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17-09-2008 15:58:49

1.    A SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E AS REVOLUÇÕES INDUSTRIAIS

Os americanos inventaram o conceito de “Auto Estradas da Informação” para se referirem às modernas redes de telecomunicações. Os europeus chamaram-lhe Sociedade da Informação que é contudo um conceito mais lato porque engloba também a indústria de conteúdos e não apenas as infraestruturas de telecomunicações.

A Sociedade da informação compreende então:
- AUTO-ESTRADAS: isto é, redes de banda larga, onde circula rapidamente a informação
- TRANSPORTADORES: isto é, serviços que facilitam o acesso à informação (bases de dados), a sua transmissão (correio electrónico) e o seu intercâmbio (vídeo inter-activo)
- MERCADORIAS: ou seja, novas aplicações instaladas nos sistemas
Do ponto de vista tecnológico a Sociedade da Informação constitui um aprofundamento das tecnologias electrónicas e da revolução digital da 3ª Revolução Industrial, mas do ponto de vista sócio-económico é muito mais do que isso. A Sociedade da Informação traz um novo modelo de desenvolvimento económico ao mesmo tempo que provoca profundas e extensas alterações nos comportamentos, nas atitudes e nos valores das estruturas sociais e políticas do nosso tempo.
O que a complementa em relação à época das Revoluções Industriais é o facto da evolução tecnológica não ficar confinada ao sector secundário mas atingir todos os sectores, do primário ao terciário, aliás de acordo com a tendência já vinda da 3ª Revolução Industrial, quando a informática não ficou confinada ao sector secundário.

Na Sociedade da Informação estamos a assistir crescentemente a uma “industrialização” do sector terciário dado que este, como é evidente na banca, nos seguros e na distribuição, está a utilizar cada vez as ferramentas da competitividade que o sector secundário já utilizava (tecnologias de informação, automação e robótica) e também se assiste a uma crescente ligação entre indústria e serviços, pois indústria nos dias de hoje deve ser definida como todo o complexo associado à manufactura dos bens e à produção dos serviços que lhe estão ligados (serviços a montante como a concepção, engenharia e desenvolvimento, e a jusante como
a distribuição, comercialização, serviço pós-venda). As ferramentas de competitividade, como as tecnologias da informação, aplicam-se a todos os sectores da actividade e não ficam confinadas ao sector secundário, como na época das Revoluções Industriais.
Há pois uma crescente convergência tecnológica entre os vários sectores da actividade. A evolução tecnológica não fica restrita ao sector industrial. Também chega ao sector primário (como é evidente por exemplo nos sistemas de rega computorizada) e ao sector terciário, banca, seguros, grande distribuição, onde a introdução das tecnologias da informação liberta mão de obra não qualificada, substituindo-a por máquinas e mão de obra qualificada (em menor volume que a não qualificada). Por exemplo, a grande distribuição não é mais do que a “industrialização” dum processo de mão de obra intensiva pouco qualificada típico do pequeno comércio, o qual é substituído por poucas unidades que combinam mais espaço e mais capital utilizando as tecnologias da informação e “lay outs” industriais.
Verifica-se assim uma decrescente desmaterialização da produção industrial, isto é, o peso das matérias-primas ou de componentes de carácter físico, no valor final dos produtos fabricados e vendidos, reduz-se face à crescente importância do componente intangível, resultante da incorporação de determinados serviços.
Teremos cada vez mais indústria ligeira contra indústria pesada, tecnologias descentralizadas contra processos massificados; produções magras (“lean production”) e eco-tecnologias em vez de industrias ineficientes e poluentes; sistemas integrados de gestão empresarial permitidos pelas “Auto-Estradas da Informação”.

 

