Não há sucesso no eGov sem Corporate Governance

Sem um modelo de Corporate Governance dos SI a estratégia de eGovernment poderá não ter sucesso. Liderança e formação das equipas dirigentes são também duas importantes condições

Pense numa folha de papel A4. Agora pense que é um analista, um consultor ou um conselheiro estratégico … e desafie o presidente do Conselho de Administração (CA) da empresa ou o administrador a quem foi atribuído o pelouro da informática, se consegue traduzir e explicar nessa folha de papel A4 o que são e como estão organizados os Sistemas de Informação da empresa.


 


Experimente lançar o mesmo desafio à Administração Pública, o que, neste caso, terá que ser ao Governo, em particular, ao Conselho de Ministro e ao CEO desse CM, que é o primeiro-ministro?


 


Acham que conseguem? No caso da AP, acrescente uma pergunta: quem “governa os Sistemas de Informação da AP”?


 


É esta, a pergunta formulado por José Manuel Tribolet, docente do Instituto Superior Técnico, presidente do INESC e “desde que vim dos EUA, que faço uma actividade a que chamo de assessoria executiva em SI para grandes empresas.


 


A minha função principal é ajudar os decisores destas empresas a pensarem o sistema de governo dos SI das suas organizações, de forma a casarem com o seu negócio e estratégia”.


 


Na opinião de JMT, este é o “Calcanhar de Aquiles” da estratégia de eGovernment do executivo liderado por Durão Barroso.


 


Para este responsável, “a questão do Governance Information Systems é tópico número 1 que neste momento falta no pensamento do Governo português sobre a reforma da Administração Pública, que considero um requisito estratégico e um imperativo de sobrevivência de Portugal como país. Aliás já transmite isto ao primeiro-ministro.


 


Neste momento, o Governo lançou uma estratégia para a modernização da AP, que está bem pensada, está articulada e as iniciativas são boas.


 


Só falta o essencial, sem o qual não vai haver sucesso na rentabilidade dos esforços bem feitos que estão a ser realizados: haver um Corporate Governance dos Sistemas de Informação da Administração Pública2.


 


E acrescenta: “E não tem nada a ver com o que a UMIC (Unidade de Missão Inovação e Conhecimento) anda a desenvolver. As iniciativas são boas e a estratégia é a correcta.


 


Mas a grande questão é que o Executivo, como acontece na maior das empresas portuguesas, não tem um pensamento sobre o modelo de governo para os SI da AP.


 


Não existe um modelo de governação sobre as finanças públicas? Existe! Há uma contabilidade pública.


 


E o que é a contabilidade pública? É o ordenamento informacional da forma como funcionam os processos financeiros.


 


Pergunto: o que é que há de equivalente ao POC nos sistemas de informação da AP? Não existe. Não há nenhum plano do ordenamento informacional do país. E isto não tem nada a ver com planos directores de informática”.


 


Na opinião de JMT, isto só acontece por uma razão. “O grande problema é que este Corporate Governance dos SI da AP está no Conselho de Ministros, e o CM não tem a mínima noção do que estamos a falar.


 


Hoje há uma profunda iletracia funcional em sistemas de informação dos Conselhos de Administração e das estruturas de poder nas organizações nacionais mas também internacionais”.


 


Já sugeri ao Governo que nós podemos dar um curso de dois dias, à porta fechada e sem telemóveis, a todos os membros os ministros e secretários de Estado.


 


Acham que estou a brincar. Se me tivesse um nome conhecido e estrangeiro… Também já expliquei a responsáveis do Governo português, que o Estado funcionaria muito melhor se metade a dois terços das bases de dados desaparecessem. São uma fonte gravíssima de confusão e de problemas.


 


O desafio da modernização da AP e da construção do eGov é como fazer intervenção urbana numa cidade antiga cheia de ruelas? Vai ter que destruir para depois poder construir. Não há outra hipótese!


 


O que se pode aproveitar? As pessoas e o conhecimento. Se se joga fora as pessoas não há mudança.


 


No final dos anos 80, nos EUA, os processos de reengenharia esqueceram-se das pessoas. Falharam!”, lembra.


 


Na opinião de JMT, a formação dos membros do Governo poderia ajudar a resolver dois problemas gravíssimos: a definição de um modelo de organização e de liderança dos SI da AP e era um contributo muito importante ao nível dos processos de funcionamento de toda a AP.


 


Apesar do papel das TI, JMT lembra que “a tecnologia não resolve problemas. Não há milagres informáticos.


 


Não é um qualquer sistema informático que vai resolver problemas profundos de organização e de posicionamento competitivo.


 


A maior parte das decisões que se tomam em SI em Portugal, é de administrações que não sabem o que querem e têm que fazer qualquer coisa e muitas vezes, fazem-no por modas.


 


Neste momento, estão-se a cortar e com prejuízo grave para a sua posição. Lá porque estavam a fazer mal, porque não sabiam, não podem parar de investir.


 


É preciso separar claramente o que é tecnologia – a “casa das máquinas”, hardware, software… – de sistemas de informação para suportar processos de negócio, organização, trabalho colaborativo, decisões…”.


 


No caso do AP, esta situação tende a agravar-se pela ausência de Corporate Governance e pelo facto de, na opinião de JMT, “termos ainda uma visão mecaniscista, que veio do século XIX, é a organização funcional, hierárquica, tipo exército, igreja romana ou Estado.


 


Há uma disfuncionalidade enorme entre o que as TI permite – e permitem mesmo – e a maneira como pensamos resolver os problemas. E não pensamos os problema em função dos processos via resultados.”.


 


Para o presidente do INESC, “a grande revolução que se deu no mundo dos negócios e no trabalho a partir da década de 90 foi o início da enorme transformação que é passar de organizações mecanicistas, hierárquicas e funcionais, para organizações com uma grande ênfase orientada aos processos e aos resultados finais”.


 


E na sua opinião, a tecnologia não é obstáculo. “Hoje, as pessoas quase que podem pensar nas soluções que entenderem que a tecnologia suporta”, afirma.


 


“Dou um exemplo, a função conservatória. Muito do que se passa nessa é olhar e validar informação.


 


E o que digo é que a maior parte das funções que aqui são realizadas, com pessoas e papéis, têm um processo padronizado em 99% dos casos.


 


Em vez do jurista, podia lá estar um agente de software, com a garantia de qualidade e do cumprimento da lei. Isto é possível fazer.


 


Qual é a tecnologia que resolve isto? Não é relevante.


 


O custo? Existem diferenças, mas depois, o que temos visto é que a maior parte dos sistemas não funciona! 75% ou mais do software que está instalado nas companhias não funciona. E não é lixo. É bom produto. Não casa é com o negócio.


 


E dou outro exemplo: se vou num caminho de cabras num Ford Focus, não passo a andar mais de pressa por passar a andar num Mazerati!


 


O que se passa é quando há um problema vai buscar-se uma solução técnica.


 


A solução não está a funcionar, mas a solução é comprar outra solução. E isto não pode continuar!”.


 


E conclui: Quem lida com SI deve ter a capacidade de fazer o alinhamento, a adequação, a proporcionalidade entre os meios postos à disposição e o seu uso efectivo ao serviço dos processo e dos objectivos da empresa.


 


Esta harmonia não se faz com marteladas tecnológicas. Ou seja, a informática é demasiado importante para ser deixada inteiramente aos informáticos”.


 




Deixe um comentário

O seu email não será publicado