“Na segunda fase do eGovernment é preciso promover compromisso dos cidadãos”

Em entrevista ao Computerworld, o professor da INSEAD, Soumitra Dutta, explica que as empresas têm de seguir uma estratégia de maior transparência, colaboração e diálogo. Na mesma linha aponta o que a segunda geração de iniciativas de eGovernment tem de ser: um suporte para uma maior participação e compromisso dos cidadãos.

CW – Como é que as empresas podem preparar-se para os desafios ? Quais são as soluções?

Soumitra Dutta – Bom, definitivamente, a solução não está na tecnologia. Passa por uma liderança diferente, baseada numa cultura capaz de promover a adaptação à actual situação. As empresas têm de ser mais abertas, apostar na transparência e no diálogo. Portanto trata-se de uma questão comportamental.

CW – Esse tipo de discurso sobre transparência e abertura faz lembrar o que se dizia dos novos modelos de negócios no início da Nova Economia. Mais tarde verificou-se que não tinham sustentação. O que é diferente agora?

SD – Vários modelos da Nova Economia tiveram sucesso. Além disso, há a queda de muitas indústrias como a da música e dos média. A primeira não conseguiu reagir, e no caso da segunda há uma contradição, porque nunca como agora foi necessário informação. É curioso que as organizações de media não estejam a beneficiar dessa evolução. Simplesmente ainda não conseguiram adaptar-se à nova realidade.

CW – Como é que o sector dos média podem reagir a este cenário?

SD –   As empresas de média estão a demorar muito tempo a adaptar-se à necessidade de disponibilizar a informação onde e quando os leitores pretendem. Continuam com o mesmo modelo e precisam de mudar. Precisam de associar informação aos dados sobre a localização do leitor, a sobre os seus hábitos. Os jornais tomaram os leitores por garantidos e não evoluíram com eles.

CW – Que desafios traz o actual cenário para a estratégia de e-Government de um país?

SD – As iniciativas de eGovernment tornaram-se muito populares para tornar a governação mais eficiente, ao colocar uma série de processos on-line. Essa foi uma primeira fase da implementação de uma estratégia de eGovernment. Hoje é necessário pensar-se numa segunda fase, na qual é preciso promover uma maior participação e compromisso dos cidadãos. É uma forma de conseguir melhor governação. Actualmente os cidadãos não participam ou não se comprometem na construção de uma lei, mas isso já é possível hoje. Simplesmente, as estruturas demonstram resistências à partilha de poder.
Na Estónia há um bom exemplo de mudança, com o acesso à Internet a ser garantido como um direito individual na constituição. Trata-se de uma garantia importante, porque as pessoas não querem viver num estado de estilo soviético, no qual a informação seria sonegada. Este direito é visto como a última protecção contra isso.


CW – Como se pode gerir a propriedade intelectual num cenário como aquele que descreveu?
 SD –
Hoje há muita vontade de partilhar. Algumas entidades partilham a  propriedade toda, enquanto outras apenas uma parte. Há a comunidade Creative Commons e outros sistemas. Mas o grande desafio será perceber como fazer cumprir os compromissos e como taxar a utilização de conteúdos. A Google está a desenvolver uma sistema de etiquetagem virtual, num sistema de identificação de conteúdos. A  empresa deverá convidar as organizações de media a introduzir numa base de dados, informação sobre os conteúdos que produzem, para serem automaticamente detectados quando carregados. Assim, quando isso acontecer, e a Google realize alguma receita, poderá retribuir o produto com parte da receita.
Mas ainda está em versão beta e é preciso desenvolver mais tecnologia para fazer cumprir os direitos de autor.

CW – Em que medida as escolas e universidades têm de ser diferentes?

SD –  Não devem colocar tanto ênfase na capacidade de memorização e na memória de longo prazo. Há uma série de aptidões muito mais interessantes para a formação das pessoas. Por exemplo: como colaborar  mais e melhor, como colaborar com os chineses? Os professores precisam de colocar os estudantes no centro da sua actividade. E abandonar a ideia de que os docentes têm sempre razão.  A Finlândia tem um sistema completamente flexível, no qual os estudantes podem até escolher o seu próprio currículo escolar.

CW – E a formação nas empresas?

SD – A formação nas organizações tem de ser pensada da mesma forma. Mas claro, adaptada ao contexto da empresa e dos seus objectivos.

CW – Que tecnologias vão possibilitar uma vantagem competitiva no futuro?
SD –
As tecnologias capazes de sustentar a comunicação entre o ser humano e as máquinas. Estamos ainda a dez ou vinte anos de distância mas será uma revolução. Já podemos antecipar um pouco do potencial do que vai acontecer se nos lembrarmos dos sistemas RFID.




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