2.    A SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO: A 4ª REVOLUÇÃO DA INFORMAÇÃO
Vimos a Sociedade da Informação pelo prisma das Revoluções Industriais. Vamos agora vê-la pela óptica da informação. Na história da humanidade tivemos várias revoluções da informação: a primeira foi a invenção da escrita 5000 ou 6000 anos antes de Cristo (AC) na Mesopotâmia; a segunda foi a invenção do livro escrito na China 1300 A.C. e 800 anos mais tarde na
Grécia; a terceira foi a invenção da impressão por Gutemberg entre 1450 e 1455.
Vamos então agora para a quarta revolução da informação – a Sociedade da Informação
Trata-se duma revolução que emana, como já vimos, do incessante avanço das tecnologias da informação e da sua há muito esperada convergência com as tecnologias de comunicação e com os “media” dando origem ao que alguns também chamam “economia em rede” ou “sociedade em rede”.
A revolução digital conduzida pela microelectrónica, optoelectrónica, multimédia, compressão digital de dados em pacotes de informação acelera a convergência entre as telecomunicações, os computadores e os “média”, uma das características mais marcantes da Sociedade da Informação.
Nesta novo modelo, as matérias prima estratégicas já não são mais o carvão e o petróleo mas a inteligência, a massa cinzenta e o domínio dos fluxos de informação.
Na Sociedade da Informação a aquisição, armazenamento, processamento, transmissão, distribuição e disseminação da informação é cada vez mais a questão central.  
Nasce uma poderosa indústria da informação e uma produção intensa de conteúdos para o multimédia. Nasce pois um novo sector de negócios – a indústria da informação – cuja área chave é a produção de conteúdos.
Em consonância com as tendências da Sociedade da Informação, a procura (e a produção) dos novos equipamentos encontrar-se-á cada vez mais associada quer à automatização das operações e aos processos de gestão e administração apoiados na informática quer às soluções que integrem os multimédia e os serviços avançados.
Neste contexto, também é importante distinguir entre sistemas de informação e sistemas informáticos. Com efeito:
•    Sistema de informação – Meio de transmitir informação de uma até outra unidade económica ou dentro da mesma entidade. O que é estratégico numa organização é desenhar os fluxos de informação de que necessitamos para gerir a organização ou o nosso negócio.
•    Tecnologias de informação / Sistemas informáticos – Plataforma física e tecnológica do sistema de informação.
Deve ser escolhida só depois de sabermos o que queremos em termos de sistema de informação. O sistema informático é apenas um meio, um instrumento para gerirmos o sistema de informação!
•    Informação – Transformação de dados em produto útil
Nós não consumimos dados, o que consumimos é informação! Logo, a informação é que tem valor económico e utilidade social. No fundo, os dados na era da informação são equivalentes às matérias-primas (“raw materials”) da era industrial.
Por fim, e mostrando mais uma vez quão importante é a informação no sistema económico, interessa referir que o conceito de assimetrias da informação tem permitido grandes desenvolvimentos na Teoria Económica, ao chamar a atenção para a importância dessas assimetrias na formulação de estratégias empresariais em mercados de concorrência imperfeita com a consequente criação de valor para os “players” que se aproveitam da sua superioridade na posse e na gestão da informação face aos seus competidores. Assim, estas falhas de mercado ligadas às assimetrias da informação têm hoje em dia grande importância nas estratégias empresariais e nos sistemas económicos.

3.    A SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E A DIGITALIZAÇÃO DA ECONOMIA
A Sociedade da Informação funcionará com o recurso crescente às redes digitais de informação. Por isso, o aprofundamento da Sociedade da Informação levou ao nascimento um novo meio global – a WEB – que se transformou rapidamente no mais importante factor de mudança económica, social e de negócios do novo século, na sequência do reforço da introdução das tecnologias da informação e digitais que vinham da 3ª Revolução Industrial.
A Sociedade da Informação utiliza em pleno as tecnologias da era digital
A digitalização consiste em transformar todos os sinais, voz, vídeo, dados, televisão, em combinações de bits em que o bit é a unidade elementar da informação que só tem dois estados possíveis, “0” ou “1”. Por isso, na era digital utiliza-se o chamado código binário correspondente ao conceito de bit. A era binária ajusta-se perfeitamente aos sistemas eléctricos, na medida em que num circuito eléctrico haverá dois estados possíveis, passa corrente (estado “0”) ou não passa corrente (estado “1”).
Na era digital tudo é convertido em bits, sendo o bit a unidade elementar da informação. A imagem seguinte ilustra a medida da informação:
    - quando atiramos ao ar uma moeda normal, com cara e coroa, depois de a lançarmos ficamos com a informação de qual a face que saiu, ou seja existe algo que podemos medir, que não sabíamos antes e que é informação. O resultado de uma experiência binária é portanto a quantidade mínima de informação que podemos ter e por isso se tomou para unidade, passando a designar-se por bit. Daí que a base 2 (só com 0 e 1) seja a base natural para lidar com informação.
Assim na era digital, cada sinal é transformado numa combinação de “0’s” e “1’s”. É então fácil de perceber que na era digital, as redes de telecomunicações apenas transportam bits sendo todos os sinais emitidos (voz, televisão, de vídeo, dados) transformados numa sucessão de bits que no fim da transmissão são depois descodificados e recuperados para a sua forma original.
Neste sentido é fácil então perceber que o que está em causa é o caudal de informação, ou seja o fluxo de bits que transportamos e qual a largura do canal digital para os transportar.
Assim sendo:
•    BITS/S = CAUDAL DE INFORMAÇÃO ou seja número de bits por segundo transportados (é equivalente ao caudal de água (m3) numa conduta)
•    LARGURA DE BANDA = CAPACIDADE DO CANAL DIGITAL ou seja número máximo de bits que se conseguem transmitir por segundo (é equivalente à largura duma conduta de água, pois quanto maior for o caudal de água a transportar – m3/s – maior terá de ser a largura da conduta)

