitos NFC e um ou mais chips de smartcards, que pode facilmente ser instalado em qualquer telemóvel, resolvendo assim o problema da adopção. Para realizar pagamentos ou utilizar os transportes públicos, basta passar o telemóvel onde o autocolante está posto em frente do respectivo leitor.
Para tarefas em que é necessária a utilização do ecrã do telemóvel ou de uma ligação celular, tais como adicionar um novo bilhete de transporte ao cartão ou utilizar o autocolante como leitor de cartões, o dispositivo Bluetooth deve estar sempre ligado. A bateria do autocolante dura o tempo suficiente para se poderem realizar algumas centenas de transacções, de acordo com a Twinlinx, sendo depois recarregada utilizando os mesmos leitores usados para validar os cartões.
Os primeiros autocolantes criados têm uma espessura de cerca de 2,5 milímetros e custarão entre 15 e 20 euros aos que estiverem dispostos a comprar mais de 10 mil, quando estiverem disponíveis no mercado, no próximo ano. Em 2011, Franck Edme prevê que o autocolante passe a ter uma espessura inferior a dois milímetros e um custo à volta dos 10 euros, para quantidades acima dos 100 mil.
Adicionar bilhetes a um cartão de transporte ou utilizar o autocolante como um leitor de cartões implica a utilização de uma aplicação especial instalada no telemóvel. A Twinlinx já desenvolveu os drivers necessários para os telefones baseados em Windows Mobile e Java, mas caberá aos bancos e às autoridades de transporte distribuir os autocolantes e instalar e desenvolver as aplicações necessárias aos seus clientes, o que levanta, uma vez mais, um novo obstáculo à adopção: ninguém quererá instalar no seu telemóvel um monte de autocolantes incompatíveis entre si e a Twinlinx não dá quaisquer garantias quanto à segurança e integridade de aplicações individuais.
Não faria, assim, sentido que ambas as equipas, Twinlinx e AFSCM, juntassem esforços no sentido de levar os seus planos adiante? Bruno Prexl diz que não: “demorámos três anos a fazer chegar a tecnologia e os processos ao ponto onde estamos hoje e isso implicaria fazer uma reengenharia de todos os processos para que se pudesse gerir a tecnologia deles, que é totalmente diferente da nossa”.




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