4.    PORTUGAL NA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO
Portugal “falhou” a revolução agrícola e chegou tarde à era industrial. Há um atraso tecnológico no atraso económico português.
O condicionamento industrial foi, sem dúvida o aspecto mais conhecido da política industrial do anterior regime, tendo tido efeitos muito nocivos sobre a indústria e sobre o comportamento e as mentalidades dos empresários, atrasando o nosso desenvolvimento. Há também assim factores políticos na origem do atraso económico português.
A adesão à EFTA veio a dar a primeira experiência de abertura e de internacionalização da indústria portuguesa, mas a estratégia dos sectores pesados da era marcelista concebida e desenvolvida pelo Engº Rogério Martins fez-nos entrar, embora tardiamente, no modelo da 2ª Revolução Industrial quando este, agravado pelo 2º choque petrolífero, já dava sinais de esgotamento.
As nacionalizações no período revolucionário subsequente ao 25 de Abril configuraram um ataque altamente nefasto à estrutura empresarial privada e vieram rigidificar e agravar as condições de funcionamento duma indústria já então a necessitar de profundas alterações e acrescida flexibilização.
Assim nos arrastámos até à adesão política à Comunidade Económica Europeia. A mudança política com a integração na Europa vai forçar a uma mudança económica.
A competição no espaço europeu, acelerada com o Mercado Único Europeu, a política de privatizações desencadeada nos fins da década de 80, a estabilidade política conseguida em 1985, a capacidade empresarial revelada e o apoio dos fundos comunitários, de que o exemplo mais paradigmático é o PEDIP, permitiram a reanimação da indústria portuguesa e a aproximação aos padrões de funcionamento e de competitividade da indústria europeia. Em 1995, pela primeira vez as exportações de máquinas eléctricas e de material de transporte foram superiores às dos sectores tradicionais o que configura uma alteração da estrutura industrial portuguesa, aproximando-nos no espaço comunitário duma “especialização intraindustrial” em antítese ao comércio inter-industrial até então vigente (exportação nos sectores tradicionais e de recursos naturais com fraca transformação e importação de bens de equipamento, material de transporte e electrónica de consumo).

Com a entrada no euro, Portugal não teve “juízo”, expandindo dramaticamente o consumo público e privado e esquecendo-se de aumentar a produtividade, não tendo a oferta nacional reagido ao “boom” de procura. Passámos a ter uma procura tendencionalmente europeia e uma oferta nacional a nível infraeuropeu! Ainda hoje estamos a sofrer as consequências desse despesismo público, do irrealismo das políticas de rendimento e preços da altura inadequadas à presença numa União Monetária, e da ausência das necessárias políticas da oferta (“suply-side policies”) e das reformas estruturais.
Contudo nos dias de hoje, Portugal, se conseguir dar o salto para a era digital e para a Sociedade do Conhecimento, estará a criar as condições para, em ligação com as redes europeia e mundial, ser competitivo na Sociedade da Informação e do Conhecimento.
Com efeito, nos dias de hoje, a nossa ligação às “Auto-Estradas da Informação” reduz-nos pela primeira vez a nossa perificidade em relação ao Centro da Europa. Ao contrário das infraestruturas físicas clássicas (rodo-ferroviárias) utilizadas pela indústria portuguesa nas 1ª e 2ª Revoluções Industriais, a indústria “imaterial” da Sociedade da Informação e do Conhecimento estará em tempo real na economia internacional através das “Auto-Estradas da Informação”.
Mas faltam-nos recursos humanos qualificados, inovação empresarial, pragmatismo, bom senso e mentalidade para agarrarmos o novo modelo da sociedade da Informação e do Conhecimento na economia global. (Quadro I)

 

LUÍS MIRA AMARAL
Engenheiro e Mestre em Economia
Presidente Executivo Banco BIC Português

 

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